Pará o Atacama brasileiro

Paisagens deslumbrantes de tirar o fôlego, várias atividades minerárias na paisagem, uma música diferente, bem ritmada, comida singular e uma urbanização bem precária.

Poderia estar contando sobre o Atacama, e suas belezas naturais, como as lagunas, os altiplanos, o relevo dissecado e trabalhado, visto de um restaurante construído com madeiras velhas e caindo aos pedaços, esperando o conejo que pedi ao garçom. Ao fundo dá para escutar aquele ritmo, balança ombro, do reggaeton, Des pa cito…

Mas não, não é sobre o Atacama esse texto. É sobre esse estado maravilhoso que a gente escuta mas finge não escutar no sudeste brasileiro. Aquele estado que causa arrepios na turma que trabalha com mineração, quando a empresa começa a ponderar uma transferência. Esse texto é sobre o Pará, um estado que é muito mais do que um deputado tatuado de Temer.

Comecei a minha jornada para o Pará a bordo do Aerovale, saindo da Pampulha em BH, ás 07:00 e chegando em Parauapebas, Peba para os íntimos, ás 09:30. Vim para fazer um estudo ambiental de ruído e vibração e ainda no avião aquele mar verde de floresta já impressiona pela imensidão deslumbrante.

O pouso é uma particularidade, a pista do aeroporto de Pebinha (outro nome dos íntimos) é perpendicular ao sentido da rota área, então o avião faz aquele contorno para alinhar, bordeando a floresta bem de perto. Segura o ar e aperta o cinto.

O calor tropical não é novidade, lembra aquele calorão do Rio de Janeiro, mas sem o abafado. O vento sopra fresco da floresta para a cidade, mas é quente viu! Assim que a gente chega no aeroporto, começa a escutar aquele sotaque cantado rápido. “É sem gás é?” disse o Paraense na lojinha do aeroporto.

É nítido no Peba o sintoma de crescimento acelerado, aquela ocupação do solo misturada e desordenada, com casas, prédios, lojas, hotéis, tudo junto e misturado. O cheiro também é característico, ás vezes bate aquela lufada típica de lugares com problemas de saneamento, mas logo ela é queimada pelo sol.

A floresta é uma presença constante, bordejando toda a cidade, e em pequenos núcleos até dentro da cidade. Mas impressiona mesmo quando você sai do centro urbano, parece que ela te aperta e sufoca a estrada com aquele paredão verde.

A operação da Vale é um atrativo a parte, mas vou deixar um pouco de lado, porque o que eu acho que o Pará é muito mais do que isso. Antes de começarmos a medição, tivemos uma pequena reunião, com um funcionário que veio do Nordeste, se tivesse que chutar diria que é da Paraíba, mas não tenho tanta experiência em sotaque assim para identificar.

Durante o trabalho interagimos com diversas pessoas, recepcionistas, porteiros, vigias e operadores. Sempre fomos bem recebidos, não só por funcionários relacionados ao trabalho, mas por todos na cidade. A energia aqui é diferente, se trabalha muito duro, mas tem uma descontração e uma alegria que está cada vez mais difícil de ver no sudeste.

“Mar moço aqui tem mais Maranhense que gente”

Assim disse o seu Chico, um vigia que nos acompanhou durante as medições noturnas. O seu Chico obviamente é maranhense e se mudou para o Pebinha já tem 30 anos, teve a oportunidade de ver a transformação da cidade, com a chegada dos grandes projetos minerários.

“Vixe mas aqui cresceu demais. Moço quando eu vim para cá tinha no máximo umas 5 mil pessoas, hoje tem mais de 100 mil.”

Seu Chico sempre tenta ir ao Maranhão visitar os parentes e a sua terra, mas diz gostar bastante do Pará. Aliás a imigração é um ponto importante da formação do estado e do povo paraense, assim como em Brasilia. O fluxo migratório aqui ainda acontece, menos em época de crise, mas a previsão é voltar com tudo com os novos projetos.

Na rua mesmo, é cheio de restaurante goiano, cantinho do mineiro, sorveteria carioca, lanchonete do baiano e tudo mais. Diferente de Brasilia quem ficou aqui, é porque gosta mesmo, porque não tem nem de longe aquela metideza concretal da capital. Mas tem tecnobrega.

A música paraense é maior do que o tecnobrega, mas eles não ligam da gente conhecer só Calypso, Gaby Amarantos e Fafá de Belém não. Aliás assim como no Atacama, esse ritmo agitado permeia a cidade, tocando baixinho nos bares, restaurantes e no comércio em geral.

Diferente de San Pedro, o turismo aqui ainda é pouco explorado, mas tem tanto potencial quanto no altiplano atacamenho. Trilhas, lagoas e chapadas é fichinha para o Peba e todo o Pará, aqui tem passeio de voadeira pelo rio, tem reserva indígena, tem praia de rio, trilha pela mata e mais um mundo de coisas. Aqui tem tudo para se tornar a capital do ecoturismo.

Só falta mesmo é a gente enxergar que o Pará vale mais do que a Vale.

Foi um prazer te conhecer, Pará e Pebinha e até breve!

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    Frederico Campos Viana

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