Quando a vida cabe em um moletom

Ilustração: Andrew Zbihlyj

Podem ficar vocês aí: protestos, jeitinho brasileiro, dinheiro na cueca, aguaceiro na rua principal. Pode continuar pegando fogo, Brasil. Que caia o mundo sobre a cabeça de todos porque hoje ele se deu o direito. E quando nos damos o direito de sucumbir ao peso da vida, o símbolo máximo da entrega e da alienação assistida chega malandro e irresistível em formato de: moletom.

Nada é tão confortante quanto deixar a vida de lado para se despir do personagem que incorporou durante o dia. Liberar os pés do sapatos apertados, ligar a televisão na atração mais rasa possível e vestir um moletom era um dos poucos prazeres a que ele se permitia.

Tinha se cansado um pouco (além do costumeiro) naquela semana por causa das horas extras ocupadas pelos relatórios urgentes e pelas manifestações a favor de alguma coisa que já não fazia muita questão de lembrar. A cabeça cansada deixava o corpo desobediente e gelatinoso.

Espichou a coluna meio que desajeitadamente e decidiu que aquela noite ia ser leve, que nem um saco de pão vazio. E sentiu o moletom roçando da cintura para cima e concatenou que, se houvesse paraíso, lá o uniforme oficial eram moletons e mais nada.

O moletom dá um aval em nossas vidas, chancela nossa libertação. Diz pra gente que, ok, a vida é isso aí, mas é hora de agradar a si próprio, permitindo que sejamos um erro de moda quase perdoável e que esqueçamos que o salário do mês já acabou. Quando se veste uma peça dessas e mais nada, é como se gritasse ao mundo que não, não há mais papel nenhum a desempenhar. Permitam-me desexistir enquanto vivo, fazendo o favor.

E está permitido sim.

Enquanto o Datena esbravejava, ele acomodou os ombros no sofá, de modo que o capuz fizesse um carinho em sua orelha esquerda. As mãos estavam enfurnadas e sentiam também a flanela do forro enquanto os joelhos se dobravam buscando um pedaço do uniforme do paraíso.

Antes de fechar os olhos deu uma coçadinha por entre as pernas e pensou que não há melhor lugar no mundo do que dentro de si mesmo.