Sobre a importância da filosofia política para os centros acadêmicos: uma proposta

Frank Wyllys Cabral Lira[1]

Brasília — Distrito Federal, Brasil

Adela Cortina, resumindo a visão de especialistas, nos diz que “nossa sociedade está corrompida e seus valores estão em crise”[2]. Entretanto, Paul Ricoeur nos diz que, pela primeira vez na história, temos uma “consciência de pertencer a uma única civilização”[3]. Se existe algo de errado com a nossa sociedade mas também temos uma consciência de que como humanos somos um, portanto, nos resta questionar juntos como resolver os problemas que nos afligem — como sociedade.

Para prosseguirmos perante o questionamento levantado, devemos ter a certeza de duas coisas. A primeira é sobre o homem ser um sujeito coletivamente ativo de seu destino. A segunda é sobre a firmeza de que o mundo é o lugar em que os humanos tomam as suas decisões que são e refletem no coletivo. Todavia, por precaução, o homem deve na medida do possível constantemente aprender a se conduzir nesse mundo. Aqui entra o educador político: ele tem “a tarefa de iniciar o cidadão ao exercício da escolha coletiva”[4], melhor agindo no mundo. Logo, a importância da filosofia política é fornecer ao indivíduo conteúdo e experiência para os desafios ético-políticos da sociedade, restando ao educador político educar esses indivíduos através desses saberes.

Se a corrupção e a crise dos valores da sociedade representam problemas ético-políticos, pergunto: o que é esse ético-político? Melhor: O que é ética e o que é política? A ética é um constante elaborar do caráter de um indivíduo. Complementando, entendo por caráter o conjunto de virtudes que a pessoa exerce consistentemente no mundo (perseverança, coragem etc). Por virtude a Adela entende como “a predisposição que a pessoa tem ou adquire para alcançar o fim específico de uma atividade”[5]. E atividade, nesse caso, pode ser compreendida como atividade social. Atividade social — segundo MacIntyre, autor citado por Adela — “é uma atividade cooperativa que tende a alcançar bens que lhe são internos e externos e que nenhuma outra pode proporcionar”[6]. Define-se o interno como algo que que dá sentido e legitimidade social a essa atividade, enquanto que define-se o externo como os bens que não dão efetivamente sentido à atividade social, mas podem ser adquiridos pela atividade (dinheiro, prestígio, poder etc).

A política — segundo a Adela — “é a busca do bem comum ou o interesse comum pela utilização dos bens públicos”[7]. Infelizmente, a política é uma atividade passível de corrupção. Se a corrupção é definida como “desvirtuar a natureza de uma coisa para torná-la má”[8], a corrupção nessa atividade social acarreta em um desvirtuamento dos bens públicos, dando a eles um fim privado. Quando o indivíduo, em sua atividade social, privilegia o externo ao invés do interno, ele acaba propenso a realizar alguma corrupção. O educador político, através da filosofia política, tem como objetivo trabalhar os indivíduos para que não caiam na corrupção.

Por fim, pergunto: onde o indivíduo — em conjunto ou sendo este o educador político — deve agir no mundo? Ricoeur nos indica três campos de atuação: a dos utensílios, das instituições e dos valores. Se os utensílios são “tudo o que pode ser considerado como acumulação de algo adquirido”[9], nós devemos ser “responsáveis pelo crescimento regular desses utensílios”. Se as instituições são “as formas de existência social nas quais as relações entre os homens são regradas de modo normativo”[10], nós devemos preservá-las e fortalecê-las. Se os valores são atitudes corretamente concretas dos homens perante eles mesmos, nós devemos cultivá-las e desenvolvê-las.

FOTO: Mídia Ninja.

Infelizmente, o mundo é enorme, cheio de problemas, crises, avanços, progressos, regressos. Muitas são as lutas que o indivíduo vai precisar enfrentar na vida. Será necessário focar os seus esforços para que aja bem perante o teatro das decisões? Atualmente a resposta pode ser sim. Deixo aqui uma indução, uma suspeita, mas também um fundo de verdade — a ponto de efetivamente ser uma verdade: as lutas atuais, do século XXI, são diferentes das exercidas no século XIX e início do século XX. Para essa faixa de tempo mais antiga apontada por mim, a luta era por algo mais universal, que atingia a todos, carregado do ideal de progresso econômico e social do povo e pelo estabelecimento de um bem estar pessoal para todos ou o máximo de pessoas possível. Lutas essas que atingiam diretamente o Estado, como por exemplo a Revolução Russa de 1917 ou a presença e experimentação do Fascismo na Itália e Alemanha durante a segunda guerra mundial. Com alguns acertos e pontos fora da curva, tais projetos hoje estão nos livros de história e servem como forma de visualizar as lutas de outrora.

Entretanto, possivelmente a partir de 1960, os ventos novos aportam uma nova direção para as lutas que o indivíduo realiza ou vai realizar. Movimento feminista, de paz, dos negros, dos estudantes… em vez de um remédio que tente atacar a doença em todo o corpo social, é possivelmente internalizado a opção de intervir precisamente em pequenos problemas. Microrevoluções? Acho que não seja essa a palavra mais correta para descrever tal comportamento. O que é estabelecido a partir de agora é a elaboração e reelaboração da sociedade, atacando com precisão os vários problemas desta, findando em um lento mas evolutivo processo de busca pela igualdade e bem estar social e econômico.

Entretanto, não é meu objetivo falar dos movimentos sociais, mas apresentar uma proposta. Tal proposta se encontra dentro de uma parte dos movimentos sociais conhecida por movimento estudantil (ME). Internacionalmente, temos como Maio de 1968 o marco das lutas do movimento estudantil na França. No Brasil, ela aparece no imaginário da população brasileira no período que compreende a instituição do golpe de Estado em 1964, culminando na instalação de uma ditadura civil-militar que perdurariam até 1985. Teria um novo fôlego no movimento dos caras-pintadas em 1992 e nas Jornadas de Junho em 2013. Trago aqui um artigo do Marcos Ribeiro Mesquita de nome “Movimento estudantil brasileiro: Práticas militantes na ótica dos Novos Movimentos Sociais”[11] para um melhor entendimento do movimento estudantil brasileiro, realizando aqui inferências a partir dele. É observado e confirmado que o movimento estudantil brasileiro (MEB) é plural, mas ainda com uma carga normalizadora e tradicional de suas origens. A citação abaixo explica isso bem:

Nesta pluralidade existente, o movimento agrega um número infinito de tribos e grupos em seu interior, desde aqueles que se manifestam através de tendências orgânicas — geralmente ligados a um partido político –, até aqueles que expressam interesses temáticos e mais localizados — como o grupo de estudantes negros e as Executivas de Curso, por exemplo. Existem ainda aqueles que apesar terem uma organização de grupo, não possuem vínculos partidários. É o caso dos independentes e dos anarquistas.
Por outro lado, a existência desta pluralidade muitas vezes é ofuscada dada a capacidade de articulação e de estratégias das entidades estudantis clássicas, que imprimem um estilo, um modo de fazer política e militância que não contemplam, ou têm dificuldades de aceitar, novas maneiras de expressão estudantil, ficando estas últimas, muitas vezes marginalizadas. (MESQUITA, 2003, p. 120)

Como bem disse Foracchi: “É necessário investigar sob que condições se estabelece a comunicação entre a cúpula e a base e de que forma as decisões desta traduzem as reivindicações daquela”[12]. É verdade que o MEB abarca uma gama mais ampla de assuntos em discussão ou para serem discutidos, mas esta não tem mais um forte apelo para chamar os estudantes para as suas atividades. Isso mostra que ela passa atualmente por uma crise de organização e representatividade:

Burocratizado, hierarquizado, centralizador, partidarizado, ultrapassado… Estas são algumas das representações (inclusive dos militantes) acerca do movimento estudantil que, de certa forma, se cristalizam enquanto justificativas do distanciamento entre os estudantes e suas entidades. Como uma das temáticas mais debatidas e refletidas por estes nos últimos anos, a questão da representatividade do movimento estudantil vem sendo uma preocupação constante. (MESQUITA, 2003, p. 122)

Entretanto, o assunto que mais aparece dentre os problemas do MEB é o aparelhamento. A aproximação dos partidos políticos — ou da sua juventude partidária — nos movimentos acaba gerando perante ela própria um afastamento e descrédito dos estudantes no geral e da sociedade. A lógica dos partidos paralisa ou abafa iniciativas potencialmente criativas dos estudantes nesses movimentos estudantis. Em resposta a esses problemas, a lógica do apartidarismo ganha força contra o aparelhamento. É também apontado como resposta uma construção de uma agenda e pautas claras pelo MEB para que este não a receba dos partidos, pois “[…] importante se faz estabelecer outras formas de linguagem e comunicação no interior do movimento, de maneira a não se institucionalizar ainda mais o discurso dos militantes partidarizados, como o único possível”[13].

O movimento estudantil também se preocupa com a formação mais íntegra e humana do jovem:

A grande proposta para o terceiro milênio em nosso país é o jovem se qualificar humanisticamente, intelectualmente pra vencer os desafios que estão postos dentro dessa sociedade extremamente competitiva. (MESQUITA, 2003, p. 133)

Por fim, a velha forma institucionalizada de fazer política no MEB continua, mas este também se atualiza para novas práticas e possibilidades. Logo, a negociação é uma ferramenta de equilíbrio para as propostas que são e serão apresentadas em forma de pautas através das correntes presentes no movimento. E aqui coloco a minha proposta: como pensar e, em todas as instâncias possíveis, (re)elaborar o centro acadêmico (CA) para a nova realidade que se apresenta aos movimentos estudantis? Sendo o CA como entidade ou instituição estudantil clássica dos cursos universitários — assim como os diretórios acadêmicos (DA) e diretórios centrais dos estudantes (DCE) -, esta ao meu ver carece de uma firme e plena reflexão teórico-prática. Creio na possibilidade de total viabilidade dos saberes concernentes a filosofia política estarem a disposição de um saber e reflexão próprios para essa pequena, mas notável e importante realidade.

O CA é a unidade de representação política tradicional mais básica dos estudantes dentro de uma universidade. Mas hoje a universidade não abarca como movimento estudantil somente os CAs, DAs e DCEs, mas também coletivos, grupos de estudo e de extensão, ONGs, associações etc. O particionamento do movimento estudantil focaliza e expande, mas também permite a simbiose que a multidisciplinaridade hoje carrega e é exigida na academia. Caso o centro acadêmico decida envolver as suas atividades com esses outros movimentos, o que ele irá absorver? O que mudará nele com isso? Outras perguntas também podem ser levantadas para abrir caminhos de discussão perante a constituição de um CA. Qual é o melhor contrato social a ser aplicado? É preciso de um contrato social? Qual a melhor forma de representar os estudantes dentro deste? A representação é a melhor forma de organização política para este? Como ter as suas atividades bem organizadas administrativamente sem burocratizá-lo? Que ideais devem regê-lo e norteá-lo? Como o este deve atender as necessidades e anseios dos estudantes de seus respectivos cursos? Que relação este deve estabelecer com partidos políticos? O CA deve estabelecer alguma relação com partidos políticos? O que fazer para evitar o seu aparelhamento? O que fazer caso este esteja aparelhado? A quantidade que somente cresce de questionamentos que podem ser levantados ao modelo de centro acadêmico instituído ou que futuramente pode ser são várias, sendo que para todas elas as respostas abrangem as mais variadas subáreas da filosofia e as mais variadas áreas da ciência.

Julgo ser necessário o avanço a ser dado em um centro acadêmico pela filosofia política.

O jovem, como indivíduo com um caráter em constante formação e de atitudes individuais que refletem no coletivo, pode seguir os passos inicialmente dados para sua intervenção na sociedade, mas focando para essa realidade na qual convive caso esteja em um ambiente universitário. Ao educador político resta guiar bem o indivíduo e a si mesmo para esse recorte, moderando o debate, buscando questionamentos, oferecendo novas visões e saberes, elaborando ou reelaborando o centro acadêmico.


Notas de rodapé

[1] Licenciando do curso de filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

[2] Adela, 1996, p. 19.

[3] Ricoeur, 1995, p. 147.

[4] Ricoeur, 1995, p. 155.

[5] Adela, 1996, p. 28.

[6] Adela, 1996, p. 25.

[7] Adela, 1996, p. 23.

[8] Adela, 1996, p. 22.

[9] Ricoeur, 1995, p. 146.

[10] Ricoeur, 1995, p. 148.

[11] MESQUITA, Marcos Ribeiro. Movimento estudantil brasileiro: Práticas militantes na ótica dos Novos Movimentos Sociais. Revista Crítica de Ciências Sociais, N. 66, 2003. p. 117–149.

[12] Foracchi, 1977, p. 230.

[13] MESQUITA, 2003, p. 129.


Referências

CORTINA, Adela. Ética Civil e Religião. São Paulo: Paulinas, 1996.

FORACCHI, M. M. (1977), O estudante e a transformação da sociedade brasileira. São Paulo: Editora Nacional.

MESQUITA, Marcos Ribeiro. Movimento estudantil brasileiro: Práticas militantes na ótica dos Novos Movimentos Sociais. Revista Crítica de Ciências Sociais, N. 66, 2003. p. 117–149.

RICOEUR, Paul. Leituras 1 — Em torno do Político, Tradução de Marcelo Perine, São Paulo: Edições Loyola, 1995.