“A vida é arte do encontro 
Embora haja tanto desencontro pela vida”

Ontem, em meio ao temporal que lavou São Paulo, eu e K. ficamos conversando no escuro, iluminados por relâmpagos que dançavam ao som das trovoadas, esperando a luz voltar. Alheios à destruição que rolava pelo bairro, lembrávamos do tempo em que moramos em Berlim e falávamos da vontade de voltar para lá um dia.

Hoje, aproveitando que tinha terminado um frila, fui arrumar a mesa de trabalho e achei um papelzinho com anotações dos dois lados. Ia jogá-lo fora sem dó, mas resolvi ler meus garranchos antes. Um lado dizia:

“O branco onde pequenos garotos turcos deixam suas pegadas
e alemães de barba derrubam roxo de vinho
Observa em silêncio.
***

沉默

***
Quebrando a mudez sagrada
um homem velho grita em alemão
que não consigo entender:

“Estou sozinho! 
Estou sozinho! 
Estou sozinho!”

E o silêncio do universo concorda com ele.”

O outro lado:

“Ele construía um muro em meio à tempestade
Construía um muro para proteger o universo dos ataques alienígenas
Construía o muro, tijolo a tijolo,
noite e dia , trovões e raios, 
aniversário e Natal
Construía o muro até as costas pesarem, 
os cabelos falharem, as forças faltarem.

E, então, quando os alienígenas finalmente chegaram, séculos depois
discutiram se aquilo era um templo sagrado 
ou uma pilha de lixo
e rumaram para o próximo planeta.”

As anotações eram de quando eu morei em Berlim e estavam perdidas há dois ou três anos.

***
“A vida é arte do encontro 
Embora haja tanto desencontro pela vida”

***
Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia - autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”, dos jogos “Filosofighters” e “Science Kombat” e do projeto Glück: uma investigação sobre a felicidade.