Carta para Manoel

Oi, Manoel.

Você não me conhece, mas um dia nos cruzamos na rua da história. É que nunca gostei de poesia sabe e, como que por birra, você veio me mostrar o quanto eu estava errada. Porque sim, dá pra fazer poesia sem ser sobre o amor entre duas pessoas — que pra mim é bastante chato — e, em vez disso, falar do amor entre gente-pássaro, água-vento, máquina fotográfica-bêbado, azul-mosquito.

Caramba, você viveu muito tempo. E usou esse período em que seus pulmões puxaram todo o ar do mundo para descrever coisas que eu nem sabia que podiam ser descritas. Como é complicado a gente ver o simples, né? Como pode a gente precisar de caminhos complexos pra encontrar o óbvio na frente do nosso nariz? Menos o senhor. O senhor via coisas que a gente, que é comum e esquisita, não consegue ver sem os tropeços que a vida dá.

Nunca fui ao Pantanal, mas imagino que seja bonito porque jacaré, passarinho e árvore convivem tranquilamente. E seu cabelinho branco compunha bem a paisagem, acho que combinava muito com as cores da bandeira do Brasil.

Eu tive a pachorra de me aventurar dando aulas de escrita por aí. Não que eu tenha muito o que ensinar, mas a minha intenção de apresentar o seu trabalho aos alunos acho que foi a coisa mais válida dessa experiência. Quando eu lia em voz alta aquela sua poesia — aquela que contava o dia em que você saiu de uma festa e fotografou o silêncio — sempre tinha vontade de chorar. Não sei, ficava um negócio preso aqui dentro que teimava em sair. Talvez por eu nunca ter visto um silêncio na vida. Inveja boba.

Mas o que interessa mesmo é que um tempo atrás abriram sua gaiola. Não sei se deus, ou o doutor, ou a natureza. Faz um ano já não tem mais o corpo velho que insistia em deixar atrás de grades o espírito de menino de calção e sem camisa que sapateia no barro de pé no chão. Aqui em baixo, olha só, escreveram matérias, cobriram as visitações que fizeram à sua gaiola aberta. Um corpo morto não faz mais poesia, nem fotografa silêncio algum. Mas um passarinho liberto, ah, esse sim, olha as coisas de cima e canta em uma linguagem que só quem é passarinho consegue entender. O senhor ainda está aprendendo a bater as asas ou já saiu por aí dando pirueta no ar?

O senhor deixou aqui coisas maravilhosas. Em mim, uma gratidão imensa por me fazer gostar de poesia. Dessa poesia aí. Pensei em agradecer de alguma maneira e acho que em silêncio eu posso conseguir.

Espera. Eu tô vendo o silêncio. Ele é bonito. :)

Obrigada, passarinho.