Lugar de adolescente não é na praça

“Lugar de adolescente não é na praça”
É na vala
“Lugar de adolescente não é na praça” 
É no túmulo
“Lugar de adolescente não é na praça”
É na tranca
Lugar de adolescente não é na praça”
É no tronco

“Lugar de adolescente não é na praça”
Disse o policial que abordou
Uma jovem de 14 anos
Em frente à sua irmã de 4
Procurando por drogas que não encontrou

Lugar de adolescente -
Ainda mais se for pobre,
ainda mais se for preto,
se for mulher, então, é pra sua própria segurança-

Lugar de adolescente não é na rua, como eu ia dizendo
Não é na praça
No parque
Nas fontes
Lugar de adolescente não é sujando o
mundo tão lindo e limpo
que a gente comprou novinho, em 12 prestações
de Deus,
ainda na planta,
Registrou no cartório
Homologou com carimbos
Grilou de uns índios
Garantiu que de nossa prole será herança eterna e exclusiva
Gradeou,
podou bastante nas florestes
Encheu com umas fábricas que fazem uma fumacinha linda
E pediu, atenciosamente,
pros guardinhas tomarem conta e não deixarem
Esses moleques torpes
Emporcalharem com o pé sujo.

Poema inspirado no relato real da minha amiga Carolina Monteiro

— 
Este poema faz parte do livro “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI” que a Editora Patuá lança dia 31/08/2016. Reserve o seu aqui.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia; autor dos livros “Canções para ninar adultos” (do qual esse conto faz parte), e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneir0 na criação de newsgames (jogos jornalísticos ), fundador do Glück Project e toca na Banda de Bolso.

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