O que aprendi morando sozinha num studio de 20m2

Francini Vergari
Sep 9, 2018 · 4 min read

Acabei de completar 26 anos e, no mesmo dia, também 9 meses morando sozinha num studio de 20 metros quadrados. Caso você não tenha muita referência de quanto é isso, é muito pequeno. É quase um quarto de hotel Ibis, sabe? Deve ser o tamanho da sua sala aí. E o que torna isso uma mudança brusca é o fato de eu ter vivido numa casa de 500m2 com meus pais até então.

E você pode dizer que eu fui maluca de trocar piscina, salas e quartos por um canto sem paredes. Acontece que liberdade também é o que a gente pode pagar – e foi o que deu pra mim. Eu precisava estar mais perto do meu trabalho em São Paulo e Mairiporã, apesar de ser perto, acabava atrapalhando a minha rotina. Juntei um dinheiro e comecei a procurar algo que eu pudesse pagar e me manter.

E você sabe, o custo de tudo em São Paulo é muito alto. Juntando todas as despesas, no mínimo eu precisaria abrir mão de certos excessos pra dar conta de tudo, financeiramente. Cheguei a visitar outros apartamentos em bairros mais centrais e sei que podia estar pagando menos por mais espaço, mas levei em consideração a segurança da região, por exemplo, prédios com portaria, opções mobiliadas, estrutura do prédio etc.

E sabe, olhando agora eu tenho muita sorte de ter encontrado um lugar tão legal. O prédio é novo, a localização é ótima, estava mobiliado, o preço é justo. Tem até piscina e lavanderia! Só é pequeno. E no começo isso pegava bastante.

Eu vivia me batendo, demoravas horas pra achar um jeito de fazer faxina sem me espremer. Reclamava dia sim, dia não. Até que, passado um tempo, eu fui aprendendo a conviver com aquilo e tudo foi ficando mais simples.

A diferença entre pequeno e suficiente

Quem assistiu ao premiado filme “O Quarto de Jack” (2015) nem precisa de muita explicação pra pegar referência. O pequeno Jack que nasceu e foi criado num quartinho por 7 anos sem sair faz você acreditar que aquele espaço é muito maior do que realmente aparenta. Bem por aí. Você acostuma com cada centímetro e logo aquilo não é mais o seu maior problema. E eu também, como no filme, fui me apegando aos objetos da casa como se fossem parte personificadas daquilo. “Oi, torradeira!”, eu dizia quando chegava do trabalho. E toda essa extensão tomar outro significado: passei a entender que não havia mesmo necessidade de mais do que aquilo. E que talvez, se fosse maior, eu me sentiria muito mais sozinha.

Viver com o necessário

Deixar o meu lado consumista era uma coisa que eu nem imaginava que precisaria fazer. Eu levei de Mairiporã o essencial – era o que cabia. Roupas de uma estação por vez (tive que levar de volta as de verão pra caber as de inverno). E quer saber? Tudo bem.

Agora eu penso duas vezes antes de comprar qualquer coisa. “Vou ter onde guardar?”, “Eu realmente preciso disso?”, “O que eu vou tirar pra colocar isso no lugar?”.

A comida é outro ponto de atenção. Tudo é um grande desperdício. Estocar coisas não é uma opção; faço compra semanais, procuro sempre embalagens menores, medidas que sejam pra uma pessoa, que tenham prazo de validade maior.

Eu sou ótima companhia de mim mesma

Eu sempre gostei de fazer coisas sozinha, como viajar, ir ao cinema, comer fora, correr. Mas morar sozinha é outro nível. Você fica ali com a certeza de que não vai chegar ninguém, é só você. Eu aprendi a conhecer melhor meus hábitos, meus horários, meu silêncio. Aprendi a me ouvir, me agradar.

Mas também aprendi que, quando a solidão bate, ela vem sem dó. Também identifiquei os pontos onde eu falho sozinha, na disciplina, na cozinha, no planejamento.

Sinto muita falta de um bichinho pra fazer companhia, pra fazer uma festinha quando eu chego (sempre tivemos pets em casa). Mas acho um pecado pelo tamanho e pelo tempo que fico fora de casa.

Mas só conhecendo muito bem a mim mesma, sinto que conseguiria lidar com a convivência com mais alguém, por exemplo. Ficaria muito mais difícil passar por esse processo tendo que conhecer as peculiaridades da rotina de outra pessoa (e quem morou em república ou dividiu apartamento deve ter boas histórias de convivência caótica).

Dar valor pra pequenas coisas

De repente eu me vi comemorando a compra de um tapetinho de banheiro que combinava com a cor do box. Ou o ápice da alegria quando comprei uma mesinha de plástico pra colocar na varanda (sim, tem uma varanda!). Cada detalhe é mais importante por ser seu. Apesar de ainda ser de aluguel, tem um ar completamente diferente da casa dos seus pais, por exemplo.

Por não ter sido uma decoração pensada, projetada, as coisas foram acontecendo. Cada detalhe, cada vaso, pano de prato é um carinho.

Ressignificar liberdade

Saber de custo, do que você vai precisar abrir mão, das novas responsabilidades. Diferenciar de solidão quando um parecer não compensar o outro.

Não se deixar levar pelos momentos de estranheza e saturação – porque a convivência com você mesma também é um saco em certos momentos.

Saber administrar tempo e dinheiro sozinha é uma das maiores lições que aprendi nesse tempo.

Francini Vergari

Written by

Jornalista. Revezo entre chá verde e cerveja, batons estranhos e livros incríveis, corridas e cochiladas. E-mail: francini.vergari@gmail.com

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade