Francin

Quase amor 3.0

- Alô, mãe?

— Oi filha! Que saudade! Como estão as coisas, você ainda tá com aquela diarreia, ainda tá tomando aquele Lacto Purga, já te falei que aquilo

— Mãe, preciso contar uma coisa.

— O que é? Não vai me dizer que a vizinha ainda está fazendo fofoc

— Não, mãe, é o Kléhber.

— Ah, o que tem o Kléhber? Aliás, você ficou de trazer o moço pra vir jantar conosco e até agora não

— Mãe, ele me pediu em casamento.

— …

— Você ouviu? O Kléhber me pediu um casamento!

— Minha filha, que coisa mais linda! Mas, mas, como foi, nossa, me conta, quando? Menina, tô arrepiada, JOSUÉ, DESLIGA O FORNO QUE

— Foi ontem, mãe. Ele me levou para jantar e no meio da comida ele disse que tinha algo pra me falar.

— Meu Deus seja louvado! A Tia Alzira agora vai parar de falar que você não vai contrair matrimônio nunca e, mas me conta, o que ele disse? O que você di

— Estávamos comendo, ele inventou de ir àquele restaurante chique que tem pratos de louça enormes com uma poça de comida no meio.

— Ahm

— E aí ele me tira uma caixinha preta do bolso e disse que era pra mim.

— Ai meu Deus! E o que você fez?

— Eu peguei, abri, e ele perguntou “você quer se casar comigo”?

— Aiiii minha filha! A Tia Alzira vai cair durinha quando souber di

— Mãe, eu estou me sentindo um lixo.

— Mas, filha, como assim? Como você é pedida em casamento e está se sentindo um lixo?

— Mãe, um pedido de casamento num restaurante… é óbvio que o Kléhber não queria demonstrar seus sentimentos, porque homens são sempre assim, fazem tudo na surdina. Ele não foi capaz de se esforçar um tiquinho para deixar esse momento especial!

— Filha, ele quer que você seja a esposa dele, não tô entendendo o porq

— Mãe, está muito claro pra mim que ele fez isso por obrigação. Imagina se um homem apaixonado de verdade, que se importa com os meus sentimentos, que quer fazer a mulher feliz de verdade, vai falar baixinho, num restaurante, “oi você quer se casar comigo?”. Mãe, é claro que o Kléhber só tem a me oferecer uma vida mesquinha, sem emoção, sem aventura, sem

— Flaviana, minha filha, raciocina. O que é que você estava esperando?

— Mãe (nariz escorrendo, olho inchado, suor na testa, decote molhado) eu sonhei a minha vida toda com um pedido de casamento decente, com no mínimo uma plateiazinha, sabe, com um amigo filmando, com pessoas emocionadas em volta, com música tocando, com amigos dele se levantando e cantando em coro, com a minha história de amor no YouTube tendo sessenta mil acesssos por dia. Mãe, como ele pode acabar assim com o meu sonho, me fala? O Kléhber não pensou um segundo nos meus sentimentos!

— Flaviana, às vezes ele é uma pessoa mais simples, que dá valor nas intimidades, essa coisa de vídeo não agrada todo mun JOSUÉ EU JA FALEI PRA DESLIGAR O CARALHO DESSE FORNO OU VOCÊ VAI ALMOÇAR LASANHA DE BERINJELA DO BAR DA MARIA INÊS

— Mãe, me escuta, pelo amor de deus. Eu tive a prova de que o Kléhber não é o homem da minha vida! E (assoando o nariz) é claro que o que eu sinto por ele ainda é muito forte, mas eu preciso ir atrás da minha felicidade! Essa coisa de ser discreto, de privacidade é muito out, é bobagem da sua época, eu sou focada na minha própria felicidade, eu preciso ser racional e sei o que eu quero da minha vida.

— Minha filha, você tem que erguer as mãos pro céu por ter alguém te pedindo em casamento com esse tanto de viado que tem no mun

— Mas…. não foi… isso que eu sonhei….. nesses 21 anos…… da minha vida… mãe…. como eu vou ser feliz com um homem que sequer……… (telefone encharcado) que sequer contrata uma banda pra tocar a minha música preferida, mãe! Ele não fez a mínima questão de demonstrar sentimento algum pras pessoas que estavam naquela bosta de restaurante!

— Flaviana, você não acha que tá na hora de ir embora dessa cidade? Volta aqui pra Socorro do Sul, volta pra sua realidade, filha! Esse seu trabalho não tá te fazendo bem, seja lá o que você está fazendo agora como influenciadora de não sei o que.

— Mãe, esse é o trabalho que eu sempre quis, mãe.

— E o Kléhber, minha filha?

— Ele foi embora. Depois que eu levantei no restaurante e chamei ele de frouxo e de insignificante, de bostinha na frente das pessoas, ele nunca mais me ligou.

— Então volta, filha.

— Não, mãe. Eu não posso.

— Por que, Flaviana?

— Tenho um call pra apresentar relatórios de ROI de uma campanha pra um cliente importante amanhã

— Tem o quê?

— Mãe, tenho que desligar agora. Reza pra mim, por favor, pra eu conhecer um homem de verdade.

— Você sabe o que faz, minha filha. Deus te abençoe.

— Beijo…… mãe…… te amo.