O PRÍNCIPE, A CAMPONESA E O DRAGÃO

Era uma vez um lindo príncipe. Ele vivia muito feliz em seu reino, até que um dia se apaixonou por uma bela dama da nobreza. Por ele ser um príncipe, a moça não o rejeitou; e por um tempo eles foram felizes.

Só que a bela moça não amava o príncipe e, assim, ela logo perdeu o interesse pelas declarações de amor do rapaz. O príncipe, sentindo a rejeição de sua amada, tentou agradá-la a cada dia mais, imaginando que dessa forma conquistaria seu coração. Mas a moça se tornava a cada dia mais indiferente e mais impaciente com o príncipe. Várias foram as humilhações passadas por ele, várias foram as mágoas geradas pela falta de amor da moça; até que em uma bela manhã, um jovem lenhador, encantado pela beleza dela, decidiu raptá-la e levá-la para longe do castelo. O príncipe se desesperou e mobilizou os melhores guardas do rei para encontrar sua amada; mas, para sua grande decepção, quando a moça foi encontrada, já havia se casado com o lenhador e se decidido a viver com ele para sempre.

O nobre príncipe então retorna para o castelo, mas pediu aos guardas que o prendessem na torre mais alta; e para que ninguém se aproximasse, um grande e furioso dragão passou a vigiá-lo noite e dia.

O príncipe também solicitou que um feiticeiro poderoso selasse a porta da torre com um encanto que impedia a entrada de mulheres e que, ao mesmo tempo, o impedia de sair. O feiticeiro, vendo a triste condição do príncipe, cumpriu a sua vontade, mas, sem que o príncipe soubesse, colocou uma condição para a libertação do jovem. Somente uma mulher que conseguisse matar o dragão e que tivesse em seu coração o verdadeiro amor poderia entrar na torre e devolver a liberdade ao príncipe.

Assim, o jovem príncipe passou anos, trancado sozinho em sua torre com suas mágoas, sua tristeza e seu medo de amar novamente.

Entre as moças do reino houve muitos lamentos, pois várias eram as pretendentes do belo príncipe. Um dia, o feiticeiro espalha a notícia de que seria possível salvar o rapaz e, quem conseguisse, teria uma chance de se casar com ele, mas explica as condições. Mesmo diante do perigo, várias jovens corajosas decidiram enfrentar o monstro que rondava a torre, mas ano após ano todas elas eram vencidas pela fera.

O príncipe já havia se acostumado com sua solidão. Seu coração já estava duro como rocha, e julgou estar curado das amarguras do amor. Mas jamais sairia daquela torre, mesmo porque, o encanto do feiticeiro não poderia ser desfeito. Com o tempo, o príncipe começou a sentir o peso de viver só, mas não ousava mais ter esperanças.

Nessa época, uma simples camponesa, de temperamento difícil, estava passando por aquele reino, e no mercado ouviu a triste história do príncipe. Vendo um quadro com a imagem daquele homem desenhada, algo tocou o coração da camponesa e ela decidiu ver por si mesma o tamanho da fera que rondava a torre.

A jovem corajosa se aproximou do castelo, somente com as roupas que vestia. Nenhuma proteção, nenhuma tática, nenhum plano de fuga; ela tinha apenas sua curiosidade, sua intuição e sua coragem. A camponesa observou de longe o grande dragão durante uma semana. Percebeu que o monstro dormia por alguns minutos durante certos dias, e esperou o sono do dragão para subir na torre e ver de perto o tal príncipe isolado do mundo.

E assim ela fez. Em um dos cochilos do monstro, a camponesa corajosa escalou a torre e da pequena janela observou o príncipe dormir. Uma força estranha tomou conta de sua alma e ela ficou paralisada diante daquela cena. A camponesa tentou, mas não conseguiu desviar os olhos daquele belo homem e, quando ele acordou, seus olhares se cruzaram e ela quase caiu. Mas antes que pudessem trocar qualquer palavra, a fera começou a despertar. A camponesa olhou para o príncipe mais uma vez, como se estivesse se despedindo, e desceu rapidamente da torre, em uma fuga desesperada do monstro alado.

Por muito pouco o dragão não matou a camponesa e, quando ela estava a uma distância segura, mal conseguiu acreditar que pôde escapar. Seu coração estava disparado, sua respiração ofegante, o medo ainda corria em seu corpo, mas a lembrança dos olhos do príncipe fez com ela sorrisse como se nada mais fosse tão importante e tão belo em todo o universo.

Na torre, o príncipe começou a sonhar com os olhos da camponesa, na verdade, com a esperança do amor que ele viu dentro deles. Ele então se arrependeu de ter se trancado na torre, mas já era muito tarde. Agora, sua liberdade dependia daquela bela camponesa; mas como ela sozinha poderia matar o dragão?

Como os homens não eram afetados pelo encanto do feiticeiro, a camponesa passou a trocar bilhetes com o príncipe através dos criados do castelo. A cada bilhete o amor entre eles se tornava mais forte, e o príncipe voltou a ter esperança. Mas o dragão ainda rondava a torre.

A camponesa sabia que mesmo com as melhores armas e armaduras seria impossível vencer aquele dragão. Ele era muito grande e muito forte. Ela não o temia, mas sabia que perderia todas as batalhas, mesmo que lutasse pelo resto da vida. Então ela decidiu procurar pelo feiticeiro, que logo lhe deu uma preciosa dica. “O dragão é alimentado pelo príncipe. A fera se alimenta de seus medos e suas inseguranças; enquanto o príncipe o alimentar, ele será invencível”; assim disse o feiticeiro.

A camponesa escreveu um bilhete para o príncipe contando a fraqueza do dragão e pedindo a sua ajuda. Ela lhe disse que a única chance que teriam de viver juntos seria trabalhando em equipe. O príncipe deveria se livrar de seus medos e, assim, com o dragão enfraquecido, ela teria a chance de enfim matá-lo. Mas o príncipe já não sabia como se livrar de seus medos e, sem esperança, decidiu enviar um bilhete com palavras duras para que a camponesa desistisse dele e seguisse seu caminho.

Ao receber o bilhete, ela logo percebeu do que se tratava. Ele estava tentando protegê-la de um destino tão solitário quanto o dele, pois já não se julgava capaz de vencer seus medos. Ela pensou em desistir, pois sabia que sem a ajuda do príncipe não havia muito a ser feito; mas o amor em seu coração a fez persistir. Ela imaginou que talvez se ele aprendesse a confiar no seu amor encontraria forças para lutar contra os seus medos. Ele fez de tudo para afastá-la, mas ao perceber sua determinação e sua coragem teve vergonha de sua própria covardia, então decidiu lutar também.

E, confiante no amor daquela simples camponesa, o príncipe foi vencendo seus medos um por um a cada dia; assim, o terrível dragão foi se enfraquecendo até que um dia a camponesa pôde cravar no coração do monstro a sua espada, eliminando para sempre as barreiras que impediam que ela e seu grande amor vivessem felizes para sempre.

O dragão foi enterrado na colina mais alta do reino, e todos os anos o príncipe vai visitar o seu túmulo, para nunca mais esquecer que um dia aquele monstro foi grande, mas só porque ele o alimentava. E toda vez que o príncipe olha para a inscrição naquela lápide, lembra-se do que deve fazer para preservar a sua felicidade — “Nunca alimente o Orgulho”.

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