Quando a moda e a política se encontram no caminho

Afinal, a política influencia na forma como você se veste?


Texto e Fotos
por Francisco Toledo

Calças jeans, camisetas floridas e cabelos longos. Jovens marchavam em Paris, Washington e outras grandes capitais do mundo. Paravam as avenidas exigindo o fim da guerra e uma sociedade mais justa.

Ao mesmo tempo, músicas se tornavam a trilha-sonora dessa geração. As letras eram de protesto, mas o estilo visual de cada artista seguia o mesmo padrão de seus fãs e seguidores — a calça jeans, a camiseta florida e o cabelo longo.

Se a moda e a política um dia se encontraram no século XX, foi no final dos anos 60.

Mas essa relação é longa. Durante a Revolução Francesa, a burguesia indignada decidiu usar calças sem culotes, com o único objetivo de se diferenciar dos nobres.

Os punks, a revolução feminina, e tantos outros fatos históricos carregam uma ligação extremamente delicada entre moda e política.

Mas e nos dias de hoje, em um mundo tão carregado pela polarização de ideias e grupos separados em bolhas, qual a influência da moda na política? Aliás, essa influência ainda existe? Como?

Fomos em um protesto contra o aumento das passagens no transporte público em São Paulo para entender melhor essa relação, conversando com os manifestantes e questionando: afinal, a política influencia na forma que você se veste?

“Na minha vida eu não procuro ter mais que um par de tênis ou gastar muito com roupa”, disse Victor Amatucci, 30, que também criticou o que chamou de cultura de consumo, estimulada por marcas de roupas ao redor do mundo — “Existe um movimento contra essa cultura de consumo dentro da própria moda”, mencionou durante a entrevista.

Segundo a jovem Kimia Noda, 23, sua ideologia política não influencia diretamente na forma de se vestir, mas lembrou que na própria manifestação havia uma estética que prevalecia: “Em manifestações de esquerda, com uma maioria composta por jovens, existe sim um meio de se vestir bem específico, mas a minha visão política não se reflete em como me visto”.

“Eu me visto de tal maneira porque eu gosto. Mas eu acho que a minha visão política seria essa independente de outra maneira que me vestisse”, disse Kimia.

Na esquerda: Victor Amatucci, 30 | Na direita: Kimia Noda, 23

Mas não são todos os manifestantes que pensam da mesma forma que Victor e Kimia.

Para Gabriel Lindenbach, 28, a forma da pessoa se vestir não afeta apenas sua visão política, como também causa consequências que alimentam o próprio debate político.

“A sociedade de uma forma geral cobra, principalmente das mulheres, para se vestirem de uma determinada maneira mais comportada”, pontuou Gabriel, mencionando os casos de assédio e abusos pelos quais as mulheres passam no Brasil por causa da forma como se vestem, influenciando diretamente o movimento feminista a se mobilizar politicamente contra o machismo: “Eu acho que para além de uma vontade individual de usar a roupa que quer, também se torna um ato político a menina poder usar um shortinho ou uma saia curta, justamente para combater esse senso comum que determina que a culpa do assédio parte das mulheres”.

Mas e se a política ser parte do seu dia-a-dia?

É o caso da Sâmia Bomfim, 27, vereadora eleita pelo PSOL na cidade de São Paulo. Ela também esteve na manifestação e conversou conosco sobre essa relação entre moda e política.

Para Sâmia, tal ligação não apenas existe como também faz parte de seu cotidiano: “Em uma manifestação, por exemplo. É preciso que você vá com roupas que sejam seguras o suficiente ao sofrer repressão policial. Sempre precisamos nos preocupar em estar de calça jeans, de andar com um lenço e roupas leves”.

Recém-eleita vereadora, sua rotina na política também mudou sua forma de se vestir: “Eu por exemplo, agora estou com a experiência de vereadora. Lá dentro eu tenho que usar uma roupa absolutamente formal, salto alto, terninho, calça social… que são roupas que eu não costumo usar no meu cotidiano. Eu gosto de usar saia, roupas leves, porque eu acho que é uma forma de você poder se movimentar melhor pela cidade”, contou para a reportagem.

E você leitor: acredita que sua visão política influencia diretamente no modo de se vestir?

Na esquerda: Gabriel Lindenbach, 28 | Na direita: Sâmia Bomfim, 27
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