O CÉREBRO HOLÍSTICO

A complexidade do conteúdo informacional do cérebro humano é praticamente infinita, possuindo aproximadamente 100 bilhões de células denominadas neurônios que podem fazer contatos (sinapses) em média com mil a dez mil outros neurônios. Se, como nos computadores, uma sinapse só pudesse processar respostas sim ou não (on/off), o que não é a realidade, e considerássemos somente mil, o numero máximo de contatos possíveis para cada neurônio, o numero máximo de respostas, ou unidades de informação (bits) possíveis, seria 1011 x 103 = 1014, isto é, 10 quatrilhões de bits. O número de estados mentais sim/não possíveis seria então igual a 2 elevado a 1014, ou seja, 2 multiplicado por ele mesmo 10 quatrilhões de vezes. Um número fantástico, maior do que o número de átomos do universo! Acrescente-se a isso a existência de microcircuitos neurais de transmissão de informação analógica e holográfica, e teremos um número muito maior ainda de respostas possíveis. É claro que nem todos os neurônios estão transmitindo informações ao mesmo tempo, o que torna este cálculo inexato, sendo apenas uma tentativa de demonstrar a capacidade, provavelmente infinita, de processamento de informações do sistema nervoso.

O cérebro triúno

Os conhecimentos acerca da filogênese do sistema nervoso nos demonstram que nosso cérebro é o resultado da superposição de três cérebros em um. Segundo o neurofisiologista Paul MacLean, nosso cérebro constitui a herança evolutiva de três cérebros organizados em um, conjunto a que ele denomina cérebro triúno: “uma notável associação de três tipos de cérebro, radicalmente diferentes tanto na estrutura como na química, e separados por incontáveis gerações. Sua parte mais antiga (reptiliana) surgiu há cerca de 250 milhões de anos, na idade dos répteis, quando estes animais iniciaram sua lenta progressão em direção ao cérebro humano… possuímos uma hierarquia de três cérebros em um, uma associação de três computadores biológicos, cada um com seu tipo de inteligência, seu próprio senso de espaço, sua própria memória, suas próprias funções motoras e outras”. A etapa seguinte da evolução desenvolveu no cérebro dos mamíferos primitivos um envoltório (um córtex) sobre o cérebro reptiliano. Este córtex paleomamífero corresponde em nosso cérebro atual ao sistema límbico que se relaciona às funções emocionais. Enquanto o cérebro reptiliano, segundo o neurocientista Henri Laborit, “domina funções instintivas como a demarcação do território, a caça, o cio e o estabelecimento de relações sexuais, a aprendizagem estereotipada da descendência, as hierarquias sociais, e a seleção dos chefes”, o cérebro dos mamíferos primitivos, ou paleocórtex, atua por meio de sensações emocionais relacionadas ao comportamento de autoconservação e de preservação da espécie. Numa terceira etapa evolutiva, emerge o neocórtex ou cérebro mamífero moderno, que surge na evolução envolvendo os outros dois sendo constituído pelos chamados hemisférios cerebrais que são unidos por um feixe de fibras nervosas denominado corpo caloso. “Emerge tarde na evolução e atinge seu ápice no homem, onde transforma-se no cérebro da leitura, da escrita e da aritmética. Mãe da invenção e pai do pensamento abstrato, controla a conservação e a criação de idéias” (MacLean).

A partir da constatação da existência desses estágios neuroevolutivos do sistema nervoso, cada um com suas características neuropsicológicas e bioquímicas próprias, MacLean concluiu que em situações de instabilidade entre esses sistemas poderiam ocorrer dificuldades de integração entre nossos pensamentos, emoções, afetos e instintos, fenômeno por ele denominado esquizofisiologia. Estes desequilíbrios funcionais poderiam contribuir para a emergência de uma série de distúrbios psicossomáticos, que vão desde os descontroles emocionais às disfunções neurovegetativas, o stress, e os vários tipos de neurose tais como: ansiedade, depressão, histeria, síndrome do pânico, síndrome obsessivo-compulsiva, até os casos mais graves de psicoses, como a esquizofrenia e as personalidades psicopáticas.

Desconexão hemisférica e Iateralidade cerebral

É importante, neste contexto, considerarmos aqui as experiências de Sperry e Gazzaniga de desconexão neurocirúrgica dos hemisférios cerebrais, por meio da secção do corpo caloso, um conjunto de milhões de fibras nervosas com um imenso tráfego de informações unindo os dois hemisférios. Os pacientes que sofreram essas cirurgias de desconexão dos hemisférios cerebrais foram submetidos a estudos neuropsicológicos que evidenciaram a existência de diferenças fundamentais entre as funções do hemisfério esquerdo, dominante em aproximadamente 90% das pessoas, e do hemisfério direito, dominante em aproximadamente 5% das pessoas. Essas diferenças na lateralidade cerebral foram estudadas e sistematizadas por Sir John Eccles neurofisiologista Prêmio Nobel de Medicina, no livro The Self and Its Brain, que descreve as funções características de cada hemisfério do seguinte modo:

HEMISFÉRIO DOMINANTE ESQUERDO: Ligado à consciência; Verbal; Linguístico; Ideacional; Similaridades conceituais; Analítico; Fragmentador; 
Aritmético/como computador.

HEMISFÉRIO NÃO-DOMINANTE DIREITO: Não ligado à consciência; Quase não verbal; Musical; Pictórico; Similaridades visuais; Sintético; Holístico-imagens; Geométrico-espacial.

É claro que o cérebro, como um todo, funciona de uma maneira holística, trocando informações continuamente entre todos os seus sistemas. Isso ocorre não só entre o hemisfério esquerdo mais analítico-racional, e o hemisfério direito mais sintético-intuitivo, mas também entre os dois hemisférios e o sistema límbico, mais relacionado às funções emocionais, e o cérebro réptiliano relacionado às funções instintivas. Toda essa interação contínua gera um modo global, “triuno”, integrado, de funcionamento, um pouco diferente do observado nos pacientes com desconecção dos hemisférios. No entanto, esses resultados mostram que a comunicação entre os dois hemisférios pode, em determinadas situações, apresentar algumas dificuldades de integração, como por exemplo, a “autoconsciência” do hemisfério esquerdo em oposição à “inconsciência” do direito, ou a preponderância do hemisfério esquerdo linguístico-analítico, sobre o direito intuitivo-sintético e mais holístico.

Sincronização cerebral inter-hemisférica

Com efeito, no estado normal de vigília apresentamos um certo grau de dessincronização eletroencefalográfica entre os hemisférios cerebrais, e até mesmo entre os cérebros de vários indivíduos, fenômeno que se manifesta como uma falta de consciência coletiva e de unidade psicossocial. Estudos experimentais sobre sincronização cerebral individual, interpessoal e coletiva, realizados pelo Dr. Nitamo Federico Montecucco no Cyber Holistic Research, na Itália, e em dois monastérios indianos, entre 1990–1994, evidenciaram que em uma análise da sincronização inter-hemisférica média de um grupo de mais de mil pacientes com doenças psicossomáticas, quando comparado à sincronização inter-hemisférica de um grupo-controle, constituído por pessoas saudáveis, “elevados índices de sincronização estão significativamente correlacionados com estados de saúde e bem-estar, enquanto baixos índices estão associados com estados
de depressão psicofísica. Baixos índices de sincronização cerebral são o efeito de uma instabilidade da atividade entre os dois hemisférios, comumente demonstrando aumento de atividade no hemisfério esquerdo. Foi demonstrado que os dois hemisférios podem se comunicar mais ou menos sincronicamente de acordo com diferentes estados de consciência e saúde psicossomática. Consideramos o valor da sincronização como um indicador gral da comunicação e integração hemisférica. A sincronização pode ser de grande importância no diagnóstico de patologias neurológicas e psicossomáticas e pode ajudar na quantificação da integridade psicológica, criatividade e equilíbrio psicofísico”.

Em nossa prática clínica confirmamos estes resultados através da realização sistemática de eletroencefalogramas digitaiscom mapeamento cerebral computadorizado (“brain mapping”) em pacientes portadores de distúrbios psicossomáticos e neurológicos. Nos pacientes portadores de ansiedade, depressão, transtorno de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos conversivos (por exemplo crises ou paralisias histéricas), e síndrome de stress, evidenciamos um grau elevado de dessincronização inter-hemisférica, no mapeamento cerebral, o qual melhora significativamente, após o aprendizado da meditação. Desde os anos 70, o Dr. Herbert Benson e o psicólogo Robert K. Wallace demonstraram que a meditação melhora a sincronização inter-hemisférica. Em nossos pacientes meditantes uma maior sincronização das ondas cerebrais se correlacionou diretamente com uma maior melhora da sintomatologia clínica.

Lateralidade cerebral e paradigmas civilizatórios

Acredito que, devido às pressões de seleção cultural ocorridas durante o processo civilizatório, a lateralização das funções descrita acima, característica do cérebro humano, foi responsável pela emergência de dois diferentes paradigmas civilizatórios:

O primeiro, representado pelas civilizações com tradições espirituais que podem ter evoluído a partir de fenômenos culturais, de natureza intrinsecamente holística, desencadeados por uma pessoa ou uma minoria, tal como propõe Prigogine e que se relacionam às funções mais sintéticas e intuitivas do hemisfério direito. O segundo paradigma é o representado por nossa civilização científico-tecnológica, de natureza intrinsecamente reducionista que nos últimos quatrocentos anos foi catalisada pelo método científico que se fundamenta eminentemente na fragmentação e análise do conhecimento, funções mais relacionadas ao hemisfério esquerdo. O processo civilizatório atual a nosso ver favoreceu os aspectos masculinos (yang), competitivos, a agressividade, a análise e a guerra, mais relacionados ao hemisfério esquerdo e com isso ficaram relegados os aspectos femininos (yin) participativos, integrativos, sintéticos e holísticos, mais relacionados ao hemisfério direito. A consequência desta esquizofrenia psico-cultural foi a separação artificial do homem da natureza, dividindo artificialmente o ser em corpo e mente, e ocasionando toda a agressão psicológica, a violência social e a tragédia ecossistêmica que hoje vivenciamos.

A unidade mente-natureza

A compreensão da natureza holonômica (holográfica) do funcionamento cerebral demonstrada pelo neurocientista Karl Pribram, e da estrutura quântico-holográfica do universo demonstrada pelo físico David Bohm, revelou-nos que cérebro e universo são partes de um mesmo sistema informacional, holograficamente interconectados por uma dinâmica quântico-informacional instantânea não-local. Os padrões quânticos do cérebro humano são parte ativa da rede (mente) auto-organizadora universal.

O cosmos é constituído por matéria vida e consciência, que são atividades significativas, isto é, processos quânticoinformacionais inteligentes, ordem transmitida através da evolução cósmica. Este tipo de universo estruturado em um campo quântico pleno de informação (holoinformacional), e significação, é um universo inteligente funcionando como uma mente, como o astrônomo inglês Sir James Jeans já tinha observado: “o universo começa a se parecer cada vez mais com uma grande mente, do que com uma grande máquina”. Nessa visão holoinformacional do universo, consciência, informação e inteligência se confundem e podemos afirmar que a consciência sempre esteve presente nos diversos níveis de organização da natureza. Matéria, vida e consciência não podem ser consideradas como entidades separadas, capazes de serem analisadas em um arcabouço conceitual cartesiano fragmentador. Com efeito, devem ser melhor consideradas como uma unidade indivisível, com todos os seus processos quântico-informacionais interagindo por meio de relações não-locais (quânticas), internas, e simultaneamente por meio de relações externas locais (mecanicísticas). Esta visão de um “continuum” holoinformacional, de uma ordem geradora fundamental, com um fluxo quânticoinformacional criador, permeando todo o cosmos, permite compreender a natureza básica do universo como uma totalidade inteligente auto-organizadora indivisível, algo que podemos denominar de campo da consciência ou consciência universal.

A unidade homem-universo está codificada no próprio funcionamento do cosmos (código nuclear), da vida (código genético), do cérebro humano (código neural) e da consciência (código holográfico).

Para as tradições espirituais, “a verdade está dentro de nós”, e “tudo que está em cima é igual a tudo que está embaixo”. Para a ciência, a unidade está na própria estrutura da mente e da natureza.

DI BIASI, Francisco. O Homem Holístico: A unidade mente-natureza.

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