22, A Million do Bon Iver

A primeira vez que tive contato com o Wisconsin foi com um livro que mais se aproxima de uma autobiografia minha: Retalhos do Craig Thompson. O li numa época em que consolidava minha transição de participar da religião católica que minha família tinha para o pleno agnosticismo e durante minha primeira experiência real de relacionamento amoroso. Quem diria que o Wisconsin — aquele lugar retratado pelo Thompson como frio, rural, cinza com branco e bastante religioso — voltaria a minha vida ao conhecer o Bon Iver.
Eu curto essas “músicas de bad” para além da bad. Por usar o Spotify, é fácil achar uma playlist do tipo — onde predomina o indie folk e dark. Numa delas encontrei o Bon Iver. Mesmo que dentro dos padrões, o Iver era consistente, tinha uma excelente voz e as letras de suas músicas — sempre dentro de uma instrumentação correta — tocam nossa alma, lá dentro. Claro que fiquei esperando o novo álbum dele — e quando este saiu e eu o ouvi, olha: que experiência!
Muito comum é o uso de ruídos, samples, auto-tune, sintetizadores e — recentemente devido ao synthwave e mais ainda ao vaporwave — glitches. Mas o uso desses elementos no corpo da música ainda é, muito geralmente, dentro dos padrões. Não em 22, A Million. Aqui se percebe claramente o experimental. A estética musical do Bon Iver ainda permanece — temas minimalistas, colagens e experimentos sintéticos -, mas em cada música onde o padrão começa a imperar existe uma quebra. Uma quebra proposital, desconcertante, com sons dando voltas não-lógicas. Entretanto, o casamento aqui com a versificação intimista esperada acontece em um tom mais genuíno: o álbum inteiro reflete uma busca existencial. Basta prestar atenção nas letras. Não foi surpresa pra mim ver esses questionamentos existenciais usando palavras de cunho geralmente religioso de um cara do Wisconsin: quem sabe seja de propósito, reflexão do lugar de onde é.
715 — CRΣΣKS é a música que mais me impressiona no álbum. Com apenas voz e auto-tune, o Iver deixa uma ponta que faz com que nossa mente complete com uma suposta instrumentação que poderia ali estar — por mais que o álbum tenha uma produção quase que inteiramente eletrônica e com alguns momentos com a presença de um violão ou piano. Fui pego tão de surpresa com esse experimento que me fez imaginar como seria o Phill Veras ou o Cícero tentando algo do tipo. Mas no geral é isso: cada música e extremamente única.
Eu tive que escutar repetidas vezes todo o álbum para ter certeza do que estava escutando, perceber cada detalhe e entender onde ela se encaixava no todo do álbum proposto. E só consigo descrever que, até agora, ouvir esse álbum é algo muito inesperado e ao mesmo tempo espetacular. E olha que esse ano muitos álbuns bons saíram: Animania do INKY, Tupi, Or Not Tupi do Fabio Brazza, A Coragem da Luz do Rashid, Rogério do Supercombo, For All We Know da NAO, Lugares do Alexandre Klinke Soltasbruxa do Francisco el Hombre, The Getaway do RHCP e a lista segue. Mas nenhum deles conseguiu passar a mim algo tão único, completo, experimental e consistente.
Por isso, por mais que me custe caro dizer o que direi, pessoalmente considero 22, A Million (2016, Relapse) do Bon Iver o melhor álbum que escutei esse ano.
Obs.: foi a única vez esse ano em que concordei com um review da Pitchfork UHAUAHUAHAUHAUHAUAHAUHAUAH. Também: os caras as vezes parecem estar desesperados por uma experiência estética musical tão unica e transcendente que qualquer coisinha fora do normal eles dão uma exaltada que me soa estranho e até mesmo engraçado.