TER E SER

Ninguém tem coisa alguma no mundo: nem corpo, nem valores amoedados, nem pessoas sob domínio… A incessante transformação, vigente no Cosmo, tudo altera a cada instante, e o vivo de agora estará morto logo mais; o dominador torna-se vítima; o corpo se dilui; os objetos passam de mãos…

Remanescem da infância física traços de insegurança, e conflitos perduram na idade adulta, em razão da falta de maturidade psicológica do ser, expressando-se como apegos às coisas e pessoas, com a consequente rejeição de si mesmo, instabilidade emocional e desajuste social.

Usando os conhecidos mecanismos de evasão da responsabilidade e sentindo-se fragilizado, o indivíduo busca a autorrealização, fixando-se em valores externos como forma de destaque no grupo social, ignorando a sua realidade profunda.

Sentimentos egocêntricos passam a aturdi-lo e, inconscientemente, acredita-se merecedor de tudo em primeiro lugar, com desconsideração pelos demais. Quando tal não ocorre, surgem-lhe as marcas predominantes do egoísmo e passa a reunir recursos que amontoa satisfazendo o ego, mesmo quando atinge os picos do poder ganancioso.

A imaturidade asselvaja lhe e obnubila-lhe a razão, que permanece asfixiada pelos tormentos do ter, enlouquecendo, a pouco e pouco, a sua vítima, cada vez mais ansiosa por novos haveres.

Ninguém vive bem sem a segurança de si mesmo. Quando esta não decorre do auto-encontro libertador, é buscada através dos meios externos, que envolvem o seu possuidor em preocupações de aumentá-las, em medos de perdê-las, passando à angústia de mais assegurar-se da sua retenção. Como efeito, vai traído pela concupiscência da posse, tornando-se possuído pelo objeto que supõe possuir.

Desperta-se-lhe em grau crescente a avareza que o amarfanha, e, depois da alegria fugaz da posse material, transfere-se para a ilusão da dominação arbitrária de outras vidas, de outras pessoas, acreditando-se capaz de detê-las, subjugá-las como conquistas a mais.

Autodesprezando-se, graças à insegurança íntima, não se considera merecedor de afetos, supondo que, quantos se lhe acerquem, estão interessados no que ele tem, e jamais no que é.

Porque se sente sem possibilidade de amar, embora lhe irrompam episódios de afetividade, que converte em paixões de gozo imediato, não crê que pode ser amado com desinteresse pelos seus haveres.

Assim não sucedendo e vindo a consorciar-se, ele o faz mediante cláusulas de separação de bens, bens que lhe são alicerces de segurança no inconsciente.

Com a percepção embotada, mede os fenômenos existenciais com os instrumentos da atividade contábil, considerando triunfadores somente os que dispõem de contas bancárias volumosas, latifúndios largos e semoventes aos milhares…

A sua louca ambição torna-o misantropo, detendo-o no pórtico das grandes realizações, sem a coragem moral para atravessá-lo, amesquinhando-o. Se vence o medo de doar algo e o realiza, necessita de ter o ego recompensado pela gratidão, passando à condição de benfeitor, quando tudo no mundo, com o seu caráter de transitoriedade, faz, das criaturas aquinhoadas, mordomos que prestarão contas, ou servidores encarregados de bem aplicar, qual o ensinamento de Jesus através da parábola dos talentos no Evangelho.

O bom aplicador, além dos juros que recebe, experimenta o júbilo da realização, a imensa alegria do serviço, exteriorizada no bem-estar que proporciona.

Ninguém tem coisa alguma no mundo: nem corpo, nem valores amoedados, nem pessoas sob domínio… A incessante transformação, vigente no Cosmo, tudo altera a cada instante, e o vivo de agora estará morto logo mais; o dominador torna-se vítima; o corpo se dilui; os objetos passam de mãos…

Todo aquele que busca a posse, o ter e reter, permanece vazio de sentimentos e, porque nada é, enche-se de artefatos e coisas brilhantes, porém mortas, prosseguindo cheio de espaços e abarrotado de preocupações afugentes.

O objetivo da vida humana parte do ponto inicial no corpo — a infância — e cresce sem perder o contato com a sua realidade original, ser transcendental que é. Chegando à realização da consciência, deve expandi-la, enquanto mais se autopenetra e descobre novos potenciais a desenvolver.

Ser consciente de si mesmo é a meta existencial, conseguindo o auto-amor que desdobra a bondade, a compaixão, a ação benéfica em favor do próximo.

Alguns psicólogos transpessoais concluem que, à meditação transcendental — abstrata — , os sentimentos de amor e autodoação — concretos — devem prevalecer emulando o indivíduo a ser integral, realizado, capacitado para a felicidade.

Os conflitos então cedem lugar, quando os seus espaços são preenchidos pelas realizações expressivas, libertadoras.

A autovalorização não-egoísta, despretensiosa, permite o encontro do self, que se desvela com infinitas possibilidades. Rompem-se os limites que amesquinham e ampliam-se as áreas de produção que engrandecem.

Correspondendo a esse estágio, o amadurecimento psicológico faz que o indivíduo cresça sempre e cada vez mais, reconhecendo a sua pequenez, que se agranda ante a excelência da Vida que ele conquista.

O individualismo que nele prevalecia cede lugar ao amor que convive e se expande na direção dos outros, aqueles que constituem a sociedade na qual se encontra, passando a trabalhá-la, a fim de que também ela seja feliz.

A vaidade, o narcisismo, que existiam na sua personalidade, desaparecem por ausência da vitalidade fornecida pelo ego inseguro, que tinha necessidade de sobreviver, já que o self se encontrava soterrado no desconhecimento.

A conquista do si é realização que independe do ter, do reter, mas que não prescinde do interesse e da luta enviada para ser.

A segurança psicológica do indivíduo centraliza-se no autoconhecimento, na auto-identificação, no auto-amor, no ser.

FRANCO, Divaldo Pereira [Joanna de Ângelis Espírito]. O Ser Consciente.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Franklin de Paula’s story.