Framework MARIA: um rascunho de proposta de Design de Educação

Frank Wyllys Cabral Lira

Definição

MARIA: Metodologias de Autonomia e Recursividade para o Ensino-Aprendizado. É também uma homenagem ao nome de uma amiga minha, Maria Valmiza. Foram os questionamentos dela que me fizeram depois elaborar isso tudo.


A Educação é composta de quatro elementos. Três são auto evidentes: Educador, Conteúdo e Educando. O Educador é o elemento responsável por guiar a elaboração do Saber no Educando através do Ensino (e aprendizagem). O Conteúdo é o elemento responsável pela possibilidade de haver Educação. Através do Educador, este é elaborado no educando através do Ensino. O Educando é o elemento chave da Educação. A Educação somente ocorre quando o Educando, durante o ensino, aprende ou conhece, ou seja: ele atinge o Estado de Aprendizagem.

Para melhor entender os outros conceitos apresentados durante a exposição dos elementos da Educação, os exponho aqui. O Ensino é a técnica usada pelo Educador para aumentar o Saber do Educando através de algum Conteúdo. Conhecimento é um status, de confirmação ou negação, da presença de um Conteúdo no Saber de um Sujeito. O Estado de Aprendizagem refere-se ao momento em que o Educando aprende, inserindo algum Conteúdo em seu Saber. Atestamos a existência do Estado de Aprendizagem através de uma avaliação do seu Conhecimento perante o Conteúdo ensinado.

O Educador tem uma tarefa clara e nada fácil: focar todos os seus esforços e fazer o possível para o Educando chegar ao Estado de Aprendizagem. A Educação é somente bem sucedida quando o Educando, com a ajuda do Educador, se chega a esse Estado — pois é possível avaliar depois o acréscimo do Saber através do conteúdo ensinado e aprendido. Entretanto, nem sempre se educa bem. Devido a particularidade inerente a um sujeito — seja ele Educador ou Educando -, é preciso achar a forma correta ou específica de ensinar. Ensinar é como fazer login em um sistema: insira os dados corretos da forma correta e você o acessa. Por isso digo que a principal causa da não-Educação está no fato do Educador não ter ensinado o Conteúdo de forma específica ou correta para o Educando.

A não-Educação ocorre quando, quase sempre, se inicia com o uso incompleto do que chamo de Modelo em Cascata de Educação (MCE). No MCE:

  1. O professor prepara o Plano de aula;
  2. O professor escolhe a metodologia a ser aplicada;
  3. O professor ensina algum conteúdo através da metodologia escolhida;
  4. O professor realiza exercícios com os alunos;
  5. O professor atribui nota ao aluno pelos exercícios;
  6. O professor aprova ou reprova o aluno pela nota que tem.

O MCE não mais reflete a realidade como modelo e não prepara os Educandos para o futuro. Ele também hierarquiza as relações de Saber, colocando o Educando abaixo do Educador por esse último conter um conjunto de conteúdos que não somente o primeiro não sabe como deve aprender. Esse modelo, além de não se preocupar em ligar o Conteúdo ensinado com a Vida, educa o Educando e o Educador a uma cultura do erro — através dos exercícios. Revelo também que o MCE não abre espaço para pensar o Educando de forma individual e coletiva, também não incentivando a busca por novas metodologias, formas de ensino, avaliação etc.

Ilustração do Modelo em Cascata de Educação (MCE)

Por fim, o uso incompleto do MCE produz uma falsa educação ou tem essa tendência. O correto é usar o MCE com base em algum parâmetro. As MARIA permite buscar esse parâmetro necessário para o uso correto ou melhorado do MCE. Julgo eu ser necessário, perante todos os problemas que o MCE acarreta, levantar um conjunto de hipóteses sobre os fatores que servem de premissa para o Plano de aula (Metodologia, Ensino e Exercícios). O que se sugere é simplesmente identificar, descobrir e/ou validar os processos existentes nesses fatores. É, em vez de simplesmente supor, assumir uma postura de pesquisa e sempre que possível investigar se está existindo uma Educação.

Proponho, portanto, uma nova metodologia. O Ciclo de Educação (CE) é um processo detalhado e interativo que parte da seguinte premissa: os fatos estão dentro do ambiente de ensino. Fora dele, só existe especulação. Nele, o Educador deve lançar e validar suas hipóteses sobre a melhor ou mais correta forma de ensinar. O CE é composto por três passos. Esses devem ser aplicados com rigor em seus objetivos, mas com flexibilidade nos métodos.

  1. Descobrir: nesse passo, é realizado uma investigação de palavras e temas — vocabulário[1] — significativos na vida do aluno. O objetivo é verificar o Conhecimento do Educando perante o Conteúdo que será ensinado e reunir dados que possam servir para os passos seguintes. Sabendo que o Educador também contém um vocabulário, é buscado uma relação entre os dois vocabulários (sendo o do Educador o que será aprendido, pois tem relação com o Conteúdo que irá ensinar). Nesse passo também é investigado a cultura do educando perante o conteúdo — livros, filmes, músicas, sites, aplicativos, peças teatrais, quadros, shows, quadrinhos etc. Todas essas informações adquiridas visam posteriormente o levantamento das hipóteses de ensino a serem testadas.
  2. Validar: as hipóteses, nesse passo, são elaboradas e inseridas nas aulas para teste. O objetivo é achar a melhor forma de ensinar um determinado Conteúdo ao Educando. O vocabulário, aqui, serve como instrumento de ligação entre o Educando e Educador. Busca-se a validação das hipóteses e, delas, a firmeza de alguma forma de ensino replicável e escalável. Existe também, através da análise dos significados científicos e sociais do vocabulário, uma conscientização do mundo e do Conteúdo ensinado nele.
  3. Pensar: este passo é focado na execução da forma de ensino testado e escolhido no passo anterior. Aqui a conscientização do mundo é mais forte e presente que no passo anterior. Além disso, com o Conteúdo presente no Saber do Educando, o Educador deve encaminhá-lo a refletir esse Saber perante a sua Vida e a sociedade. É nesse passo que se realiza a formação do senso crítico do aluno — além do reforço do Conteúdo ensinado que esse passo acarreta. Por fim, dá-se a tão esperada utilidade do Conteúdo ensinado, mostrando os primeiros passos para a sua incorporação no dia a dia do Educando.
Ilustração do Ciclo de Educação (CE)

O Ciclo de Educação trabalha explicitamente com o Educador, Conteúdo e Educando. Nesse Ciclo, o Saber é acrescido tanto no Educador quanto no Educando. Logo, a Educação é o acréscimo do Saber dos Sujeitos que interagem com o Ensino e o Conteúdo. Entretanto, um quarto elemento da Educação se faz presente nesses três passos e nos três elementos trabalhados. O chamo de Infraestrutura. Ele é o quarto e último elemento da Educação. É através dele que entendemos, individualmente ou coletivamente, as relações e influências entre e sobre o Educador, Educando e Conteúdo.

A Infraestrutura é passível de ser observada através da Escala Atômica (EA). Tal escala contém 5 níveis: átomo, molécula, organismo, cenário local e sociedade.

  1. Átomo: diz respeito àqueles que, dentro de um ambiente de ensino, são os sujeitos da Educação (Educador e Educando). Os átomos, partindo da premissa de que “todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer”, só desejam o Saber. Essa necessidade constante e insaciável de Saber dos átomos os coloca em uma posição de constante aprendizado. É assumido também que tais átomos entendem seu constante estado de incompletude do Saber. Entretanto, o Desejo de Saber[2] dos átomos varia de nível. Por conseguinte, os sujeitos, através desse desejo, relacionam-se mais ou menos com a Educação. É visível o desequilíbrio — ou a possibilidade — de Saber comum[3] entre o Educador e Educando. A Educação visa extinguir esse desequilíbrio. Partindo da premissa de que o Educador contém mais conhecimento que o Educando — assim como muitos átomos não tem sua camada de valência preenchida e, por fim, estável -, o primeiro visa através do ensino equivaler o Saber comum que o Educando também deveria ter. Por isso, tendo em vista a perspectiva de que Educando e Educador são átomos com sua camada de valência incompleta — estando a camada do Educando mais incompleta do que a do Educador -, o Saber faz com que cada um busque ser completo no outro. Assim como os átomos tem em geral um núcleo coeso — através da disposição estratégica entre prótons e nêutrons -, os sujeitos tem como seu núcleo um conjunto de Princípios de Vida[4]. São esses princípios que definem um sujeito, revelando o que ele é, o que deseja ser, o que faz, como faz o que faz etc. Tais princípios são gerados do Saber que este tem. Todavia, aqui reside um possível problema: como o sujeito deve se relacionar com um Conteúdo ou Saber ruim ou bom. A preferência — se não a obrigatoriedade dessa questão — é a de que o sujeito tenha o Saber bom como gerador de seus Princípios — não devendo ser negado ao sujeito o Conhecimento do Saber ruim, dando a este Saber a devida elucidação. Por fim, deve ser levado em consideração, no Educando e Educador, os fatores sociais, econômicos, psicológicos, existenciais, éticos, morais e de saúde física. A compreensão desses fatores é essencial para o sucesso da Educação. Além disso, coloco três considerações que dizem respeito aos átomos. Primeiro que um átomo pode apresentar um núcleo instável. Da forma correta, é possível causar uma fissão nele. Caso essa fissão — nuclear — ocorra em cadeia, temos ai o princípio atômico básico de uma bomba nuclear. Por analogia, digo que os Princípios dos sujeitos estão sempre em constante teste, conflito e construção. Uma má-Educação (Darkside[5]) pode levar a ruína desses Princípios e, por consequência, nossos Saberes. Segundo que, nos sujeitos da Educação, possivelmente os fatores psicológicos e existenciais são os mais desconhecidos frente aos outros elencados. Terceiro e último que os sujeitos, como ser-no-mundo, são infinitos em sua finitude. Além de estarem condenados a serem livres, as suas existências precedem as suas respectivas essências e, por último, são todos eles ser-para-morte.
  2. Molécula: diz respeito aos ambiente de ensino em que ocorre a relação Educando-Conteúdo-Educador — o ambiente de ensino apenas se constitui quando ocorre essa relação. É um espaço de exercício da política e de recheada alteridade. Geralmente sendo uma sala de aula, é nesse ambiente que ocorre o Ciclo de Educação. O objetivo dessa infraestrutura é permitir, da melhor maneira possível, o Educando atingir o Estado de Aprendizagem.
  3. Organismo: é a escola e os seus componentes essenciais. Todas as condições materiais para o ensino devem ser providos por ela.
  4. Cenário Local: são o conjunto de organismos. O recorte desses conjuntos pode varias de uma região distrital ao âmbito nacional. São nesses cenários em que ocorrem as políticas educacionais que os afetarão.
  5. Sociedade: É o último nível de infraestrutura. A Educação, como função e força necessária da sociedade, existe para cumprir um papel nela.
Ilustração da Escala Atômica (EA)

Creio que eu deva fazer algumas considerações sobre determinados detalhes do framework e dele em si. O CE gera cases — negativos ou positivos. Esses cases devem ser discutidos e compartilhados. Tais cases são os dados brutos de testes feitos no passo de validação. Deve-se abstrair deles as suas estruturas e, em caso de sucesso, repeti-la posteriormente para consolidá-la. A questão do compartilhamento do case existe para universalizar o máximo possível os experimentos educacionais realizados pelos Educadores. A livre circulação de cases, independente de seus status de sucesso ou fracasso, não somente incentiva a replicá-los como a melhorá-los, construindo uma comunidade de Educadores que sempre esteja construindo melhores formas de ensinar os Conteúdos coletivamente.

Sobre o MARIA em si, ela é um framework de Design de Educação. Explico. A Palavra Design originalmente (ou tradicionalmente) trata da forma, de uma estética ou até mesmo de uma simbologia de um objeto. Mas o sentido da Palavra Design cresceu em compreensão e extensão. Isso permitiu o Design se apropriar de uma quantidade quase infinita de aspectos de uma coisa (um objeto, uma situação, uma estrutura, uma rotina, um projeto etc. Ou seja: é o que toca e concerne o ser humano e seus interesses em geral) e de uma aplicabilidade de estruturas de produção maiores desta. Ou seja: me é permitido (e também é preciso) elaborar e reelaborar coisas através do Design. Fazer Design é realizar uma ação de uma forma diferente do simplesmente realizar uma ação. Isso é possível devido a algumas vantagens que o conceito de Design carrega. O conceito contém uma humildade e certa modéstia que, por exemplo, a palavra construir não tem. Observa-se também no Design uma atenção — as vezes obsessiva — aos detalhes. Tal atenção pode ser vista ou interpretada como reacionária em comparação com o progresso ou a revolução. Observa-se também que uma coisa, quando analisado pelo design, desvela-se como um conjunto de significados. Ou seja: os significados já não são mais as formas estéticas de uma função, mas funções, objetivos, contextos etc. Enfim: o design carrega consigo habilidades semióticas e hermenêuticas. Design é redesign. É nunca fundar algo ou começar do nada/do zero, mas reelaborar o já dado da melhor maneira possível (diferente de palavras arrogantes como revolução e modernização, na qual ambos desejam um certeiro rompimento com o passado). Outras coisa que o design tem é o seu envolvimento com uma dimensão ética e moral. É uma preocupação com o que é bom ou mal com relação a coisa na qual trabalha.

Quando falo de Design de Educação, falo de uma constante elaboração, melhoria e reelaboração dos processos internos e externos que tangem a Educação. É um progresso radicalmente cuidadoso. A Educação tem como seus sujeitos os seres humanos e para com eles devemos ter humildade e preocupação. Por isso Design de Educação. Não quero dar aos Educadores algo novo, mas simplesmente dar um conjunto de conceitos que auxiliem a visualizar e mensurar a educação. Conceitos esses que, em grupo, tornam-se metodologias. Conceitos esses que permitem e incentivam a autonomia e a recursividade dos atores que participam da Educação. Educar é, em si, fazer Design — onde a dimensão da elaboração e da reelaboração estão sempre juntas.


[1] Vocabulário é o conjunto de palavras e temas retirados dos alunos. Estes devem ter uma relação mínima com o Conteúdo a ser ensinado. Com o vocabulário formado, este se transforma em ligações e gerações. Ligações devido a possibilidade de ligar o vocabulário do Educando com o vocabulário do Educador (esse relacionado ao Conteúdo). Gerações devido o vocabulário desprender todo um novo vocabulário e este recheado de palavras e temas novos. No fim, existe não somente um aprendizado do Educando sobre o Conteúdo ensinado como, por fim, um aprendizado do Educador sobre parte da realidade do Educando.

[2] Desejo de Saber é a vontade do sujeito de sempre conhecer. Tal Desejo varia de sujeito para sujeito, pois os fatores que são concernentes aos átomos são como os valores de uma equação, sendo seu resultado final o tamanho ou nível dessa vontade. Ou seja: os fatores dos átomos que irão dizer se o sujeito relaciona-se menos ou mais com a Educação.

[3] Saber comum é o conceito dado ao conjunto de Conteúdos que o formam e que devem ser do conhecimento de todos os sujeitos. O Educador, tendo consciência de que o Educando deve — e de certa forma deseja — ter esse Saber comum, tenta extinguir esse desequilíbrio de saberes através da Educação.

[4] Os Princípios de Vida são sobre a ética (“conjunto de conhecimentos extraídos da investigação do comportamento humano ao tentar explicar as regras morais de forma racional, fundamentada, científica e teórica. É uma reflexão sobre a moral.”) e a moral (“conjunto de regras aplicadas no cotidiano e usadas continuamente por cada cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau.”) do ser humano. Tais Princípios não são inteiramente universais, mas variam de acordo com a sociedade — pois são gerados pelo Saber de um sujeito para funcionar na sociedade em que vive.

[5] Darkside é um conceito que abrange uma reação em cadeia de toda e qualquer atividade, metodologia, conteúdo ou saber que resulte em uma má-Educação dos sujeitos de uma ou mais sociedades. O Darkside se inicia quando algum sujeito é educado de forma falha. Este sujeito muito provavelmente irá, em menor ou maior nível, repassar alguma de suas falhas de educação para um ou mais sujeitos. A partir desse momento, um ciclo vicioso se forma e consolida. Tal ciclo se repete tantas vezes, sempre atingindo cada vez mais e mais pessoas, que acaba se tornando uma gigante reação em cadeia. A má educação de um indivíduo, no fim, reflete em uma sociedade inteira, podendo até mesmo sair dela e se entender para outras sociedades.