Gênesis

“E Ele disse: Pega agora o teu filho, o teu único, a quem amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. E lá o oferece em holocausto em uma das montanhas que eu indicarei.” (Gênesis, Capítulo 22, versículo 2)


Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se naquele ponto cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção é a do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada; suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar a nossa saga.

No tempo que observamos agora, o senhor (vamos chamá-lo alegoricamente de Abraão1) tinha cinco filhos. Dois haviam saído de casa e habitavam o velho continente. Um terceiro, casado, era pastor na região das montanhas. Os mais novos acabavam de ser convocados, numa estrondosa explosão paterna, a adentrar, um de cada vez, a sala principal da ampla cabana. Naquele vagaroso dia de verão, a natureza ignorava a agitação humana. Cada folha despencando das árvores esperava uma eternidade para alcançar o solo. Os gritos desesperados do filho de dentro aterrorizavam o filho de fora. Com voz firme, Abraão chamou o segundo: — Vinde, semente minha, não hesites em obedecer-me.

Zeneu engoliu em seco e entrou. O cômodo escuro estava iluminado por aromáticas velas desgastadas que disfarçavam o cheiro de sangue fresco. Pitágoras, encolhido num canto empoeirado, chorava baixinho. Zeneu não percebera, mas, assim como sucederia com ele minutos depois, o pé de Pitágoras tinha sido esmigalhado.

***

O canto ingênuo dos pássaros não combina com o choro pesado dessa mulher que vocês enxergam no interior da cabana. Ela acaba de descobrir a tragédia que tatuou suas crias. O nome com que os pais da matriarca batizaram-na foi Ariadne. Seus filhos estão aleijados e tentam adaptar-se à dolorosa condição. Abraão parece ter rejuvenescido anos. Sai sempre na frente da prole: para arar o campo, para ordenhar as vacas, para pastorear ovelhas e para caçar o tempo perdido. Zeneu e Pitágoras esforçam-se para acompanhá-lo. É-lhes indecifrável o súbito acesso de violência paterna. Por que Abraão emergira em crueldade naquele dia banal? Ainda nos é desconhecida a resposta. Por mais que o pai gritasse, ralhasse e humilhasse as crias, nunca mais encostaria as mãos em Zeneu ou Pitágoras. Suas próximas vítimas habitam dias futuros. Rejuvenescido, o patriarca procura Ariadne todas as noites para espalhar suas sementes. O desejo transborda do corpo e faz com que ele namore bananeiras, cabras e esposas maduras. Nunca mulheres virgens, nem jovens, nem solteiras. Não quer filhos de outros ventres, e do ventre de sua mulher só saem rebentos marcados. Ao acordarem para a vida, os pequenos têm o pé esquerdo estraçalhado. São já sete aleijados em idades diversas e, por mais branca que sua comprida barba fique, Abraão sente-se forte como nunca. Carrega toras de madeira nos ombros, cavalga alazões selvagens, enfrenta serpentes sorrateiras e faz-se temido por todos os pequenos deformados. Nunca foi violento com nenhum depois de tê-los “batizado”. Esse batismo ocorre assim: cada criança parida por Ariadne é arrancada, ainda aos berros, pelo pai, que esmaga o pequeno e rosado pé com um martelo dourado. Herança paterna assegurada, o cordão umbilical continua inteiriço, até que a mãe tenha forças para rompê-lo. O nome do descendente é dado antes da aplicação do castigo preventivo.

***

Dias correm sem que se faça importante descrevê-los. Por todo o inverno nenhum viajante se aproximou da casa. Depois de vasta solidão, a primeira conhecida a visitar a família foi a Tragédia. Era tempo de plantar sementes e germinava no ventre materno o pequenino Plutão. Plutão nascera anêmico, torto dos ossos e com membros atrofiados. Seu choro era um fiapo, um discreto miado que pouco se ouvia. Prevendo o pior, Ariadne, que tivera as forças sequestradas pelo parto, balbuciou misericórdia: — Por favor, meu marido, por favor, meu senhor… Este, não. O pequeno não vai aguentar. Seu corpo é tão carente… Um golpe do martelo vai levá-lo para sempre… Pelo nosso amor, eu lhe imploro…

Abraão contempla a triste figura profundamente. O pequenino não parece grande ameaça, mas quem conhece os caminhos que o futuro reserva para Plutão? E, se hesitasse, o que pensariam de sua fraqueza as demais crianças? Perceberiam-no débil? Reconheceriam-no senil? Não podia confiar no acaso. Firme, mas com coração pesaroso, esmigalha a perninha de Plutão. O enterro da criança se dá no mesmo dia.

A mágoa de Ariadne faz com que ela se negue a deitar-se novamente com o marido. Nem a privação de comida, nem as surras e castigos convencem a esposa a voltar para o leito do patriarca. Em um lampejo de violência, Abraão recorre à autoridade de seus músculos, mas desiste quando encontra, nos olhos da amada, o ódio amaldiçoador das mulheres seviciadas. O que Ariadne espera dele? Não pode mais abrir mão de seu ritual. Sem ele, perderia o segredo da sua juventude, e os pequenos diabinhos reinariam sobre o casal original, saltitando léguas a sua frente, tomando conta da casa e conhecendo terras e pessoas com as quais os dois jamais poderiam sonhar. Não, nada feito; o mundo não deve insistir em rodar.

— Eu preciso da vida dos meus filhos, Abraão. Quero que eles tenham sua existência garantida, mesmo que aleijada. Não quero enterrar, nunca mais, um pedaço meu.

Nos primeiros suspiros da madrugadora aurora, Abraão sai em direção à pradaria, sozinho e pensativo. Lá, medita à base de ervas e água do orvalho. No sétimo dia, pode retornar a casa iluminado. Os filhos terão sete anos para ficar fortes e nutridos — e então se tornarão homens completos. Tirando o excesso de alegria dos olhos daqueles demônios, Abraão espera prepará-los para o fardo da vida real. E evita que andem por caminhos que suas pegadas não tenham marcado ainda.

***

O pai já cruzava a faixa dos 70 anos quando desposou Helena, jovem viúva de seu filho Menelau. Menelau era estéril e morrera sem deixar descendentes. Fazia parte da tradição tribal que o irmão mais velho desposasse a viúva e garantisse sucessores para o morto. Mas reparem em Helena; sintam o cheiro de mel vindo do seu corpo, percebam a pele sedosa feita de pêssego, os seios firmes como seu caráter e o verde do oceano represado em seus olhos. Helena brilhava, sim; brilhava e irradiava juventude. Isso era o suficiente para que Abraão a tomasse como mulher, alterando o código dos antigos. Agora o mais velho da família deveria desposar as viúvas, contanto que suas sementes ainda fossem férteis. Corria, pelas redondezas do vilarejo, o boato de que Abraão já não podia efetivar sua descendência. Ariadne não lhe dava filhos havia três anos. Fiel, a mulher havia gerado, em seus 60 anos de vida, 27 rebentos para Abraão — 22 aleijados, dois mortos e três, os mais velhos, exilados pelo medo do castigo paterno. As mágoas e os anos vividos faziam-na sentir o ventre endurecendo. Os sangramentos já não vinham visitá-la e o viço abandonara sua pele ao apetite faminto das rugas.

No céu escuro, a lua esconde-se, solidária ao sofrimento daquelas mulheres. Dentro da cabana, Abraão conduz Helena pelo braço. A jovem castanha tem os cachos enfeitados com uma coroa de flores brancas. Um vestido de linho fino toma emprestada a beleza de seu corpo, que treme de medo. Abraão ordenou a Ariadne que fosse dormir no quarto ao lado, com os filhos mais novos; poderia retomar seu lugar na segunda-feira. Agora os finais de semana ficam guardados para Helena. Acabado o domingo, a anciã deve trocar os lençóis manchados de amor e voltar ao posto de matriarca. Com os olhos umidamente salgados, a companheira de Abraão assente calada. Não pode olhar no rosto da antiga nora quando a vê passar em direção ao quarto. Sente um misto de humilhação, inveja e pena. Cerra a porta do quarto e não consegue dormir a noite toda, atormentada pelos gemidos regozijantes do velho tigre que reencontrara, no final da vida, o prazer pela caça.

São necessários três meses desse novo ritual para que Helena se encontre prenhe. De seu ventre, fecundado pela seiva do grande pai, floresce o descendente do morto Menelau. Chamam-no Corisco e sua chegada é anunciada por um estridente cantar de pássaros, aparentemente animados com o radiante céu que se firma ironicamente sobre a tragédia.

*** Corisco não foi criado como o restante da prole de Abraão. Seus privilégios brotam do ódio que Helena carrega por submeter seu filho às regras estabelecidas pelo ex-sogro. Casara-se com Menelau livre de tais obrigações. Agora angustia-se, procurando saídas para mudar o destino da criança. De seu charme e cheiro suave fez uso para convencer o amante de que Corisco seria um ano e meio mais novo. Assim pôde adiar a data do castigo. Tantos partos seguidos naquela casa e a idade avançada do ancião ajudaram na sustentação da farsa.

O caçula da tribo tem olhos azuis quase transparentes, cabelos loiros crespos e pele avermelhada. Más línguas dizem que o menino lembra um pequeno macaco albino. É, porém, extremamente astuto e aprende com rapidez. Cantando, ajudando nas tarefas domésticas e pedindo conselhos procura agradar o velho pai. Seus irmãos invejam-no, mas optam por não entregar a verdadeira idade de Corisco. Além da lealdade fraternal, sonham que ele liberte os demais da tirania instalada. Talvez repouse em suas pequenas mãos a salvação de toda aquela gente.

Num anoitecer qualquer, enquanto brinca no quarto, Corisco escuta Abraão sussurrando com Ariadne.

— Feições de homem têm se fixado nas formas juvenis de Corisco. Não adianta a bela Helena insistir na ladainha de que o garoto vive os seis anos de idade. É tempo de apresentá-lo a meu martelo.

— Abraão, meu marido, tens deixado a jovem ninfa assumir o controle de tuas ideias. De que adianta tu seres a cabeça, se ela é o pescoço que decide para onde vais olhar? Nenhum de nossos filhos teve os mimos dos quais esse mico branco goza.

— Tuas palavras foram embebidas no ciúme, mulher. Não sejas tão áspera com Helena! Tu invejas sua beleza e os finais de semana que ela passa em nosso leito.

— Compreendo que eu não possa mais ser o jardim onde florescem tuas sementes, mas não queria que tu te lambuzasses com ela em nossos lençóis…

— Pares de resmungar, velha esposa. Poupa-me de tuas lamúrias e vá apanhar meu martelo!

Desesperado, o pequeno Corisco procura uma escapatória que modifique seu destino. Seus olhos ziguezagueiam, ligeiros, por todos os cantos da casa até estancarem na janela. É através dessa abertura rústica que ele avista o grande penhasco. Sua face ilumina-se.

Sorridente, o menino convoca o patriarca para correr com ele até o desfiladeiro. Carinhosamente trepa em suas costas largas e cobre a velha calva de beijos. Helena olha para os dois e sorri esperança, desejando que o carcomido coração de Abraão amoleça. Abraão inveja a velocidade com que Corisco pisa a relva verde. O pequeno risco vermelho dispara diante da íris cansada daquele homem velho que aleija os próprios filhos. Verde, vermelho. Verde, vermelho. Verde, vermelho. O corisco infantil rola na grama camuflando-se na pradaria. De repente, desaparece. Abraão estanca e coça a barba. Um gemido alto vindo lá de baixo faz com que corra até o limite do penhasco. Um frágil risco vermelho agoniza no solo.

— Pai, tu que me deste a vida, acode-me, por favor. Não posso mais sentir as pernas.

***

Os dias passam na cama para Corisco. De lá, ele vigia a janela, as ovelhas e o pai. Os irmãos solidários visitam-lhe o leito, mas alegram-se por dentro: “Corisco achava que escaparia do castigo; agora, no lugar de uma perna, perdeu as duas”. Helena culpa-se silenciosamente e morre em segredo. O destino havia perseguido sua pobre criança e a punido em dobro. Abraão sente-se aliviado. Prefere quando a natureza age como sua aliada.

Secretamente, Corisco planeja fuga. Havia simulado o acidente para ganhar tempo. Em raras madrugadas, testa os pés em corridas pelas pradarias escurecidas, mas prefere não arriscar-se. Teme que as estrelas o denunciem. Aproveita-se da situação de vítima: anda de cavalinho nas costas dos irmãos pernetas, rouba nacos de carne do prato do pai e inferniza a velha Ariadne com manhas e choradeiras. Só teme pela saúde da mãe. Sabe que ela suicida-se diariamente, angustiada pelo sofrimento do filho, e isso o impede de manter aquela farsa ad infinitum.

Numa noite sem lua, fugiu para parte alguma.

***

O que irritava Corisco é que seu corpo insistia em não crescer. Já rodava pelo nada havia um extenso tempo. Tinha trabalhado como pastor nas redondezas, atuado como anão albino num circo e procurado seus irmãos mais velhos no continente. Calculava que haviam corrido cinco aniversários seus. Devia ter, então, dezesseis anos. Nenhum pelo cobria suas partes ou sua face. Nenhum centímetro seu corpo esticara ao longo de toda a viagem. Temia que a dieta pobre e as privações o tivessem retardado, mas não fazia sentido. Lembrava que os irmãos aleijados também não haviam progredido muito. Os esmagados logo ao nascer pareciam, todos, velhos anões — pequenos e impotentes. Os castigados depois dos sete anos eram gordos e flácidos, com traços femininos e pouca fibra a modelar os músculos. Menelau fazia parte dessa leva e não conseguira implantar um filho sequer na jovem Helena. Apreensivo, Corisco pensou muito à beira de um rio, sozinho, em terras estrangeiras. Haveria de rodar incompleto por todo canto, caso não convencesse o centenário Abraão a libertar seus filhos. Sem muita convicção, seguiu mais de um ano em travessia que o levaria de volta para casa.

***

Era costume da gente de Abraão refletir olhando para o rio, mas o patriarca não fazia mais isso com medo de reconhecer sua velhice refletida nas águas. De volta à tribo, Corisco passou bom tempo observando a família a distância, até que tivesse uma oportunidade de convencer o pai de que os filhos precisavam andar completos.

Estamos agora numa tarde tristemente temperada. Pressinto que o final da saga que narro se aproxima. Abraão, observado por Corisco, lamenta-se de costas para o rio. Choraminga a morte de Helena, falecida há um ano de saudades do filho. As lamúrias de Abraão machucam as forças de Corisco. Achava que poderia viver próximo à mãe, mas descobre-se órfão. Entra nas águas e nada até o pai. O barulho do mergulho seco chama a atenção do velho carrasco que, distraidamente, olha para o rio. Alegra-se ao reconhecer seu rosto tão jovem no reflexo. “A boa Helena deve estar orando por mim no paraíso: veja como minha face mantém-se rija com o passar do tempo”. A imagem de Corisco sob as águas alimenta a vaidade patriarcal. Subitamente, o filho puxa a cabeça de Abraão em direção ao rio. Surpreendido, o homem deixa-se arrastar. Corisco queria apenas vingar a mãe e os irmãos, afogando o algoz ancestral, mas se choca ao perceber que, naquele momento, pela primeira vez em sua história, abraça o velho pai. Os dois corpos de homem se entrelaçam e, num paternal movimento, misturam as gerações.

Nunca poderemos saber se pai aninhava filho ou se filho aninhava pai. Choravam tanto que suas lágrimas abundantes poderiam fazer o rio transbordar-se em mar.

***

O dia se acabava num céu amplo e alaranjado que aos poucos se apagava — escuro. Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.

29/11/2011–0/12/2011

1 Abraão, do hebraico Abhraham, que tem semelhança sonora com ‘Ab Hamôn, “Pai de Multidão”.

Fred Di Giacomo é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“.

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