A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

A consciência da unidade ou identidade suprema é a natureza e a condição de todos os seres vivos.
Ken Wilber

A psiquiatria tradicional ao rotular o paciente segundo uma sistemática cartesiana e reducionista, isolando-o física e conceitualmente de seu contexto, caiu no mesmo erro conceitual da ciência médica moderna confundindo o processo e as origens das doenças. Coloca de lado toda a imensa rede de interrelações que caracterizam a condição humana, postulando a doença mental como decorrente dos mecanismos bioquímicomoleculares orgânicos. Este enfoque, hoje utilizado pela grande maioria dos psiquiatras, conduz a uma terapêutica de bases quase que puramente farmacológica, voltada somente para a supressão dos sintomas por meio de drogas. Um dos primeiros psiquiatras a denunciar este erro foi R. Laing que concebeu a loucura como uma reação sadia a um ambiente social insano, considerando as psicoses como estratégias especiais dos pacientes para sobreviverem em situações insuportáveis. Revivendo o valor da música, da poesia, da filosofia, da meditação, e utilizando medicamentos expansores da mente, Laing mergulhou profundamente nos múltiplos domínios da consciência humana, estabelecendo uma nova abordagem das doenças mentais.

Foi Abraham Maslow quem primeiro falou em uma “quarta força” na psicologia, mais tarde denominada psicologia transpessoal, ao perceber pontos de contato com a psicologia humanística que ele mesmo denominara “terceira força” em 1957. A abordagem humanística trabalha com as capacidades e potencialidades humanas não analisadas sistematicamente pela teoria positivista ou behavionsta (“segunda força”), nem pela teoria psicanalítica clássica (“primeira força”, tais como “criatividade, amor, self, crescimento, organismo, necessidades básicas de satisfação, auto-realização, valores superiores, jogo, transcendência do ego, objetividade, autonomia, identidade, responsabilidade, autenticidade, significado, saúde patológica, experiência transcendental, coragem, etc.” Autores cujos trabalhos caracterizam esta abordagem são: Goldstein, May, Fromm, Horney, Rogers, Maslow, Allport, Angyal, Buhler, Moustakas, Sutich, e alguns aspectos dos escritos de Jung e Adler.

Em 1966, Maslow, um dos fundadores da já então próspera e independente American Association for Humanistic Psychology, foi convidado para participar de um seminário intitulado “Teologia Humanística”, em Hot Springs, Big Sur, Califórnia, co-patrocinado pelo Esalen Institute. Neste seminário, segundo Anthony Sutich e o próprio Maslow, ficou evidente que a psicologia humanística “estava sendo erradamente identificada com uma nova força emergente na psicologia”. Inicialmente, foi proposto o termo “trans-humanística”, por Sir Julian Huxley, para caracterizar esta nova força emergente. Em setembro de 1967 Maslow apresentou publicamente a “quarta força” no campo da psicologia, em uma conferência na First Unitarian Church em São Francisco. No entanto, somente em 1968, durante uma discussão da qual participaram Maslow, Viktor Frankl, Stanislav Grof e James Fadiman, em que se observou uma insatisfação geral como termo “trans-humanística” (título da nova revista que representaria a “quarta força”) é que foi proposto o nome transpessoal, cunhado por Grof, para a nova psicologia emergente. Esta nova força relaciona-se com o que Maslow e outros denominaram “estados finais”. Outros nomes propostos foram campo do “significado último”, do “objetivo último”, do “ponto ômega”, das “universidades”, e “psicologia das relações últimas”. Estes termos ultrapassam a definição da psicologia humanista, delineando uma área de pesquisa “pessoal”, além dos limites usuais da investigação científica. Sutich define assim a psicologia transpessoal: “psicologia transpessoal (ou “quarta força”) é o título dado a uma força emergente no campo da psicologia, representada por um grupo de psicólogos e profissionais de outras áreas, de ambos os sexos, interessados naquelas capacidades e potencialidades últimas que não possuem um lugar sistemático na teoria positivista ou behaviorista (“primeira força”), na teoria psicanalítica clássica (“segunda força”), ou na psicologia humanística (“terceira força”)”.

“A psicologia transpessoal emergente (“quarta força”) ocupa-se especificamente do estudo científico empírico e da aplicação das descobertas importantes nas seguintes áreas: metanecessidades, no âmbito individual e da espécie; valores últimos; consciência unitiva; experiências de pico; valores B; êxtase; experiência mística; respeito; ser; auto-realização; essência; felicidade; milagres; significado último; transcendência do self; espírito; singularidade; consciência cósmica; sinergia individual e da espécie; máximo encontro interpessoal; sacralização da vida cotidiana; fenômenos transcendentais; alegria e diversão cósmica; consciência sensorial máxima; responsabilidade e expressão; e dos conceitos, experiências e atividades relacionadas. Como definição, esta formulação deve ser entendida como sujeita a interpretações opcionais, sejam elas individuais ou de grupos, com relação à aceitação de seu conteúdo como essencialmente naturalista, teísta, sobrenaturalista, ou qualquer outra classificação que lhe for dada”.

A cartografia do inconsciente

Stanislav Grof, psiquiatra transpessoal, analisou milhares de relatos de sessões psicoterápicas utilizando LSD, meditação, e técnicas respiratórias, musicais e corporais. A partir desta experiência elaborou, em suas próprias palavras, “os primeiros mapas de regiões desconhecidas e inexploradas da mente humana”, jogando assim um pouco de luz à “selva de sistemas concorrentes de psicoterapia”. Com efeito, a psicologia ocidental apresenta controvérsias imensas sobre a dinâmica da mente humana, a natureza das desordens emocionais e os princípios básicos que devem reger a psicoterapia. A própria história da psicanálise nos exemplifica este fato, com as controvérsias entre os sistemas de Freud e os de discípulos como Adler, Rank, Jung, Reich, etc. Grof relata que as psicoterapias lisérgicas de um mesmo paciente revelam uma sequência bem definida de dados relacionados a níveis cada vez mais profundos do inconsciente, os quais abrangem três domínios principais:

1) Um domínio “psicodinâmico”, de caráter autobiográfico, com memórias emocionalmente relevantes da vida do indivíduo, que pode ser entendido segundo os princípios básicos, freudianos.

2) Um domínio de experiências “perinatais” de morte e renascimento (vagamente rankianas) relacionadas aos fenômenos biológicos do processo de nascimento. Nestas sessões, o indivíduo pode relatar uma rica e complexa variedade de padrões experienciais, revivendo de forma extremamente realista diversas etapas do seu nascimento. Estes padrões foram agrupados por Grof em quatro grupos ou matrizes perinatais, as quais correspondem aos estágios do processo de nascimento. O indivíduo pode por exemplo “reviver a serena beatitude da vida intrauterina pré-parto, ou a situação claustrofóbica e o desconforto físico das contrações uterinas no primeiro estágio do parto, ou ainda a propulsão pelo canal vaginal sob pressões esmagadoras, e o súbito alívio e relaxamento do delivramento, a primeira respiração, e o corte do cordão umbilical”. Estas sensações e sentimentos podem ser revividos de forma direta e realista, ou sob a forma de vivências simbólicas e visionárias, por exemplo: visões de lutas titânicas, desastres naturais e imagens de destruição e autodestruição durante o período de enormes tensões experimentadas na passagem pelo canal vaginal.

3) Um domínio que transcende os limites individuais e as limitações de tempo e espaço, denominados por Grof “transpessoal”. Envolve experiências de expansão da consciência ligadas a uma dimensão transcendental e espiritual.

Grof afirma que “boa parte da confusão existente na psicoterapia contemporânea provém do fato de cada pesquisador ter concentrado a atenção basicamente num determinado nível do inconsciente e depois ter tentado generalizar as próprias descobertas para a mente humana em sua totalidade. Todos os sistemas envolvidos talvez representem descrições mais ou menos precisas do aspecto ou do nível do inconsciente que estão tentando descrever. O que precisamos agora é de uma psicologia bootstrap (autoconsistente) que integre os diversos sistemas numa coleção de mapas capazes de cobrir toda a gama da consciência humana”.

Paralelamente ao trabalho de Grof, e de forma independente, o psicólogo Ken Wilber (organizador do livro O paradigma holográfico) propôs uma nova abordagem psicológica sistêmica inter-relacionando os approachs existentes, à qual denominou “psicologia espectral”, unificando as diferentes escolas psicológicas em um quadro de referência coerente. O espectro da consciência de Wilber converge segundo Grof em muitos pontos com sua cartografia do inconsciente. Wilber, em seu livro O espectro da consciência, descreve assim sua concepção: “A consciência é pluridimensional, ou aparentemente composta de muitos níveis; cada escola importante de psicologia, psicoterapia e religião se dirige a um nível diferente; essas diversas escolas, portanto, não são contraditórias, mas complementares, sendo cada abordagem mais ou menos correta e válida quando se dirige ao próprio nível. Dessa maneira, pode-se efetuar uma verdadeira síntese das principais abordagens da consciência — uma síntese, não um ecletismo, que valoriza igualmente os modos de ver de Freud, Jung, Maslow, May, Berne e outros eminentes psicologistas, assim como os grandes sábios espirituais de Budda a Krishnamurti”.

Assim, a psicanálise e as psicoterapias convencionais se situariam em um primeiro nível, o nível do ego, procurando “ajudar um indivíduo que vive como persona a remapear sua alma como ego”. Em um segundo nível se situariam as chamadas terapias humanistas ou movimento do potencial humano, que procuram “reparar a ruptura entre o próprio ego e o corpo, reunir a psique e o soma de modo a revelar o organismo como um todo”. O terceiro nível seria o representado pelas “faixas transpessoais do espectro”, com as terapias que enfocam os processos “supra-individuais”, ou “coletivos” ou “transpessoais”
transcendendo os limites do organismo individual. “Entre as terapias que visam esse nível estão a psicossíntese, a análise junguiana, diversas práticas preliminares de ioga, técnicas de meditação transcendental, e assim por diante”. Finalmente, em um quarto estrato, o “nível da consciência da unidade”, se situariam disciplinas como o zen-budismo e o hinduísmo vedanta cujo objetivo “é curar a ruptura entre o organismo total e o meio ambiente, a fim de revelar uma identidade suprema com o universo inteiro”. Segundo o próprio Wilber, esta é uma versão muito simplificada, que no entanto demonstra a maneira geral como a maioria aborda os níveis mais importantes do espectro da consciência, não sendo possível estabelecer uma classificação rigorosa dos níveis e terapias visto que eles se sobrepõem.

Comentando este capítulo, o psicanalista Carmine Martuscello, amigo inseparável desta jornada existencial, afirma que “acima de tudo isto- psicanálise e meditação — está a morte dentro do homem a impedir a felicidade, um bem-estar maior, o encontro consigo mesmo e com o cosmo”. A psicanálise é quem melhor aponta e define isto, afirma em seu “semi-sectarismo”, mas não é panacéia para nada. “Cientificismos à parte, acho tudo isso muito bom, porque é pacificador — e somente a paz (que é um Bem, i.e., a presença da Cultura trazendo Ética) poderá, ao longo de muito tempo, antagonizar a Morte — com M maiúsculo, porque ela é também uma entidade com peso e expressão próprios para se manifestar em diversos âmbitos do fenômeno humano: individual, social, etc. E é a deflecção da morte para o exterior a origem do caos. Só quando o homem superar sua ‘mortezinha’ pessoal é que ele poderá comungar alguma paz com o vizinho. E tudo isso ajuda…”

Superemos, portanto, a morte na união holística da Ciência, da Arte, da Filosofia e das Tradições Espirituais!!!

DI BIASI, Francisco. O Homem Holístico: a unidade mente-natureza.