Primeiro exterminamos os povos originários; depois sua memória.

Reflexões sobre a perda do arquivo Curt Nimuendajú no incêndio do Museu Nacional

O trabalho do etnógrafo alemão naturalizado brasileiro Curt Nimuendajú com os povos originários brasileiros é considerado um dos mais importantes na antropologia e lingüística brasileiras. Seus manuscritos estavam guardados no Museu Nacional, que pegou fogo no último domingo (2), e, segundo a professora Gumercinda Gonda, se perderam assim como todo o acervo de línguas indígenas do Museu.

Curt e Telêmaco Borba são dos poucos indigenistas que deixaram relatos sobre os oti-xavantes, povo originário do oeste paulista (região onde nasci) exterminado no início do século XX. Segundo Telêmaco, o r puxado do interior paulista (/r/ retroflexo) era encontrado na fala dos Oti, assim como na de alguns povos jê, como seus “rivais” — os kaingangs. Vítimas de um genocídio rápido, brutal e eficiente, os oti teriam deixado como herança aos seus carrascos o /r/ caipira.

Curt registrou alguns relatos sobre o último homem Oti e a trágica história dos seus derradeiros parentes. Acima, é possível assistir um impactante vídeo com Maria Rosa, a última mulher da etnia Oti, “conversando” com o gravador usado na sua entrevista, contando que seus pais haviam morrido e que ela estava sozinha, emocionada por ouvir sua língua morta depois de anos. Incluí a história dos últimos Oti no meu recém-lançado romance “Desamparo”. É ficção, mas é baseado em registros históricos. Registros históricos como esses que foram queimados, queimando junto a memória de povos inteiros que não existem mais. É irônico que, quando se joga o nome de Curt Nimuendajú no Google, encontra-se uma frase atribuída a ele que diria “… por enquanto não me preocupo com a divulgação do material científico. Eu queria antes de tudo pôr a salvo o material humano.”.

Hoje nenhum dos dois existe mais. Dor que não para.

***
Do livro “Desamparo” (Editora Reformatório, 2018)

“Essa história aconteceu faz quinze anos, mais ou menos; uns sete anos depois que botamos os brancos pra correr daqui. O governo do estado ficou sabendo que só tinham sobrado cinquenta oti-xavantes no universo. Então, chamaram os oti até São Paulo. Eles acharam que iam ganhar terras. Uns diziam que iam ter as terras deles no oeste garantidas, outros que iriam morar em palacetes da Avenida Paulista e, os mais sonhadores, que seriam mandados para a Europa como embaixadores da república. O chefe dos oti só queria umas carabinas pro povo se defender. Sua mulher queria o direito de não se deitar com branco a força. Governador chamou a imprensa, serviu chá e lhes deu alguns presentes: penduricalhos, umas medalhas e um cargo de Capitão, como o que eu tenho, pro chefe. Dois tapinhas nas costas, uma diária na pousada do Barão e, depois, rua; mandou-os voltar pro sertão. O regresso foi um rio de lágrimas. Sabendo que os oti-xavantes tinham voltado apenas com latão e palavras vazias, Sancho Figueiredo e outros coronéis se aproveitaram da triste marcha. Os xavantes pareciam que eram perseguidos por uma nuvem cinza e, a cada passo que davam, a nuvem lhes presenteava um banho de azar. Perdiam peso, roupas e dentes ao caminhar. Diversos xavantes foram vendidos, enquanto as mulheres foram forçadas à prostituição. Dizia-se que deitar com nativas que ainda não haviam menstruado era um remédio para sífilis e gonorréia. Dez anos depois restavam, de todos os oti-xavantes, apenas um homem, quatro mulheres e quatro crianças. Esse homem, José Xavante, foi capturado numa dada e casado com uma kaingang. Depois de capturado foi vendido. Depois de vendido foi trocado por uma vaca. Cada vez menos homem, cada vez mais besta. Já conheço seu destino: morrerá sem nunca ter seu trabalho pago. Peço todo dia para não ver chegar aqui o progresso que troca homens por vacas e nos faz trabalhar como burros. Pude viver livre e desfrutar o estilo de vida dos meus antepassados. Trabalho para manter meu corpo alegre, não há dinheiro que compre as horas dos meus dias. Tempo não se vende. Sinto pelos jovens. Não vou viver muito. Mas me sinto feliz por não assistir meu povo desaparecer.”

Foto de um índio Oti Xavante fotografado durante a Exploração do Rio do Peixe pela Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, em 1913.

A fala emocionante de Maria Rosa faz parte do documentário “Terra dos Índios” (1979) de Zelito Viana, que está disponível no Youtube.

Leia também:

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. Autor dos livros “Desamparo” e “Canções para ninar adultos”, entre outros. Coordenou e editou a primeira edição do “Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP” (finalista do Prêmio Jabuti). Co-criador do game “Science Kombat” e do Glück Project.