De um lado do espectro, fardas e armas carregadas por homens — se é que tenhas-vos lhe sobrado algum traço de humanidade; Do outro, sonhos, lembranças e medos que acabaram de se encontrar em seu último momento de existência em nosso atual plano físico. Entre os disparos, gritos, rugidos, que ora pregavam os mais puro e doentio ódio, ora clamavam com uma intensidade exponencial por misericórdia, mal notasse uma figura um tanto quanto excêntrica, porém sua presença em tal ambiente era quase tão óbvia e imprescindível, como tentar explicar porque a noite o céu fica escuro. Tal figura era a própria morte, representada como você, leitor, queira imaginar, seja um mórbido esqueleto humano trajando um longo sobretudo negro, portando uma foice (você sabe, a visão tradicional ocidental) ceifando um por um os alvos humanos aos quais aquele enxame de balas estava direcionado. Aliás, não importa a maneira como qualquer cultura queira representa-la(o), ela(e) se manifesta a você de uma maneira individual e praticamente exclusiva, ela(e) é o que você a(o) escolhe para ser; o que é, simultaneamente, a mais bela e mais aterradora última visão que um ser humano possa ter. Ela estava ali parada, observando aquela tamanha atrocidade, parecia que até estava hesitando de se mover ou tomar alguma atitude, começou a considerar o maldito fardo que era o seu próprio dever e razão de sua existência. Certamente de tanto conviver e desconviver os humanos, ela havia aprendido a ter sentimentos e a pensar, algo que nunca é bom para uma força natural do universo.