Delírios românticos e autobiográficos -uma resenha do livro “Trópico de Câncer” de Henry Miller.

Essa resenha juvenil eu escrevi no meu penúltimo ano de faculdade. Acho que a paixão ainda se salva

Como cenário a Paris entre guerras. Como definição as palavras do próprio autor: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”. Como prefácio uma declaração de Ralph Waldo Emerson simplificando: “Estes romances cederão lugar, pouco a pouco, a diários ou autobiografias.” E assim a vida se transforma em arte nas letras do avô dos beats e rebeldes, Henry Miller.

Nascido no Brooklyn, EUA, em 1891, Henry Valentine Miller representa um ponto de virada na literatura mundial, uma influência para autores como Anaïs Nin, a geração hippie, Buk e todos os obcecados por liberdade sexual, viagens e boemia. Henry, e Céline antes dele, influenciou esses séquito na forma autobiográfica de escrever, mas suas histórias não devem ser levadas ao pé da letra. São uma mistura de ficção e realidade - um tipo de Bukowski mais elaborado, filosófico e surrealista.

Suspiros de surrealismo, filosofia nietzschiana, influências de Céline e D.H. Lawrence (que ele rejeitava até ler “D.H. Lawrence: An Unprofessional Study”, de sua amante Anaïs Nin), tudo isso borbulha nas páginas de “Trópico de Câncer”, mas há algo a mais ali. Não é pornográfico como seus censores acusaram ao conseguirem manter sua obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa até que o poeta beat Lawrence Ferlinghetti a publicasse; é humano, demasiadamente humano. Um homem em busca de si, escrevendo sua canção de libertação.

Estamos nos subúrbios e cabarés da Paris dos anos 30, a guerra é uma sombra que ronda incessantemente. Intelectuais, artistas, pintores, todos se reúnem para beber, transar e discutir. Henry está entre eles, mas não tem um tostão no bolso e vive de bicos (na prisão dos escritores: o jornalismo) e da ajuda dos amigos. O anti-herói resmunga : “Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos narizes?”. Os capítulos vão revezando-se um após o outro sem ordem cronológica exata, carregados de fluxo de consciência e alternando reflexões fantasiosas com relatos crus do cotidiano. O clima é retratado fielmente no filme “Henry & June” de Philip Kaufman (diretor de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, autora dos diários inspiradores da película (“Henry, June & Eu”). A busca é por grana e sexo, grana e sexo até não representarem mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência como única alternativa, única alternativa; a vida.

Nos momentos “filosóficos”, Miller remete a Nietzsche - filósofo que leu, saudou e parafraseou em alguns trechos de sua obra. Toma como profissão de fé a filosofia que busca desmascarar o mundo dos ídolos (o Deus que não sabe dançar), que busca trazer ao homem os prazeres terrenos. Nietzsche previu mais de um século atrás o declínio da civilização ocidental, diz o autor. O Henry Miller de “Trópico de Câncer”/”Henry & June” (no qual há uma cena em que ele discute o filósofo alemão) tem a mesma missão: libertar o ser humano de suas amarras e despertá-lo para a vida nessa existência - que é única. Como ele diz: “São homens e mulheres, pergunto a mim mesmo, ou são sombras, sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis? Eles se movem aparentemente em liberdade, mas não tem para onde ir. Só em um reino são livres e lá talvez possam vaguear à vontade, mas ainda não aprenderam a levantar vôo”. Essa libertação inclui também a religião, a qual Miller despreza. Em um dos trechos ele e um amigo, ambos bêbados, vão assistir a uma missa, que ele descreve como se fosse um alienígena que nunca tivesse visto uma cerimônia religiosa. A descrição segue claustrofóbica, sufocando-o, pouco a pouco, até que ele fuja correndo da igreja.

Miller em sua busca acaba se desprendendo da necessidade de ser humano, declarando-se um “inumano”, descendente de uma árvore genealógica de artistas e pensadores que como ele buscavam viver desesperadamente no limite. Estariam esses inumanos atrás da paixão total, do fogo da criação - já que, a partir disso, tudo é humano e dispensável. (“Enquanto estiver faltando aquela centelha de paixão, não há significação humana no ato”.) Como Oswald de Andrade na peça “A morta”, Miller clama para que se incendeiem as bibliotecas, museus e biografias. Que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem.

Fred Di Giacomo, 22/05/04