Sonhar nem sempre é o melhor.


Uma mão quase que conduzida automaticamente, encontrar um singelo botão chamado soneca. Que inferno!

Eu nunca considerei meu despertador um inimigo, não de verdade. Acho que ele está mais para um velho e bom amigo, aquele que é sincero e realista ao extremo. Por isso você o odeia genuinamente, um ódio que no fundo quiçá seja o amor na sua forma mais pura.

Você encontra esse amigo e já posta-se a reclamar da vida, do café amargo demais, do valor do pão de queijo, entre outras futilidades cotidianas. Sem deixar de fora o velho clichê, sobre a menina que lhe deu um adeus amargo e um fim digno de histórias superficiais sobre amores imperfeitos. Então, ele te olha e diz com extrema verdade e convicção, que a vida segue, que ela não era o amor da sua vida e isso possivelmente sequer existe. Alega também, que você podia não comprar o pão de queijo, se o café está amargo é só você colocar açúcar. E assim ele joga um balde de água fria na tua cara e te faz acordar, ele te desperta desse sonhar acordado. Desse floreio da realidade, dessa criação de problemas insignificantes.

Esses sonhos não realizados, esses problemas são a tentativa de ludibriarmos a realidade. São a vontade de criarmos nossa própria ficção, construir o arco do personagem que ao fim sobreviveu ao café amargo que, desce rasgando a garganta, ao preço do pão de queijo que, nem era tão bom, a mais um quase amor.

Nossa, você sobreviveu mais um dia!!!

Nós não precisamos acordar, também não somos obrigados a beber café e nem a comprar o pão de queijo, também não precisamos sofrer pelo que não temos. Nós não precisamos viver, na verdade, nós escolhemos viver e escolhas pressupõem perdas e ganhos.

É então que, em dia chuvoso e véspera de feriado, você começa a enxergar com dramaticidade o preço do pão de queijo, com ódio o colega que conseguiu folga, com nojo o colega que dá bom dia. E assim você começa a sonhar em estar dormindo, em estar em qualquer outro lugar que não no trabalho.

Você sonha com ganhos e no sonho só há ganhos, não é? Você sonha para fugir das perdas, das renúncias. Das suas próprias escolhas, você não quer consequências, você apenas quer vencer mais um dia.

Bom, hoje meu velho amigo me chamou as sete horas. E me permitiu sonhar mais dez minutos. Ele que constantemente me escraviza a fazer a primeira escolha e renuncia de todo dia. Acordar!

Assim, ele sequestra-me de um sonho. Ele está ali para dizer que, não importa a chuva lá fora e nem os sonhos, a vida segue adiante. O despertador me ensinou que se eu perder a hora eu posso perder o ônibus e então perco o café e assim segue-se um ciclo de perdas, sem fim. Eu, hoje ganhei dez minutos de sono, de sonhos! E nossa, eles foram mágicos!

Mas eu trocaria eles de bom grado, pela xícara de café que perdi. O meu velho, sincero amigo me ensinou que os sonhos nos esperam, mas a realidade não.

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