PERSONALIDADES MÚLTIPLAS

A história de cada vida está impressa no próprio ser, que se encontra vinculado a todos os atos e fatos que tiveram predominância nas suas existências anteriores.

Com a identificação do subconsciente na década de 1880/90, o professor Pierre Janet concebeu que os fenômenos mediúnicos de natureza intelectual poderiam ser explicados como resultado de patologias que se apresentavam como personalidades múltiplas ou parasitárias.

Essas personificações teriam origem em diversas ocorrências durante a existência do ser, particularmente no período infantil, quando o mesmo, acalentando sonhos e ambições comportamentais, não conseguindo torná-los realidade na idade adulta, os arquivava no subconsciente, aí ficando até o momento em que se faziam exteriorizar, dando a impressão de tratar-se de manifestações das almas dos defuntos.

De certo modo, também seriam, segundo o eminente mestre, resultado de estados histeropatas — considerando-se que estava na moda atirar-se no poço da histeria tudo quanto fosse ignorado na área das desconhecidas psicopatologias — e que podiam ser evocados, mesmo que inconscientemente, quando então assumiam predominância na consciência atual.

A tese arrojada seria resultado das incursões realizadas pelo Dr. Jean Martin Charcot nos pacientes psicopatas do Hospital de la Bicêtre, em Paris, quando foram estudados, particularmente mulheres, mediante a técnica da hipnose, facultando-lhes as irrupções dos desarranjos emocionais que se convertiam em catarse liberativa dos conflitos e traumas de que eram portadores.

Sem qualquer dúvida, muitos anelos não realizados se arquivam nos refolhos da alma, nas camadas do subconsciente como do inconsciente que, de alguma forma, podem interferir na conduta dos seres em diferentes períodos da sua existência corporal.

Os traumas decorrentes da não-concretização desses desejos trabalham em favor de conflitos que os desestabilizam emocionalmente, assomando, vez que outra, e predominando no eu consciente em doentio mecanismo de exteriorização.

A questão possui fundamentos lógicos, sem dúvida, mas não engloba todos os fatores que se encontram na sua psicopatogênese.

Existem outros componentes para a compreensão das personificações parasitárias ou múltiplas, que não foram levados em conta, quais as interferências dos Espíritos desencarnados através de processos mediúnicos, alguns deles vigorosos, que produzem estados obsessivos, enfermidades essas que estão a exigir das ciências psíquicas maior investimento de perquirição, análise e estudo tão profundo quão cuidadoso.

Na sua condição de ser eterno, o Espírito experimenta inumeráveis oportunidades para desenvolver a sua capacidade iluminativa, portador que é de valiosos tesouros que lhe são oferecidos pela Divindade. E como nem sempre sabe conduzir-se, aplica-os egoisticamente, atabalhoada ou insensatamente, gerando dificuldades para si mesmo no carreiro das múltiplas reencarnações que tem pela frente.

Inexperiente, a princípio, compromete-se, e retorna para reparar, reaprender, adquirindo o discernimento que lhe será o condutor do livre-arbítrio, moderador das atitudes, nem sempre auscultado, dando surgimento a lutas desastrosas e a conquista de recursos que somente o perturbam, quando não dão origem a animosidades graves, a ódios que se arrastam pelos séculos, a emaranhados de sofrimentos que deve enfrentar ao longo do processo de crescimento interior.

Muitos desses inditosos campeonatos de insensatez dão margem a ressentimentos e rancores naqueles que lhes sofreram a constrição vergonhosa, a traição descabida, as manobras desonestas, e que, não desculpando, se resolvem pela condição de cobradores dos danos sofridos, vinculando-se-lhes mediante as ondas de ódio que os atraem e os imantam em sofrido processo psicopatológico desconcertante.

Por isso mesmo, as obsessões, ou constrições físicas e psíquicas dos Espíritos sobre os indivíduos humanos, grassam volumosas, aumentando, cada dia, como recurso de depuração moral para os que dilapidam as leis em benefício próprio.

Naturalmente, a Divindade não necessita de que vítima alguma se converta em cobrador de dívidas, em algoz do seu próximo, mesmo que dele haja sofrido abusos numerosos, porquanto dispõe de mecanismos próprios para cada atentado, insculpidos na consciência de todas as criaturas. No entanto, o estado primário da vítima, igualmente sintonizado com aquele que a feriu e magoou, estabelece uma identificação psíquica e vibratória que propicia a interferência nos campos de força mental, dando surgimento aos mecanismos parasitários das dolorosas perseguições espirituais.

Esse capítulo é dos mais dolorosos que existem no intercâmbio entre os Espíritos, porque, à medida que o antigo algoz expunge, mesmo sem o saber, aquele que lhe foi vítima se transfere para o nefando lugar daquele a quem combate.

Ao fazer-se juiz e cobrador, transforma-se em sicário e injusto aplicador da pena.

Somente a Consciência Cósmica, porque justa e sábia, dispõe dos meios hábeis para reequilibrar os relacionamentos doentios, anular as irregularidades praticadas, substituir os danos proporcionados por bens produzidos em etapa nova.

Conhecendo em profundidade o passado de ambos os litigantes — vítima e verdugo — avalia com justeza e sabedoria os fatores que geraram os males, as circunstâncias em que tiveram lugar, os comprometimentos danosos, recorrendo aos instrumentos de depuração através do amor, da benevolência, da caridade, do perdão, para refazer o caminho da fraternidade e a todos tornar amigos, auxiliando-os a compreender que os erros, os equívocos são experiências inevitáveis da injunção evolutiva.

Isto posto, muitas das personalidades múltiplas que se apresentam nas psicopatologias, são presenças espirituais que estão interferindo na conduta dos seres humanos, necessitando de conveniente terapia capaz de despertar-lhes a consciência, demonstrando-lhes o lamentável campo em que laboram com incalculáveis prejuízos para elas mesmas.

Não é fácil o tentame, como não é fácil nada de nobre e de dignificante que se pretenda realizar. Tudo na vida são desafios de alto porte, que exigem investimento de responsabilidade e de trabalho, a fim de alcançar resultados positivos.

Porém, a paciência revestida de compaixão pelo perseguidor e a orientação dignificadora ao perseguido com outros contributos conseguem alterar a paisagem vigente e, às vezes, libertar um do outro, os combatentes da alucinação odienta.

No próprio indivíduo estão os receptáculos nos quais se acoplam aqueles que se sentem por eles defraudados e se resolvem por tomar providências recuperadoras. Por isso, enquanto não ocorra uma real mudança de intenções do paciente, uma alteração vibratória de atividade mental e moral, ei-lo predisposto à interferência negativa, à presença da personalidade intrusa que age por seu intermédio, tomando-lhe o controle físico e mental de acordo com a profundidade e a gravidade do delito que os identifica e enlaça.

Simultaneamente, podem-se encontrar também como fator propiciatório à presença de personificações parasitárias as reminiscências não diluídas no inconsciente, no qual estão registradas as existências pretéritas, particularmente aquelas em que houve predominância de experiências fortes, que continuam ressumando desses profundos alicerces e depósitos, assumindo controle sobre o eu atual.

São, quase sempre, recordações de comportamentos muito severos que se gravaram com vigor nos painéis da alma e automaticamente ressurgem, sobrepondo-se ao estado de lucidez, e passando a dirigir as atitudes presentes.

Imperiosas impressões e vigorosas condutas vividas permanecem ditando sua forma de ser e gerando descontrole no psiquismo, cuja predominância leva o homem e a mulher a conflitos sexuais, emocionais, vivenciais muito afligentes.

A história de cada vida está impressa no próprio ser, que se encontra vinculado a todos os atos e fatos que tiveram predominância nas suas existências anteriores. O hoje é continuidade do ontem, assim como será prosseguido no amanhã.

Afinal, o tempo é imutável na sua relatividade e todos os indivíduos, todas as coisas passam por ele conduzindo a carga das realizações que sejam pertinentes a cada qual.

É muito complexo e delicado o capítulo das personalidades múltiplas ou das personificações parasitárias, em razão da indestrutibilidade da vida, da imortalidade da alma e do intercâmbio que existe entre todos os seres viventes, em particular entre os Espíritos, que são todas as criaturas, mesmo tendo-se em vista as diferenças dos níveis evolutivos em que estagiam.

Jesus, o Psicoterapeuta por excelência, advertiu com sabedoria e solicitude: — Não faças a outrem o que não desejares que te façam, demonstrando que de acordo com a sementeira, assim será a colheita.

A saúde integral, portanto, será sempre o resultado de uma consciência sem culpa, de um coração dulcificado e de uma conduta equilibrada.

FRANCO, Divaldo Pereira [Joanna de Ângelis Espírito]. Dias Gloriosos.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Franklin de Paula’s story.