ANDYRÁ

A noite já estava chegando, mas o mais novo discípulo do templo ainda se dedicava à sua obra. Utilizando uma técnica há muito esquecida pela humanidade, o artista dava os toques finais à pintura.

O mestre se aproxima.

— Parabéns, Andyrá! Você soube dar vida novamente à lendária guerreira. — O mestre diz, orgulhoso de seu mais novo discípulo.

— Obrigado, Mestre! As aulas de História Ancestral são as mais inspiradoras para a produção artística. Talvez as antigas Musas ainda cantem por aí… — Andyrá diz, o mestre sorri.

— Elas nunca deixaram de cantar, mas poucos são os ouvidos capazes de compreender a melodia delas. Vou deixá-lo terminar a sua obra. Com licença! — O mestre diz e sai da sala destinada aos trabalhos de Arte Ancestral. Andyrá[1] dá as últimas pinceladas no quadro, então seu olhar se prende ao olhar da guerreira retratada por ele. O jovem discípulo, como se estivesse em transe, deixa sua mente vagar por um passado não muito distante. Ele se lembra do dia que mudou a sua vida.

— Europa! Outra vez?

Sim, Andyrá. E não reclame, as missões em Europa são as que dão mais lucro — O mercenário solta uma gargalhada. Sua imagem holográfica no comunicador da nave de Andyrá o torna mais engraçado do que é pessoalmente. Andyrá sorri.

— Você é uma figura, nobre Chang!

Dispenso seus elogios, animal das cavernas. E não se esqueça, você deve procurar por Amana[2]. Ela o aguardará no porto principal em Europa.

— Entendido! Até breve, bicho feio. — Andyrá diz sorrindo, desliga o comunicador e segue para a órbita de Júpiter, rumo à Europa.

No porto, em Europa, Andyrá dá as ordens a seus homens, depois segue para o salão de embarque, mas antes de sair da pista das naves, alguém o chama.

— Ei! Andyrá… — Uma voz feminina entra nos ouvidos do mercenário como se fosse a melodia mais perfeita já produzida por humanos. Era como se um encantamento o tornasse escravo daquela voz e, por um instante, Andyrá sentiu que sua vida já não o pertencia; ele teve medo de encarar a mulher que o chamou, e não quis olhar para trás. — Ei, velho morcego, Chang me pediu para esperar por você.

A voz é de Amana. Ela se aproxima e se coloca na frente do guerreiro. Uma mulher jovem, com feições angelicais usando trajes surrados de uma guerreira mercenária. Ao ver a divindade personificada em carne e osso, o encanto parecia ter se quebrado e Andyrá respira, aliviado por ter o controle sobre sua mente novamente. Ele sorri.

— Então você é a tão temida Amana!

— Hum! Chang me avisou sobre o seu sarcasmo… Vamos, sua lata velha demorou três dias pra chegar até aqui, não aguento mais esperar; há uma guerra que precisa ser finalizada… — Amana diz e puxa Andyrá pelo braço.

Os grupos de mercenários se reúnem com o Governo em Europa. Os objetivos e as posições são definidas. As guerras civis eram comuns de tempos em tempos, e a atuação dos exércitos mercenários sempre definiam as batalhas.

Amana e Andyrá uniram seus exércitos e lutaram juntos, no campo onde o conflito era mais intenso. Humanos em suas armaduras robóticas lutavam contra humanoides, drones e humanos munidos de armas de formas e tecnologias diversas. Era tradição entre os mercenários utilizar espadas, pois sentiam um prazer inexplicável ao atravessar o corpo do inimigo com o metal trabalhado de forma personalizada. A espada era uma extensão do corpo do guerreiro.

— ARQUEIROS… AGORA! — Andyrá comanda suas tropas.

Os arcos de energia só eram utilizados em combates mais intensos, pois os estragos causados por eles eram grandes.

Aquela batalha parecia não ter fim. Andyrá e Amana se encontram entre guerreiros enlouquecidos. Os dois seguem matando com suas espadas até se aproximarem. Então, de costas um para o outro, seus corpos se encontram para que possam conversar.

— Parece que pra cada guerreiro que matamos, mais dois aparecem… — Amana diz.

— É o que parece… Mas isso só me empolga mais ainda, guerreira! — Andyrá diz e os dois viram a cabeça, um para o outro.

Andyrá e Amana se olham nos olhos enquanto sorriem. As respirações ofegantes, o cheiro de sangue em seus corpos, a adrenalina gerada na batalha… A excitação foi inevitável, e os dois se sentiram totalmente atraídos um pelo outro, bastou um segundo para que seus corações se tornassem um só.

— Mulher… — Anyrá diz. Os dois estão se olhando nos olhos, quase hipnotizados. De repente, um grupo de guerreiros vem na direção deles, gritando como loucos.

— MORRAM! — Uma guerreira diz com muito ódio.

Amana e Andyrá se defendem, lutam com forças redobradas, pareciam um único guerreiro, invencível. Eles matam todos os inimigos ao redor. Quando o último corpo cai no chão, Amana puxa Andyrá pelos longos cabelos, que ele usava em dreads, e lhe dá um beijo forte e apaixonado. Andyrá solta a espada e aperta a mercenária em seu corpo, em um abraço, prolongando o beijo. Duas almas acabam de se conectar… Para sempre.

A batalha segue, mas Andyrá e Amana pareciam invisíveis para os guerreiros. Ao fim do beijo, eles se olham apaixonados, sorrindo.

— Como pude viver até hoje sem te conhecer? Minha doce Amana… — Andyrá diz. Os olhos de Amana brilham intensamente.

— Você me enfeitiçou, morcego… Agora vamos embora daqui, não posso mais correr riscos; e não posso ver sua vida se desprender da minha em um combate idiota. A mercenária temida morre aqui, enquanto uma nova Amana nasce, uma nova vida que precisa da sua pra existir…

Os dois líderes abandonam a batalha, sem se preocuparem com os destinos que ali se definiam. Pegaram uma nave menor no porto, e nenhum guerreiro nunca mais soube deles.

Após um tempo juntos, Amana e Andyrá decidem ter um filho; seria um novo frasco em que duas essências se fundiriam, formando uma essência nova. A ideia de estarem unidos para sempre através do filho lhes causava muita felicidade. Escolheram uma região isolada em Vênus para viver. Era uma moradia simples, no campo, longe da vida agitada na fronteira com o Clã.

Por dois anos foram plenamente felizes, até que Amana enfim consegue conceber um filho que, ao nascer, se despede da mulher que o gerou. Amana, a mulher que liderou grandes guerreiros em batalhas memoráveis, agora chega ao clímax de sua existência, e sua essência se desprende de seu corpo. Andyrá acompanhou o parto e pôde ver, no semblante sereno de Amana, a despedida do único ser humano que amou na vida.

Enquanto os amantes se despedem através da paz no olhar de Amana e do desespero e das lágrimas no olhar de Andyrá, um choro de recém-nascido é ouvido. A criança não teve o abraço da mãe e nem o abraço do pai. O humanoide que o ajudou a nascer o enrola em uma manta e o leva para outro quarto, para lhe dar os primeiros cuidados, enquanto Andyrá chora, com toda a sua dor, sobre o corpo de Amana.

Alguns meses se passam, Andyrá decide levar o bebê para ser criado pelo avô, que vivia na Lua. O avô recebe o menino com muito carinho, lamenta pela morte da filha, mas não faz muitas perguntas.

Com o bebê no colo, o avô conversa com Andyrá.

— Lamento que minha filha tenha partido, mas fico feliz em saber que não foi em uma luta sangrenta, mas sim, em um momento mágico da existência. — O homem diz. Andyrá olha para o velho como se as palavras dele não fizessem sentido. — O menino já tem nome?

— Ainda não… — Andyrá responde com dificuldade. Seu corpo parecia não ter mais energia vital.

— Então se chamará Huxley — O avô diz sorrindo para o neto. Andyrá não questiona.

— Muito obrigado! Adeus… — Andyrá diz e se vira, sem se despedir do filho. Quando está saindo da casa, o velho o questiona.

— E para onde você vai, rapaz?

— Ainda não sei… Talvez, morrer em uma batalha. — Andyrá diz. O velho busca um pequeno mapa.

— Antes de morrer, encontre esse lugar; mas antes de procurar o local indicado no mapa, vá até Marte.

— Marte? — Andyrá questiona, enquanto caminha ao encontro do velho, na sala.

— Sim. Você não sabe o que fazer do seu destino, então, deixe que o destino cuide de você…

Andyrá olha nos olhos do velho, então pega o mapa. Quando está na porta, coloca a mão em um dos bolsos de sua calça e pega um amuleto. Ele entrega para o velho.

— Pegue, este amuleto pertencia à mãe do menino. Ela me deu quando decidiu ficar comigo pra sempre… Guarde pra ele.

O velho pega o amuleto e sorri.

— Minha Amana turrona… Perto de mim sempre se mostrava cética, mas eu sabia que um pouco da minha essência pulsava dentro dela. Obrigado! Huxley vai cuidar muito bem dele…

Andyrá atravessa a porta sem olhar para trás. Nunca mais ele veria o filho.

Dentro de sua pequena nave, Andyrá senta em frente aos controles, então joga o mapa em um canto. Ele aciona os controles, depois olha para o mapa e o pega novamente.

— Atlântida? O que aquele velho continente teria pra mim? — Andyrá pensa alto. Sem saber direito porque, ele guarda o mapa e segue para Marte.

Andando pelas ruas movimentadas de uma cidade no planeta vermelho, Andyrá tromba em um jovem. O mapa cai e o jovem, gentilmente, o pega no chão; mas observa o mapa e depois olha intensamente para Andyrá.

— Me desculpe a indiscrição, mas, quem lhe deu este mapa? — O jovem diz. Andyrá pega o mapa.

— Foi um presente… Nem sei o que significa. — Andyrá diz. O rapaz sorri.

— Muito prazer! Sou Yama. Você tem para onde ir?

— Não.

— Venha comigo… Meu mestre pode te ajudar.

Um pincel cai no chão, Andyrá se abaixa para pegá-lo. Yama entra na sala.

— Hum! O Mestre tinha razão… Sua pintura está perfeita!

— Obrigado, nobre amigo! — Andyrá agradece.

— Agora vamos… Todos o aguardam na copa, para a refeição.

Andyrá olha mais uma vez para o quadro, e sorri para o rosto de Amana retratado no corpo da guerreira Ancestral.

— É assim a minha Artemísia… — Andyrá diz.

— Ela é como o Mestre a descreveu. — Yama diz, sorrindo para Andyrá. Os dois discípulos saem da sala e seguem para o refeitório do templo, para a última refeição do dia que termina.

[1] Andyrá = morcego (tupi antigo).

[2] Amana = chuva, água de chuva (tupi antigo).

Andyrá é personagem da série Habitantes do Cosmos.

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