A LIBERDADE SUICIDA

No uso de sua liberdade individual o homem dispõe de vários meios possíveis para destruí-la ou implantá-la. Quando a destrói, destrói-se a si mesmo como homem e deixa de ser homem para se colocar na faixa intermediária da evolução entre o animal e o homem.

O homem é liberdade por se constituir no único ser da Terra que dispõe da liberdade possível em grau consciencial. Sua consciência é livre mesmo quando submetida a todos os graus possíveis de restrição da liberdade. A manifestação de sua liberdade pode ser impedida, mas na sua realidade íntima ela continua pura e inviolável. Só cederá às influências de um ambiente asfixiante da liberdade se o quiser. Essa é a sua tentação para a queda e a sua maior possibilidade de manter-se acima do nível de evolução moral do seu tempo.

Basta-lhe, para isso, aceitar a cicuta, como Sócrates, o martírio e a cruz, como Cristo, ou preferir o isolamento social (exílio voluntário no meio social) como Croce, em meio ao fascismo, esperando que o féretro do regime liberticida passasse pela frente de sua casa. Não é omisso nem covarde o que assim procede ou que foge para lugares livres para poder continuar a luta pela liberdade. A sustentação da liberdade dispõe também da sua estratégia. Quem usa a estratégia possível para escapar à avalanche esmagadora e sustentar a chama do ideal em meio às trevas é mártir em potencial e herói em ato. Por tudo isso o homem não é só liberdade em si mesmo, mas também o factor da liberdade, ou seja, aquele que faz a liberdade. Fazer a liberdade é aplicá-la ao meio social.

No uso de sua liberdade individual o homem dispõe de vários meios possíveis para destruí-la ou implantá-la. Quando a destrói, destrói-se a si mesmo como homem e deixa de ser homem para se colocar na faixa intermediária da evolução entre o animal e o homem. A palavra covarde define essa sub-espécie, na qual também se integram os que abusam da força para ações liberticidas. Os que pactuam com os liberticidas por interesses pessoais ou de grupos são os réprobos da consciência e geralmente acabam condenados e executados pela sua traição nas mãos dos traidores.

Como factor da liberdade o homem procurou, em todos os tempos, encontrar a fórmula social e, portanto, política de se estabelecer e manter uma estrutura política livre, aberta à atividade comum de todos os que anseiam pela implantação de uma possível liberdade institucional. A forma grega da democracia política, revivida pela Revolução Francesa, expurgada da mancha escravocrata da instituição ateniense, parece ainda hoje a mais viável. Não obstante, os Três Estados da tradição europeia — Reinado, Nobreza e Clero –, apoiados no poder militar, projetaram na República a sua sombra e a sua marca. O militarismo encontrou em Napoleão Bonaparte o gênio estratégico que se incumbiria de vingar os Estados sacrificados pela Revolução na era da liberdade. As cabeças cortadas pela guilhotina do terror serviram de pedestal para a cabeça arrogante do Corso, transformado em conquistador do mundo. O sonho de liberdade dos ideólogos franceses morreu nas estepes russas e foi enterrado em Waterloo.

Mas a América o retomou implantando de novo a República que havia fracassado em Atenas, Roma e Paris. Não havia outro modelo a seguir. A República Americana de Washington manteve o sistema escravocrata do primeiro modelo grego que Roma adotara. E Lincoln, para extingui-lo, teve de imolar-se, desencadeando a guerra intestina dos interesses econômicos ameaçados. A ironia francesa vingou-se da petulância dos ianques, enviando-lhes um presente de grego em modelo francês: a Liberdade em estátua.

Uma análise superficial desse esquema sucinto nos mostra que a liberdade não admite contradições. A democracia escravocrata da antiguidade pereceu por falta de legitimidade. A democracia americana conseguiu sobreviver ao extinguir oficialmente a escravidão. O sistema democrático fascinou o mundo e tornou-se o modelo convencional da preservação política da liberdade social.

Mas por toda parte os regimes democráticos tiveram de escudar-se nas armas para sustentar-se. E como as armas defensivas da liberdade podem voltar-se contra ela nos momentos de crise e o desenvolvimento industrial criou o operariado e o campesinato em substituição à servidão medieval, a contradição social das classes e o desenvolvimento tecnológico se incumbiram de restabelecer, em bases econômicas definidas e em proporções gigantescas, o panorama das contradições internas da democracia política.

Um profeta judeu extemporâneo e exbíblia, Karl Marx, amparado por um anjo de carne e osso, Engels, incumbiu-se de sonhar com um novo tipo de liberdade social em termos de dialética bíblica. A terrível batalha da liberdade social desencadeou-se no mundo sob a inspiração contraditória de Jesus e Espártaco. A liberdade em estátua da ironia francesa só não foi arrancada do seu pedestal porque a tecnologia da guerra também se desenvolveu rapidamente e envolveu o planeta nos seus tentáculos de aço e fogo. Asas metálicas, carregadas de bombas destruidoras de todas as esperanças, encheram os céus e peixes bíblicos, superiores ao que engoliu Jonas, infestaram os mares. O impasse da liberdade marcou os sonhos humanos com o signo da fatalidade, como o sinal de Deus na fronte de Caim. O mundo se dividiu em sistemas sociais e políticos antípodas e neles a liberdade continuou a voar como a pomba ingênua e o corvo inútil da Arca de Noé, anunciadores líricos de um fim de tragédia que apenas começava.

Essa parábola histórica repete aos nossos olhos e ouvidos as advertências e os ensinos de Jesus de Nazaré, denunciando ao mesmo tempo a contradição romana dos si vis passe, para bellum. A preparação da guerra a que hoje assistimos não nos dá nenhuma esperança de paz. O que temos pela frente é a terrível ameaça de uma guerra de devastação total, que já nos aniquila antes mesmo de deflagrar. Pode ser que a mão de Deus nos detenha na beira do abismo, para nos fazer retroceder trêmulos e humildes pelos caminhos da nossa loucura e da nossa arrogância.

Só então compreenderemos, diante da evidência, que a liberdade criadora pode transformar-se, quando as ambições desmedidas dominam o espírito humano, numa forma de liberdade suicida. Essa forma de liberdade invertida nos acompanha desde que o mundo é mundo, mas fascinados pelos seus resultados parciais, nunca aprendemos as suas lições. A liberdade de estimular rivalidades, em proveito próprio ou de grupos, de exaltar o crime e conceder honrarias aos que sabem matar e destruir com habilidade e presteza, de preparar a juventude para a desconfiança, o ressentimento e o ódio e de usá-la em hordas armadas na engrenagem devoradora das lutas intestinas e das guerras contra todas as conquistas sacrificiais da Civilização.

Essa liberdade suicida manifesta-se de muitas maneiras no desenvolvimento da cultura, alimentada pelos resíduos do instinto selvagem que deforma o juízo e envenena a razão. Liberdade suicida é também a dos artistas e intelectuais que se entregam ao delírio das concepções niilistas do mundo sem finalidade, da vida sem sentido e do homem como senhor absoluto da Terra. Mas também é das filosofias das serpentes, sinuosas e venenosas, que fazem de Deus um tirano e do amor a Deus uma fonte de ódios e matanças.

É ainda a das exaltações fanáticas e fantasiosas do patriotismo transformado em xenofobia, preparando o caldeirão das guerras de conquistas e subjugação; e mais do que tudo isso, a das doutrinas econômicas que reconhecem, propagam e defendem os direitos de espoliação, da capacidade transformada em virtude, da exploração organizada e sistemática das camadas inferiores da população, do direito de acumulação de riquezas em detrimento dos que só podem acumular miséria e desamparo, marginalizados como párias porque tiveram a desgraça de nascer dos pés de Brama e não da cabeça, como se a divindade se dividisse em contradições de bem e mal, superior e inferior como a estupidez humana.

A tal ponto chegaram os excessos de liberdade suicida que voltamos à matança herodiana dos inocentes, na esperança de matarmos o enviado celeste que se atreva a nascer entre os homens e perturbar-lhes a rotina animalesca das ambições, na estranha sensação da corrida para a morte. Em nome da jurisdição humana do planeta institui-se de novo o reino das bacanais para o gozo livre das sensações da carne sem o incômodo da continuidade da espécie. Werfhan denuncia corajosamente, nos Estados Unidos, os fins espúrios do neomaltusianismo, nascido das entranhas infames do racismo e criado nos seios estatísticos da mentira, para satisfação dos que vivem a negação do direito de viver aos que virão suceder-nos. Mas a sua denúncia soa no vazio, como um eco sem sentido que nos chega de mundos imemoriais.

Os teólogos da linha nietzscheniana proclamam a morte de Deus e a farândola da loucura dança em ritmo de agonia em torno do túmulo descomunal. É tão densa a loucura que, nesse pandemônio, os que vivem e se julgam no direito de gozar livremente a vida negada aos outros, acabam entregando-se ao suicídio dos tóxicos, renunciando ao privilégio que lhes é concedido. Implantando a incoerência das contradições, usam do direito do suicídio na tentativa inglória da fuga a si mesmos. A inteligência das elites, lembrando a esbórnia de Noé no Monte Ararat, para comemorar o êxito falso do dilúvio, atira-se nua e delirante, sem sequer um biquíni de lógica, ao mar sem horizontes que nasce de alambiques para escapar ao mar poluído em que a morte é salgada e suja, como as barbas de Netuno. Sexo, alcoolismo e tóxicos formam a trindade diabólica que substitui a divina, desgastada na vendagem bimilenar dos estoques de simonia.

A liberdade suicida é a mais prática, a mais adaptada aos tempos de transição. Enquanto a liberdade vital implica responsabilidades esmagadoras para a frágil consciência da atualidade, a liberdade suicida proporciona prazeres imediatos e oferece a recompensa do nada. Sartre chegou à conclusão de que, diante do nada, a categoria filosófica do sério deixou de existir. Um homem sério não passa de um debilóide ou louco manso contemporâneo dos megatérios. E não se pode recriminá-lo por isso, pois se toda a seriedade do passado nada mais produziu do que a baderna de hoje, é claro que os antigos solenes varões de fraque e cartola andavam de rabo e capacete para esconder a própria fraqueza.

Eram uns tímidos fantasiados de varões de Plutarco e acabaram enterrados nos mausoléus da hipocrisia. Esse raciocínio justifica as fanfarronadas de Mussolini e o histerismo sádico de Hitler. Dos três grandes da II Guerra Mundial, defensores da liberdade ameaçada, pouco restou de sério. Roosevelt foi desmistificado pelo próprio filho, Churchill tramava em segredo a traição a Stalin e este, com seus bastos bigodes de czar vermelho, mandava os amantes da liberdade para as geleiras da Sibéria e os campos de trabalho forçado.

A única figura realmente séria desse tempo foi Gandhi, que deixou-nos uma imagem de subnutrição que não conseguiu enternecer os glutões de após guerra e teve, por fim, como ironia do destino, a contrafação de Indira Gandhi a desgastar o seu nome nos desvarios do poder e na supressão das liberdades políticas. Sartre, que via o mundo com um só olho e acaba de perdê-lo, mergulhando na cegueira com a conformação de um santo, acabara canonizado pelo Vaticano em substituição a algum santo cassado. O próprio Cristo, que os teólogos da Morte de Deus nomearam substituto eventual do falecido, está ameaçado em seu prestígio, pois o Papa atual declarou, recentemente, que quem não acredita no Diabo não é cristão.

Nesse desmoronar de um mundo que envelheceu demais e revela sinais indisfarçáveis de agonia, só deverá sobrar para as gerações futuras, se existir a herança do nada, esse conceito que Kant considerou vazio, o único desprovido de conteúdo. Outra curiosa concepção de Sartre, corolário dessa, é a da consciência vazia. Esse terrível antagonista de Deus, mito mais importante que o Diabo, empenhou-se em mostrar que, se Deus tirou o mundo do nada, ele o devolveria ao nada. Caolho de nascença, não temia nada e tudo perfurou com a sovela do seu olho único. Como nenhum Davi apareceu para furá-lo, nem mesmo na resistência francesa, ele próprio se incumbiu de devolver o seu olho ao nada com doses maciças de anfetamina, enquanto escrevia seu último volume monumental, a Crítica da Razão Dialética.

Certo de que vai mergulhar na frustração do nada, sem atingir a divindade na transcendência, afirmou que a consciência reflete o mundo e para fazê-lo só pode ser vazia. Um psicanalista lhe disse que ele não possui superego. Sartre concordou plenamente com o especialista, embora não acredite na Psicanálise. Para que lhe serviria o seu superego, se o que lhe interessa é o ego? Uma carga a menos para carregar na existência sem sentido e sem proveito. Frio e generoso, um perdulário das gorjetas, quando lhe perguntaram por que motivo distribuía tanto dinheiro aos garçons de cafés e hotéis, respondeu na linha do seu socialismo livre: Quem vive de gorjetas precisa recebê-las.

Considerando o mundo opaco e rígido, defendeu sempre a liberdade porque o homem é a única brecha de liberdade no mundo e tem a obrigação de defender a sua livre posição. Apesar disso, considera que os outros são o inferno e quando visitou a Rússia só aceitou o programa da visita, feito pelo Partido, quando este concordou em lhe conceder uma boa cota de solidão para escapar ao inferno. Tudo isso e mais a teoria da angústia fizeram dele o expoente do Existencialismo Ateu. Juliette Grecco explorou a sua presença contínua no Café de Fiore para instalar ali o seu reino artístico de Musa do Existencialismo.

Simone de Beauvoir lhe perguntou porque permitia isso e ele respondeu que o problema era da cantora. É sem dúvida o precursor do cada um na sua. Não obstante, a liberdade sartreana não é individualista e gratuita. Tornou-se comunista e deixou o Partido por falta de liberdade. Considerou sua filosofia, humildemente, como um simples enclave do marxismo, destinado a insuflar-lhe um sopro de liberdade. Essa figura atual e atuante, apesar da cegueira recente, é sem dúvida o maior campeão da liberdade em nosso mundo.

Entusiasmou-se com Fidel Castro e escreveu um livro sobre ele, mas acabou condenando-o por causa da falta de liberdade em Cuba. Com Bertrand Russel fundou o Tribunal Internacional para julgamento dos crimes contra a liberdade, com base nos julgamentos do Tribunal Aliado que em Nurenberg condenou os criminosos de guerra nazistas. Não podendo instalar o Tribunal na Inglaterra nem na França, instalou-o na Suíça. Um tribunal estritamente consciencial. Suas condenações pesam na consciência das nações que praticaram e continuam a praticar os crimes da liberdade suicida. A importância da filosofia de Sartre está na razão direta da sua compreensão da importância da liberdade. Suas contradições são a marca da liberdade de pensar em sua trajetória filosófica e em seu comportamento individual.

Não podemos condenar Sartre por seu ateísmo, que é o fruto natural de uma época de deslavada exploração de Deus em todo o mundo. A insinceridade dos adoradores interesseiros do Todo Poderoso o levaram ao ateísmo. Infenso à metafísica, teve de servir-se dela em O Ser e o Nada para explicar a projeção do ser na existência como sendo o em-si de Hegel, naturalmente à la Sartre, o que também pode ser interpretado como à la carte.

A contribuição mais importante de Sartre para a questão da liberdade talvez seja a da consciência vazia, justamente a que mais escandaliza os construtores da consciência. Com essa parábola filosófica ele nos lembra que a consciência só existe quando voltada para o mundo, para os seus problemas e as suas angústias. Uma consciência estruturada à moda clássica, com todos os ingredientes históricos que lhe atribuem, geralmente se perde em si mesma e se desliga da realidade exterior. É preferível tê-la vazia, aberta a toda a realidade, do que recheada pela massa histórica das tradições, que amarra o homem ao passado. Uma consciência livre esvazia-se como fez Descartes com a sua, de todos os preconceitos e superstições que deformaram o homem e produziram a sua queda, seguindo a proposição de Rousseau. Os homens, demasiado sábios, sabem muito das experiências alheias e pouco ou nada das suas mesmas, que são as mais importantes para compreensão da liberdade.

Quanto às crenças do passado, transmitidas pela tradição cultural, merecem estudo e pesquisa, como disse Descartes ao sair do Colégio Jesuíta de La Fleche. Que prova ou garantia nos dá da existência de Deus o que a afirma só porque recebeu a informação dos velhos crentes desaparecidos? O princípio da liberdade exige a franquia plena do pensamento filosófico em todas as direções do Conhecimento, para que este se torne válido. As consciências carregadas de experiências alheias são carretas pesadas de mercadorias muitas vezes deterioradas, sem agilidade suficiente para a aventura das pesquisas e sem mobilidade para variar de direção. Cada consciência é realmente um refletor do mundo e sua mutabilidade é constante, o que vale dizer sem sua instância criadora.

Os tempos dos alfarrábios e dos sábios milenares morreu na última visita da rainha de Sabá ao Rei Salomão, que a aproveitou para gerar a raça abissínia, o que muito honra a tradição da Etiópia. Como se vê, foi de um ato de amor livre, entre nobres figuras reais, que nasceu na Terra uma nova raça dotada de bravura leonina, exemplo de livre miscigenação nos tempos bíblicos. Não fosse esse ato, a Etiópia jamais teria deixado de ser um domínio dos leões em luta com tribos negras selvagens.

PIRES, José Herculano. Os Sonhos de Liberdade.

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