Em cima do muro: uma visão privilegiada

Nós somos mais suscetíveis do que achamos que somos. Abraçamos a opinião alheia como nossa sem pensar, já que passou a ser um ato de coragem assumir a responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.

E não digo isso por causa do bafafá político. A gente se entrega ao outro nas mais imbecis situações. Se alguém que você gosta e respeita muito começa a dizer que o disco novo da banda X é uma merda e passa a fazer piadas sobre ele ou se um cara extremamento culto e crítico começa a zoar um determinado escritor, automaticamente nosso cérebro tende a tomar essa informação como principal. E aí que a gente cai na armadilha de que a nossa experiência tem que se parecer com a do outro, senão a gente se sente acuado e impróprio por pensar de forma oposta.

Na maternidade tem muito disso. Mães que tiveram experiências não convencionais e até negativas, que não refletem a expectativa do ~mãe é padecer no paraíso ~ não se sentem no direito de compartilhar sua vivência. É errado. É mau.

A gente odeia Paulo Coelho sem ter lido uma linha, porque convencionou-se que ele pratica a má literatatura. Ao mesmo tempo, outras milhões de pessoas fora do nosso círculo de convivência opinativa agradecem a ele pelas palavras que podem ter chegado em momentos difíceis. E o cara vende. E repelimos quem faz sucesso porque a massa é burra.

É muita incoerência da nossa parte, o tempo todo. Nós achamos inteligente e lúcido (gente, como eu odeio quando usam esse adjetivo) todo aquele que compartilha da nossa própria opinião, quando na verdade a gente tá lambendo o próprio cu e elogiando a nós mesmos. Olha, minha opinião é tão certa que o Gregório Duvivier concorda comigo. Ou o Pondé, ou o JB Medeiros, ou o Frei Betto, ou o Antônio Prata ou a Eliane Brum, ou o Júlio Bernardo, ou (insira aqui seu influenciador favorito).

Vejo até hoje marmanjo de 35 anos criticando o Justin Bieber, como se ele fosse o público-alvo dele. Nós não somos público-alvo de tudo, apesar de nos comportamos como se fôssemos. É como se eu comesse ração de cachorro e reclamasse que a comida tá mal feita.

E assim a gente segue equilibrando uma trouxa disforme de opiniões na cabeça. Queremos usar as nossas roupas e as roupas dos outros, mesmo que essas não nos caiam muito bem. O importante é estar vestido. Andar pelado (de roupas e de opinião) não é bem visto e deixa a gente vulnerável, desprotegido, exposto. Certos posicionamentos que tomamos servem mais como armadura contra a exclusão social do que como instrumento de reflexão.

O estar em cima do muro (ou pelado de opinião) pode ser uma vantagem quando dos dois lados da rua tem um monte de zumbis comendo uns aos outros. É questão de sobrevivência, além do que conseguimos ter uma visão geral e privilegiada de um ponto mais alto.

Pensar exige tempo, pode ser bem demorado. Conclusões podem nem existir. As certezas cegas são matéria-prima para a ignorância mais profunda.