Quero emagrecer, mas não sou trouxa

Um relato sincero de quem odeia atividade física, mas que tem sentido as vantagens de combater as próprias birras.

Minha história de derrota com as atividades físicas começa no primário, quando eu era a última a ser escolhida nos times da queimada. Molenga e cansada, a pequena Francine vivia nos bancos de reserva, quando não atrás do pilar da quadra pro professor de educação física a encontrar.

Nunca tive aptidão para esportes, apesar de que já experimentei de um tudo nessa vida, motivada por aquela que, como a minha fome, é a última que morre. Eu tinha esperança de ter um encontro mágico com o tal do bem estar que chega depois dos exercícios, com a serotonina, com a vida saudável, com um corpinho menos flácido.

Capoeira, natação, futebol, handebol, kung-fu, yoga, zumba, salsa, por tudo já passei com aquela empolgação inicial que vai se transformando em uma inexplicável vontade de morrer. Não gosto de nada. Não gosto de me movimentar. Nunca me apresentaram para essa tão famosa endorfina.

Sempre fui magrinha, mas durante um período gótico suave da minha vida cheguei a engordar 21 quilos. Sou bem dessas que apoia o amor ao próprio corpo independente das pressões estéticas, mas quando as calças começam a rasgar no meio das coxas fica um pouco difícil sustentar esse amor todo. Joelho doía, pés doíam, mas não mais que a consciência depois de comer um Toblerone de meio quilo como sobremesa. Assim eram os dias entre meu 2007–2009.

Aquele corpo não era o meu.

Perdi quase tudo que eu havia ganhado nesse período de descontrole que envolveu compulsão alimentar e falta de amor próprio. O céu desanuviou. Entrei nos eixos. E, mesmo com a inaptidão toda, lutava para ir à academia como Aécio Neves luta pela presidência. Um troço chato, porém um substituto para a gastação de dinheiro na farmácia.

O diagnóstico de Síncope Neurocardiogênica

Há dois anos mais ou menos, comecei a sentir o mesmo mal estar que eu sentia quando criança. Ele era real e por causa disso abandonava os esportes com frequência e era motivo de piada na queimada. Eu chegava a desmaiar muitas vezes, tinha falta de ar, meus pés e mãos formigavam, sentia tonturas horríveis e a sensação de que qualquer esforço extra era muito além do que meu corpo conseguia oferecer pro mundo.

Aos 30 e poucos anos, eu parecia a Francine de 10 com todos esses sintomas novamente. Diziam que era falta de comida, falta de sal, que eu tava recebendo santo, que eu tinha mediunidade, que era gravidez psicológica, que era estresse, que era um chip colocado atrás da minha orelha esquerda pelos marcianos.

O cardiologista me diagnosticou com um negócio chamado Síncope Neurocardiogênica, uma deficiência na circulação, onde as veias mais se contraem do que se expandem, impedindo que, às vezes, o sangue leve oxigênio pra cabeça. Aí, amigo, é apagão na certa. Minha birra com esportes tinha embasamento científico e até fiquei feliz por isso, por saber que, de todo, não era só frescura.

Para minha tristeza, o médico me deu duas opções de tratamento: uma era o uso de corticoides e a outra era a musculação. E aí minha cabeça pifou: como eu iria tratar uma doença que não me deixava ter forças para fazer exercícios com o próprio exercício?

Foi uma metáfora bem irônica da vida. O mesmo acontece com os medos da gente. É preciso encarar o bicho de frente para que ele vá embora.

Esse drama todo foi só para ilustrar o quão difícil foi pra mim ter que começar uma atividade física regular. E se você se sente dessa mesma maneira, me dá aqui um abraço.

Hello, auto sabotagem, my old friend

Sabe o que é sentir vontade de matar? Ódio do mundo? Desejo que sua vida acabe naquele momento ou que apareça o Inri Cristo de lambreta pra te levar embora dali? Era o que eu sentia nos meus primeiros dias na academia. Sei que muita gente iniciante passa por isso, mas todos os dias eu nutria a esperança de que a entidade serotonina baixasse em mim e eu deslumbrasse um cenário de amor, vício e whey pelo caminho.

Não. Não. E não.

Faltava muito. Parava por meses. Ia só pra andar cinco minutos na esteira. E ainda me perguntava indignada porque o universo não conspirava a favor de um corpinho mais enxuto.

Nessas idas e vindas é lógico que meu corpo não mudou em nada. Por fora. Por dentro, senti melhoras que me deixaram perplexa. Parei de sofrer com as dores na cervical que faziam meu pescoço travar de mês em mês. Os pesadelos que eu tinha deixaram de me visitar de madrugada e comecei a ter um sono mais adequado. Subir um lance de escada já não é um problema sem solução.

Com tanta coisa boa acontecendo, deixei meu lado Romário em 1995 de lado e passei a dominar a marra, com a compreensão de que ter sido tão birrenta só me prejudicou. Eu deveria tentar um pouco mais.

Vendo pequenos resultados no dia-a-dia, comecei a ficar levemente positiva, disposta e menos preconceituosa com o “povo da academia”. Puxar ferro me deu mais lições de vida do que qualquer livro de autoajuda. O preço foi conhecer minha raiva, meus limites e compreender que leoninos precisam baixar a cabecinha e praticar a humildade diante de coisas que não gostam, mas que fazem toda a diferença.

A academia, então, deixou de ser um bicho de sete cabeças. Hoje, tem só 3.

Melhorando a forma

Tenho pensado muito sobre a questão do amar seu próprio corpo e o quão equivocada eu posso estar em querer ~dar uma emagrecida~ aproveitando que o sol raiou e finalmente passei a semi-gostar de fazer atividades físicas. Ué, o corpo não é meu? Então posso fazer com ele o que eu quiser. Questão resolvida.

A vontade de diminuir a gordura corporal que foi acumulada em mais de 30 anos de vida sedentária é real. Eu não sou gorda, mas meus amigos que dizem que eu “tenho a textura do travesseiro da Nasa” têm razão. Eu poderia ter um pouco mais de músculos e menos tecido adiposo. Essa é a meta daqui pra frente.

Eu gosto muito de ler sobre esses assuntos de saúde, embora não faça muito propaganda. Quero emagrecer, mas gente, quanta bosta existe nesse mercado!

A sensação de estar sendo feita de trouxa é onipresente quando visito blogs ou leio coisas sobre emagrecimento. Eu não quero gastar 300 dilmas num pote de Whey recém lançado, muito menos saber 10 exercícios para trincar o abdome. Só quero ficar de bem comigo mesma e oferecer uma jornada mais saudável para a minha morada, meu corpinho.

Pouco se fala sobre a difícil relação com nosso próprio corpo. Em como a gente se sabota o tempo todo e como é complicado deixar hábitos nocivos de lado. Em compensação, meua migo, é tanta publicidade enganosa vendendo pílulas milagrosas, dietas para perder 30 kg em duas horas, a nova descoberta para endurecer a bunda em cinco agachamentos. O mercado do emagrecimento acha que todo mundo que quer ter uma vida mais saudável é trouxa. Muito trouxa.

E deve ser mesmo, porque se não houvesse público pra tanto absurdo, eles não existiriam, né?

#forçafocoeumaporçãodetorresmo

Ainda assim, fico abismada com o quanto o ~pessoal da academia~ leva as coisas tão a sério. Moças tão definidas que dá vontade de perguntar “amiga c já comeu um pão de queijo recheado na sua vida?”. Não entendo esse Estado Islâmico da vida saudável, mas cada um tem lá suas motivações, neuras e objetivos de vida. Depois que minha condição física melhorou em vários sentidos, o meu foco é continuar comendo o que me dá vontade porque isso me faz muito feliz. Ô se faz.

De uma maneira bem particular, entendi que o desejo de mudar os hábitos tem de vir primeiro que o desejo de mudar o corpo. Se for ao contrário, as chances de falhar são infinitamente maiores. Ninguém tem o direito de mandar você perder peso, ou fortalecer as coxas, ou caminhar diariamente, ou parar de comer glúten, lactose, chocolate, ovo, carne. A não ser a sua consciência e seus exames médicos. Aí você vê o que é bom. Pra mim, ter desafiado minha birra pela saúde só trouxe coisas boas. E agora estou tentando aproveitar o vácuo de boa vontade para perder a textura de travesseiro da Nasa. :)

Não é fácil, mas gostaria de continuar indo à academia regularmente. É ela que está me ajudando no momento a cuidar melhor da morada que ganhei aqui nessa vida. E odiar atividade física, talvez seja algo pesado demais para uma pessoa que hoje em dia se sente um pouco mais leve.