Mourinho, Hegel e Belchior
Se há um pingo de arrogância no título deste texto, José Mourinho nada a braçadas no próprio oceano. A despeito do futebol medíocre que o português entrega e, pior, dá-se por satisfeito, temos aqui um personagem formidável. Enquanto Pep Guardiola encanta serpentes dentro de campo e nas entrevistas, Mourinho parte para a briga armado com devaneios, soberba e…filosofia.

Para contextualizar: o United tem, nesse momento, o pior início de campeonato inglês em 26 anos. Tudo bem, são apenas três rodadas, mas a indisposição com Mourinho tem tantos cabelos brancos quanto o treinador. Não foram poucas as vezes que ouvi a torcida cantando e clamando ‘attack!’ nas charmosas arquibancadas do Old Trafford. José é o treinador com os melhores resultados desde Sir Alex Ferguson, mas abdicar do DNA ofensivo dos Red Devils é um suicídio lento, como quem tenta se matar com uma colher: um dia consegue.
Na segunda-feira, depois de ver o time perder por três a zero para o Tottenham, Mourinho discutiu com um jornalista e abandonou a coletiva pedindo respeito. Apelou para o glorioso “você sabe com quem tá falando?”, que aparece com frequência nos pitis da zona sul carioca. Se houve ali uma chama de paixão, hoje foi o arder desse amor entre técnico e imprensa: o português disse ser um dos grandes treinadores do mundo e, naturalmente, foi questionado se assim permaneceria em caso de mais um insucesso na Premier League. Vamos à linda, exuberante e pomposa resposta:

“Você já leu algum filósofo ou nunca se dedica à leitura de, por exemplo, Hegel? Bom, ele diz: a verdade está no todo. Você achará a verdade somente no todo.”
Leia, releia, aprecie cada palavra. O mundo fantástico de José Mourinho é único. Pena que a realidade não seja tão doce. Tomo a liberdade, aqui, de responder com outro grande pensador: “você não sente, não vê / mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo /que uma nova mudança em breve vai acontecer /o que há algum tempo era novo, jovem / hoje é antigo /e precisamos todos rejuvenescer”. Leia Hegel, mas ouça Belchior.
