Minha cidade era pequena como minhas ambições


Minha cidade era pequena como minhas ambições. Havia um posto de gasolina, uma igreja luterana, dois prédios de 6 andares, três farmácias concorrentes. Houve uma vez um circo itinerante. No circo eles não tinham elefantes, equilibristas, nem mágicos. Eles tinham pequenas aberrações e uma câmara de pesadelos.

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Nunca levei meus sonhos muito a sério. Sonhos para mim consistiam numa sessão noturna de cinema grátis proporcionada por meu cérebro. Minha cidade já não tinha cinema algum. Repetindo a sina de tantas outras salas, a que aqui existia virou igreja evangélica. Aliás, foi no extinto “Cine São Joaquim” que um dia assisti “Batman: Returns”, do Tim Burton, antagonizado por um Pinguim realmente assustador, vivido por Danny DeVito. Aquela matinê foi minha primeira vez no cinema. Durante 5 anos sonhei com a cena final do filme, na qual o vilão morto é carregado em direção às águas geladas de um rio por uma legião de enlutados pinguins.

Daí em diante nunca mais sonhei.

Unica foto conhecida do “Circo Arkham”

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Não sonhar me deixou tremendamente excitado com a ideia da “Câmara de Pesadelos Obscuros” do “Circo Arkham”. Arkham era um nome muito difícil de pronunciar e os caipiras da minha cidade preferiam chamá-lo de “Circo d’ Arca”, em referência à “Câmara”. Além da Arca, as atrações deste distinto freak show incluíam um anão, uma sensual mulher-barbada, um lutador de kung fu, um sonâmbulo que adivinhava o futuro e um macaco de olhos injetados — que utilizava uma pequena asa delta para dar rasantes muito próximos às cabeças do público. Cético, papai garantia ser tudo armação:

_Efeitos especiais, garoto. O mundo não passa de ilusões cuspidas por computadores.

O macaco alado era o que mais impressionava. Esqueçamos seus olhos injetados e concentremo-nos em suas cordas vocais: o pequeno símio gritava histericamente enquanto planava sobre nossas massas encefálicas. Seu grito era humano. Por causa dessa humanidade latente naquele serzinho — que se vestia como um antigo ascensorista de hotel: chapeuzinho vermelho caído de lado na cabeça e fardão combinando — julgávamos que ele pudesse ser filho do Anão. Sim, o pequeno Anão, líder daquela trupe, o pequeno Anão que berrava na entrada do circo, convocando-nos para testarmos nossa coragem na “Câmara de Pesadelos Obscuros”. Ao contrário das outras celebridades circenses, o Anão não tinha barba, não tinha asa delta, não tinha força e não tinha nem um metro de altura. Ele e o macaco eram minhas atrações favoritas no circo. Compactas e intensas.

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Conseguiram manter nossa ansiedade encaixotada até que o primeiro adolescente experimentasse a “Arca”. Então, nos tornamos viciados em medo.

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O pior pesadelo de Pedro Plínio envolvia uma grande leitoa grávida. Sem anestesia, homens parecidos com médicos abriam a porca com um bisturi. A mamãe suína guinchava de dor. Um homem muito grande entrava no recinto segurando Pedro Plínio pelo pescoço e obrigava o rapaz a se enfiar na barriga da porca que estrebuchava. Espremido entre os porquinhos natimortos, ele se encolhia em posição fetal, enquanto a barriga materna era costurada. Afogado em vísceras, ele acordava com apnéia.

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Sem saber explicar exatamente por que, Pedro Plínio assistiu seu pior pesadelo repetir-se 12 vezes em um único dia. Quando o “Circo d’ Arca” deixou a cidade, Pedro Plínio seguiu-o com os olhos esbugalhados, a barba rala, um canto de cuspe na boca e nenhum dinheiro no bolso. O parco orçamento como açougueiro queimou-se em sessões diárias de horror.

Assim como Pedro, os jovens da cidade tinham sede de novidades e emoções fortes. Todos vangloriavam-se por terem andado nas maiores montanhas-russas da região, por tirarem rachas de carro nas estradas e por devorarem as virgens dos sítios no pêlo — sem medo de pais brabos ou doenças sexualmente transmissíveis. Não podiam resistir à tentação de experimentarem a câmara de pesadelos.

As sessões eram individuais, duravam 15 minutos e deviam ser pagas com antecedência. Seus piores pesadelos ou seu dinheiro de volta. Pesadelos são uma alta descarga de adrenalina, uma sensação que nenhuma outra droga lhe dá.

Nosso grande sonho era ter as 20 pratas necessárias para uma pequena sessão de terror naquela caixa escura e apertada. Com o tempo, os preços foram inflacionando: 35, 40, 50… Até chegarem ao absurdo de 100 pratas POR SESSÃO. Três meses depois do início daquela febre, o “Circo d’Arca” deixou nossa pequena vila empobrecida. Levavam em seus trailers nossos salários, nossos modernos televisores, nossos porcos, nossas galinhas e algumas de nossas mais belas crianças. Não que todos os pais tenham seguido o exemplo de Endrigo Borges, que trocou a delicada filha de 15 anos por 3 sessões extra de seu pesadelo favorito. Aparentemente, Endrigo sonhava estar em uma bela ilha grega, de frente para o azul tranquilo do mar Egeu, no interior de uma casinha branca encravada nas montanhas vulcânicas. Cercado por primaveras de folhas verdes e flores róseas, Endrigo Borges era seviciado por uma mulher gigante e farta que empalava-o com um salto agulha finíssimo. A dor, no entanto, era provocada por uma pequena formiga que lhe devorava o globo ocular.

Imaginar a pequena Margarida Borges nas mãos daquele Anão monstruoso me enche de tristeza. No entanto, a maioria das crianças deixou nossa tribo e seguiu o Circo por livre e espontânea vontade, marchando atrás de seus piores pesadelos.

Em casa, comentários sobre a Arca eram proibidos por papai. Não se falava no assunto, mas ele preenchia o vazio de nossas conversas. O número de crimes, de internações, de histórias pervertidas que rondavam a cidade parecia aumentar, mesmo que ninguém tivesse dados ou estatísticas oficiais. Alguns defendiam a Arca como terapia holística e medicina alternativa, diziam que uma pessoa que desfrutava de suas sessões não tinha motivos para cometer qualquer perversão na vida real. As experiências vividas naquele pequeno espaço serviriam como a “realidade em si”.

Estive lá algumas vezes, confesso. Reencontrei-me com o funeral de pinguins levando um homem morto para águas geladas. No entanto, o homem não era mais um vilão dos quadrinhos. O homem que os pinguins carregavam era meu pai. Por semanas paguei para ver meu velho ser enterrado. E eu sorria, enquanto as lágrimas escorriam de meus olhos. A dor era tão funda, a carne lacerada era tão cara a mim, que aquele raio de dissabor atravessava a realidade e era cuspido do outro lado como um prazer inalcançável. E esse prazer… Esse prazer era o inconfessável.

No entanto, houve um dia que a Arca me presenteou com um pesadelo impronunciável. Recheado de pecados, ele me proporcionou horror e prazer que jamais experimentei novamente. Vocês podem imaginar que tipo de imagens foram mostradas ali para que eu não tivesse coragem de deixá-las registradas para as gerações seguintes. São imagens que também habitam suas mentes, eu sei. Depois desse dia desisti da Arca. E paguei com as mais severas crises de abstinência as quais um homem pode sobreviver.

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Cheiro de açúcar no ar. Chovera. Papai caminha em direção ao circo. Acha que em casa todos dormem.

Meus olhos evitam cerrar-se. Eu espreito o velho na noite. Com que direito? Quem sou eu para julgar o homem que enterrei em meus sonhos tantas vezes seguidas? A cada passo dado, cada passo cansado, as solas grandes de meu pai afundam quentes na lama fria. Seus ombros curvados levam — pesada — a culpa do mundo.

Quando papai passou a subtrair jantares de sua rotina, quando a barba tomou sua face como mato selvagem que cresce em terrenos baldios, quando gritos de terror passaram a serem ouvidos em nossa casa em plena madrugada; então eu soube que toda decência da cidade havia ser perdido.

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Envergonhado, com a cabeça baixa, o ex-homem bom dá suas notas amassadas para o Anão asqueroso. Aguardo alguns segundos. Um sorriso torpe do pequenino capataz assente que eu entre junto por uma quantia generosa. Preciso descobrir qual pesadelo pesa para o meu pai. Dentro da câmara escura, entre o cheiro de mofo e o gelo seco, meu velho se encolhe — retraído. Ali, no nada, suas retinas filmam seu devaneio favorito:

Por mais uma noite seguida, ele é vítima dos olhos decepcionados do seu filho, que o flagra na fraqueza do vício. Tão humano que dá nojo.

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