POPULAÇÃO DE RUA E CONSUMO DE DROGAS: VULNERABILIDADES ASSOCIADAS

Padre Júlio Lancellotti(1)

Eu vim pensando em umas pessoas que estavam telefonando para o Jacinto antes de a gente chegar aqui. Essas pessoas moram aqui em Brasília e hoje não tinham leite para dar para os seus filhos e não têm roupa para trocar suas crianças. Moram aqui em Brasília, nessa linda capital federal do Brasil sem Miséria, moram aqui e a gente vai voltar para visitá-los. Quem sabe sobrou algum lanche e o Jacinto poderá ir lá hoje à noite para levar alguma coisa. Quem sabe a gente leve um pouco desse lanche às famílias que não têm o que comer como presente da inteligência psicológica do Brasil, do Conselho Regional de Psicologia, dos Direitos Humanos e o diabo a quatro.

Eu estava me lembrando de uma história interessante de uma pessoa que estava internada em um sanatório e estava puxando uma lata, quando o médico viu a cena, falou assim: “Que bonito seu cachorrinho”. O interno respondeu: “Que cachorrinho doutor, não está vendo que eu estou puxando uma lata? Depois o louco aqui sou eu, mas é você que vem dizer para mim ‘bonito seu cachorrinho’, não está vendo que é uma lata? Vai para lá.” O médico então juntou os psicólogos, os terapeutas, os assistentes sociais, etc. e fez uma reunião em que disse: “O cara está com senso de realidade, ele sabe que estava puxando uma lata. Vamos dar alta para ele, o que ele vai ficar fazendo aqui”? Deram alta para ele, mas na hora em que ele foi embora, puxando a lata, ele falou: “Aí, Totó, enganamos todo mundo”.

Um dia o menino da rua falou para mim que a rua era um lugar cheio de portas e que todas as portas estavam fechadas. E agora quando a gente abre uma porta, eles falam: “Não vou entrar nessa merda”. E aí nós ficamos gastando a nossa Psicologia e a nossa cabeça para entender por que eles não querem entrar. E sabe por que eles não querem entrar? Sabe o que eles falam para nós? “Vocês é que são uma droga, vocês ficam falando
que eu uso droga, e droga são vocês. Droga é a igreja, droga é o direito humano, droga é o padre, o pastor e o escambau a quatro. Vocês é que são a droga”. Vocês nunca ouviram o povo da rua dizer? “Aquela droga daquela psicóloga que me atendeu nem me deu atenção, nem olhou para minha cara. Aquela droga daquela assistente social nem me viu, nem olhou para minha cara”. E nós ficamos falando de droga? Quantas vezes nós somos droga para eles? Uma droga de uma pessoa que não é capaz de conviver, uma droga de uma pessoa que não é capaz de perceber a humanidade, uma droga de uma pessoa que não é capaz de ver a lágrima de uma pessoa que está na rua, de ver sua dor, seu sofrimento, seu cansaço, seus sentimentos. Ainda assim nós vamos lá estudar a droga que o povo da rua usa. Nós é que estamos entorpecidos e não somos capazes de amá-los, de respeitá-los, de acolhê-los. Nós nos enchemos de técnicas de doutoramento, de títulos e o escambau, mas não somos capazes de sentar na calçada e conversar com o irmão que está na rua, não somos capazes de ver que ele é o nosso semelhante. Agora nós inventamos listas para fazer internação compulsória. Sou forte candidato à internação compulsória, porque disseram que eu fiquei doido.

Se eu fiquei doido, é um sinal de saúde mental, porque todo mundo que a gente acha doido é muito mais esperto do que nós. Será que nós não estamos endoidecendo as pessoas com nossos modelos e com nossos padrões? Às vezes eu fico pensando que o povo da rua fica dizendo: “Por que será que esse povo tem mania de morar em casa e ficar fechado em um apartamentozinho, será que eles gostam de ter tanta conta para pagar, tanto imposto para pagar, tanta chave para carregar? Eles têm de sair de casa e ficar pensando se fecharam a janela, se deixaram a roupa pronta, se já a lavaram, quem vai passá-la ou quem vai levá-la para a lavanderia”. Nós queremos devolver tudo isso para eles, mas eles não querem mais isso, muitos não querem mais nada disso. Será que eles não estão nos apontando uma vida mais solidária e comunitária?

Quando fizeram aquela maldade de colocar chumbinho na bebida dos moradores em situação de rua em Belo Horizonte, me impressionou muito que nenhum deles morreu, porque nenhum deles bebeu tudo sozinho. Todos ficaram envenenados, mas nenhum de maneira letal, porque todos dividiram a bebida. Se fosse alguém que mora em um apartamento, em um condomínio, teria se ferrado. Teria se ferrado porque teria bebido tudo sozinho e teria morrido. Eles são mais solidários do que nós e nós não somos capazes de aprender a solidariedade deles. Quando nós os atendemos, ficamos botando perfil de atendimento, “você não é do meu perfil, você não é do perfil da minha entidade, você não é do perfil da minha proposta”. Fico pensando que fazer essa reflexão sobre a população de rua é fazer uma reflexão sobre onde nós estamos e o que é que estamos fazendo, ou seja, como é que nós estamos nos colocando de maneira existencial.

Falou-se muito do Lacan, vamos falar da fenomenologia também. Você gosta mais de fenomenologia? Então vamos falar da fenomenologia. Como é que você está olhando para essa pessoa sem fazer diagnóstico, pondo um monte de rótulo nessa pessoa, inclusive o rótulo do perfil: se ela é do seu perfil ou não é do seu perfil ou do perfil do seu projeto. O nosso perfil é o não perfil, o nosso lugar é o não lugar, porque o lugar que foi estabelecido é um lugar de injustiça, de maldade, é um lugar de exclusão, é um lugar de tortura psicológica.

Sabe qual é o problema com Deus? Eu com Deus nos damos bem, o problema é quando vem a família dele junto. Com ele não tenho problema nenhum, Deus comigo é uma beleza, mas quando chega a família toda… Nós temos de ser mais verdadeiros diante dos nossos semelhantes que estão em situação de rua.

Eu estou brigando com o governo e com a Secretaria por causa da burocracia, direito humano burocratizado, é direito humano elitista, é direito humano de discurso. Direito humano você vive na rua e na calçada, com quem trabalha e com quem convive com a situação, com quem sofre, e não com essa “porra” desse Siconv que o governo federal inventou.

Você tem de chegar para o povo da rua e falar assim: “Meu, qual é que é”? E saber conversar, saber ser gente. Sabe o que está faltando? A gente ser humano, nós estamos vestindo muita fantasia, o povo da rua é autêntico e fala o que pensa porque não tem nada a perder, nós temos muito a perder. Eu estou ficando igual, não tenho mais nada para perder. Como se costuma pôr no Twitter: Pronto, falei. Aliás, quem quiser me seguir no Twitter, o endereço é @pejulio. No facebook, juliolancelotti. Quem quiser, será bem-vindo e nós vamos conversar uma porção de coisas. Lá, às vezes, eu sou mais educadinho, mas como eu ia dizendo, nós temos de voltar a ser humanos.

Não é a Psicologia que nos faz ser humanos, ela pode nos ajudar, mas não nos faz humanos. Não seja uma droga para as pessoas com quem você convive, não ponha uma mesa na sua frente para se proteger e se defender. Não adianta dar comida para o povo da rua, você precisa comer junto com eles. Quem sabe uma hora eu vou ver alguns ministros, quem sabe também a presidente puxe uma carroça e converse com o povo da rua e bem depressa para poder aprender não só a dor da sua existência e da sua vida, mas também a esperança da sua resistência e da sua insubmissão. O povo da rua está mostrando para nós que a droga somos nós, nós temos de deixar de nos entorpecer por uma sabedoria que até agora não resolveu merda nenhuma. Porque com toda nossa sabedoria nós não estamos sabendo olhar para eles com tempo, olhar para eles e perceber a sua emoção.

Eu queria homenagear aqui a Vicentina, que viveu e morreu debaixo de um viaduto em São Paulo. Um dia ela sentou perto de mim e disse: “Você acha que eu não sofro? Olha para mim, fala para mim, você sabe qual é o meu sofrimento”. Mas ela disse também: “Você sabe o que é que me dá alegria?” Quem falou que morar nos condomínios egoístas, individualistas e burgueses é o normal? Quem falou que viver desse jeito que nós vivemos, entorpecidos, neuróticos e psicóticos é o normal? Tem muito mais neurótico e psicótico nos apartamentos e nos condomínios do que na rua, tem muito mais ladrão do dinheiro público morando nos prédios e nos Ministérios de Brasília do que nas ruas de Brasília. Nos prédios e nos ministérios ninguém passa fome, mas lá onde os amigos do Jacinto estão não tem leite para dar para as crianças hoje. O dinheiro público acaba sustentando uma corte enquanto os vassalos estão morrendo na rua. Nós precisamos enfrentar isso com tranquilidade e com muita claridade, porque senão, nós não seremos “porra” nenhuma.

(1) Pároco da Paróquia São Miguel Arcanjo, vigário episcopal para população de
rua, membro do Conselho de Monitoramento para as Políticas Públicas para a
População de Rua de São Paulo. Doutor honoris causa pela PUC SP.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Drogas, Direitos Humanos e Laço Social. Brasília: CFP, 2013.