Influência

Você não se conhece. Sequer entende o porquê do ódio gratuito aos Engenheiros do Havaí. É por conta daquela crítica que leu? O cara cujas opiniões você respeita falou mal deles e isso passou a ser a sua verdade?

Onde foi que você aprendeu a gostar — de verdade — de cerveja artesanal? De onde tirou que aquele Tiramisù é o melhor do mundo? Por que acha que o Paris 6 é uma merda? Curte mesmo o torresmo do Zé ou é só pra mostrar o quão despretensiosa é a sua pretensão?

Quando foi que ideias de fora passaram ser a sua verdade?

Escreve aí sobre o que é bom, vai. Mete o pau no que todo mundo tá metendo o pau. Expõe mesmo, porque assim os outros validam a sua existência. O que é a gente quando não tem opinião sobre nada? Argumente, nade no raso, tome partido de canudinho.

Rolha de malbec flutuando na enchente?

Papel de bala na ventania?

Resto de pão e almoço de pomba de praça?

Precisa validar a sua opinião, cara. Mostra que há referência e propriedade pra dizer o que os outros devem pensar. Reproduz essa coisa de influência que mais parece aquele filme doido Centopéia Humana. Um cagando na boca do outro. Passa a diante. Repete o processo. Ventríloco, ventrícolo, ventíloco, ventríloquo, sei lá como escreve. Você parece que tem voz de outro alguém, é isso.

Percebe que é uma armadilha?

Viu, você não consegue ficar quieto um minuto? Não dá pra querer comer a sobremesa sem a intenção de vomitá-la para o mundo em selfie-filtro-enviar-amém?

Não cansa ter que parecer algo o tempo inteiro? Viu, tem um lugar lindo para levar as crianças, bem bacana para fazer um storie. Bota teu filho na mira, na onda. Vista-o pra sair bem na foto. Faz ele ficar quieto pra posar em meio à grama. Que dia feliz, gratidão, namaste, agradeço a Deus pelas bençãos da vida.

Sai da foto e vá foder com teu marido, minha filha. Vá cheirar o mato que cresce sem a tua lente.

Respira sem a intenção de parecer.

Engenheiros do Havaí nem é tão ruim assim, talkei?