Foto de Thomas Picauly, fonte: Unsplash.

J.C. — Episódio 3: 'Sobre escolhas'

Fran Rozzatti
Sep 4, 2018 · 5 min read

Ele havia crescido. Aquele pedaço de ser humano que certa vez mamava no peito da minha melhor amiga, agora já estava evoluído o suficiente para fugir, correr, rir, cair e chorar. Era como um Pokemon que evoluía costantemente.

Todos os dias, o dia todo, aquele pitoco de gente saia correndo pela casa, quebrando uma ou outra coisa que havíamos esquecido de colocar mais alto do que ele poderia alcançar. É incrível como crianças são mais rápidas do que adultos quando o assunto é: encontrar "coisas quebráveis".

Daniel é um menino lindo, saudável, de olhos castanho-escuro, bem redondos, que brilham a cada sorriso. Vale também ressaltar que tudo o que o Daniel tem de lindo ele também tem de energia (de sobra).

Carol havia mudado. A maternidade não é coisa fácil. Piora drasticamente quando deve ser feita somente pela mãe. Aquela mulher serena e vaidosa que eu conhecia, agora dava lugar à uma mãe despenteada, que se coloca em segundo lugar sempre. Não por opção: era a única alternativa.

Ela trabalhava e trabalhava. No trabalho e em casa. Nunca a vi descansando. Mas vale ressaltar que Carol é forte. Agora ainda mais. Gostaria de poder dizer o mesmo sobre minha pessoa, mas minha realidade não é bem essa.

Não sei bem dizer o motivo que me levou a abrir as garrafas de whisky do meu pai (que era ausente), mas foi o que fiz. Com meros 14 anos terminei uma garrafa de Jack Daniels sozinha.

Acordei, atordoada e sem saber ao certo o que estava acontecendo, com minha mãe batendo forte na janela: ela havia esquecido as chaves. Minha mãe era do tipo que trabalhava e trabalhava. Trabalhou tanto para poder suprir a lacuna paterna que acabou, tristemente, da mesma maneira: ausente.

Ela entrou em casa, me carregou para a cama, jogou a garrafa fora e nunca falamos sobre este episódio. Eu não a culpo. Quem sou eu para julgar as atitudes de minha própria mãe? Ela sempre fez o que pôde e deveria.

Ao invés de conversar comigo, ela mandou minha tia fazê-lo. O motivo? Bom, ela leu alguns estudos que afirmam que o alcoolismo pode estar relacionado a fatores genéticos. Minha mãe e sua mania de encontrar maneiras de se culpar pelo erro dos outros. Ah, também minha avó foi uma viciada e alcoólatra.

Contou minha tia que, certa vez, mamãe e ela vinham com vários amigos para casa, quando encontraram minha avó desmaiada no corredor. Elas nunca mais trouxeram amigos para casa, isso pois não tinham como saber em qual estado encontrariam sua mãe: sóbria, bêbada ou desmaiada.

Eu não julguei minha avó. Para ser sincera, no fundo acho que ninguém remotamente poderia entender os motivos que a levaram a beber. E nem os que me levavam a beber. Eu não bebia por prazer. Eu bebia para me destruir.

Eu não queria sentir alegria, ou saudade, ou raiva. Tudo o que sempre busquei no álcool era a sensação de não sentir nada. Eu queria me tornar outra pessoa. Eu queria poder sair do meu corpo, me desvencilhar dos meus ossos e… parar de sentir.

Não se engane. Eu não escrevo para que você tenha pena de mim. Eu sou uma pessoa de sorte e sei que tenho a capacidade de parar a qualquer momento. Quem alimenta meu vício são minhas próprias mãos. Beber, ou não, é uma decisão que cabe a mim.

E digo isso por experiência. Aos 26, quando fui diagnosticada pela primeira vez com problemas no fígado, ouvi do médico que eu era jovem e que isso seria facilmente curado. Se eu quisesse.

Eu quis, algumas vezes. Durante meus meses 'limpa' eu pude encontrar outros meios de seguir me destruindo: outras drogas, sexo e até mesmo comecei a me cortar- com facas, com lâminas, com bisturi...

Acredito que a mais profunda verdade sobre vícios seja esta. Você nunca se livra, de fato deles. Apenas encontra outro.

Da última vez, estava sóbria havia sete meses e dez dias. Até que resolvi sair com alguns amigos. Não era problema para mim frequentar bares e não beber. Mas, aquela noite, aceitei uma taça de vinho. Ah, qual é? É uma pequena taça de vinho, que mal poderia fazer?

E de fato, não fez mal algum. Posso dizer que aquele vinho entrou no meu corpo e me trouxe tanta euforia quanto ter múltiplos orgasmos ou fumar muita maconha e rir durante horas. O problema é que duas, ou mais, garrafas de vinho fazem mal.

Eu sempre fui sozinha. Minha mãe faleceu quando eu era jovem. Meu pai nunca cheguei a conhecer, nem nunca tive interesse. Se você se pergunta se ninguém notou que eu era alcoólatra eu te digo: eu sabia jogar o jogo.

Nunca perdi um prazo sequer no trabalho. Quando estava com amigos, sabia exatamente quando eles iam virar as costas e eu poderia bebericar direto da garrafa de vodka. Durante eventos ou longos períodos que eu teria que ficar em público, eu sempre levei minha garrafa de 'água'.

Quando se é sozinho, ninguém nota as duas garrafas de vinho que você compra depois do trabalho. Todos os dias. Ninguém vai te perguntar o motivo de você estar sempre mascando um chiclete — nem poderiam imaginar que é só para disfarçar o bafo ácido.

Ressaca? Tive nos primeiros anos. Sigo tendo, mas aprendi a seguir a vida mesmo com todas as dores. Era uma maneira de punição que me fazia bem, de alguma forma.

O prazer se esconde nos riscos. Ficar doente, se machucar ou até mesmo morrer. Você nunca sabe como uma noitada regada a álcool pode terminar. Se você beber na medida certa, ainda consegue ter certo controle e lembranças do que você está passando. Você se sente sensual, empoderado, sem limites.

É o tipo de risco que você acha gostoso correr. Como festar até tarde sabendo que você terá que ir ao trabalho em menos de duas horas. Roubar um docinho da festa antes do parabéns. Deitar-se sob o sol de verão sem protetor solar: você sabe que vai se queimar, mas quer preservar o momento.

Lembra do meu desejo de ser outra pessoa? Era isso que eu estava me tornando. Bem, não da maneira que eu planejava. O álcool te faz perder muito peso, ter uma pele seca e manchada, ter olheiras horríveis em decorrência de noites e mais noites sem sono apropriado.

Além de alguns sinais físicos, o álcool também drena suas amizades. É chato ser amigo de um alcoólatra. Te faz tomar apenas más decisões. E até mesmo o sexo o álcool consegue tirar de você: afinal, tudo o que vai acontecer é você acabar desmaiado antes mesmo das preliminares.

Você não toma os remédios que deveria. Grita com o vendedor de bebidas porque ele pediu sua identidade. Xinga e diz coisas que você nunca quis a seus familiares e amigos próximos. Acorda sem nenhuma remota lembrança do que fez ou dos motivos que te levaram a fazer/falar isso.

Alcoolismo não é nada bonito. Durante meu período sóbria, Carol e Daniel foram tudo o que eu tinha. Mas, agora, eu não era uma boa companhia para eles: Carol era forte e eu fraca.

O que Miguel fez comigo serviu apenas para ativar o gatilho de traumas que fazem com que eu me renda ao álcool. E eu pensava que estava no controle. Pensava. Até que…

(Continua no próximo capítulo)

    Fran Rozzatti

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    Horse and travel lover. Generalist. Feminist. Enthusiastic. Visite meu site! http://whattafran.com/

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