RESENHA — QUASE O FIM, de Leila Plácido.

Como uma adolescente brasileira narraria os fatos observados em uma espécie de Apocalipse? É o que Leila Plácido nos apresenta em Quase o Fim.

Zoé é uma brasileira que vive em Manaus. Um dia, sem mais nem menos, sua cidade é atacada com bombas e a protagonista sente dificuldade em acreditar que algo tão Hollywoodiano estaria acontecendo no Brasil.

Nos capítulos dois e três estamos juntos com a personagem em uma gruta. Nesses capítulos somos apresentados à personalidade divertida e confusa de Zoé, que começa a escrever uma espécie de diário, e descobrimos que ela está sozinha e com um ferimento grave na perna. São dois capítulos ao mesmo tempo envolventes e angustiantes, pois a personagem fala sem parar, mas não revela o que aconteceu de tão catastrófico que a leva a afirmar que está assistindo ao fim do mundo. Só pistas rasas são reveladas no início, o que, pela curiosidade, dá vontade de pular páginas, mas é uma vontade que não se concretiza pela curiosidade de ler as linhas escritas por Zoé, que nos leva a refletir sobre diversas questões.

O que trouxe o “apocalipse” vai sendo revelado aos poucos ao longo da narrativa, logo, não vou dar spoiler. ^^ … Mas adianto que ao longo do texto somos convidados a refletir sobre questões humanas que envolvem crenças, baseadas em desinformação, e motivações egoístas para guerras.

O livro se trata das memórias de Zoé, que nos conta fatos sobre sua vida e sobre os dias que se seguiram ao primeiro bombardeio em Manaus.

Um ponto alto na história é a originalidade da autora. Além do texto ser bem original, a história se passa em Manaus. A Cultura local e a Cultura brasileira como um todo ficam registradas nas páginas do livro. É um olhar BR sobre o fim dos tempos, e só por isso já merece ser lido.

Quem, pelo amor de Tupã, iria querer bombardear Manaus?

A autora soube construir um texto bem coerente com a condição psicológica de Zoé, após presenciar cenas traumáticas de mortes e destruição: Confusão mental, pânico e, como boa brasileira que é, um senso de humor que beira a insensatez, diante de uma tragédia.

Mais do que falar do fim do mundo, Leila Plácido, através de Zoé, fala do fim. A personagem, com seu jeito debochado, nos convida a pensar sobre a morte, sobre o nosso medo e fascínio por essa entidade que nos acompanha durante toda a vida, mas da qual não temos muita consciência ou preferimos não ter.

Zoé aborda a questão da tendência humana a se sentir fascinada pelo fim de tudo e, ao ser espectadora do fim, ela percebe que assistir ao fim de tudo pode ser empolgante, desde que isso não signifique seu próprio fim.

Eu gostava e também não gostava de pensar sobre o fim do mundo […]

Enfim, em alguns momento eu só gostava porque a vista da destruição parecia espetacular e também porque, em certas ocasiões, acreditava que o ser humano já tinha dado o que tinha para dar. Em outros, no entanto, as coisas saíam do controle e a rocha gigantesca findava conseguindo fazer seu trabalho, que era colocar minha existência na mesma classe dos dinossauros e mamutes, o que me levava a considerar que a humanidade ainda podia dar mais algumas coisas.

Ao discutir o anseio que muitos de — ou talvez todos — nós temos por presenciar o Apocalipse, o texto nos remete ao fato de que fomos criados mesmo para ser espectadores, somos os olhos do criador apreciando a própria obra. Talvez por isso nunca nos cansamos de criar e ouvir/assistir histórias. E quanto ao fascínio por histórias de calamidades, talvez se justifique por nosso lado imortal, para o qual a morte não existe, e que por isso não se cansa de assistir a diversos fins, com a certeza de que a eles se seguirão diversos (re)começos. Mas ser parte do fim angustia nosso lado mortal, não por medo da morte, mas pela tristeza de saber que nunca mais seremos protagonistas, criadores ou espectadores de nenhuma história.

Super recomendo Quase o Fim. ☺☺☺☺☺

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