O Abandono

Primeiramente, #ForaTemer, entretanto, posteriormente, as ruas já se deram como exato, certo e provável, o golpe aconteceu e Dilma não voltará. Essa semana o processo de impedimento da sua presidência do país desenrola em velocidade acelerativa. A casa das velhas ratazanas já tem os votos decididos que dará fim a saga política do Partido dos Trabalhadores. As conversas de boteco e entre trabalhadores já se tornaram conformadas com os dribles palacianos e a militância de base aquietou-se com as gargantas roucas pelo Fora, mas cansadas com os diversos erros dos quadros públicos do próprio partido.

O sentimento é de abandono. Deixada para os tubarões a presidenta afastada batalhou as batalhas de Dom Quixote contra seus inimigos imaginários, já que a própria cúpula petista se apresentou como um dos piores algozes desse momento. É triste como o golpe institucional foi instaurado na América Latina. Primeiro foi Honduras, depois Paraguai e agora Brasil, vivenciando uma nova forma, burocrática e transfigurada de constitucionalidade, de puxar o tapete. O que nos inquieta não é somente isso, contudo a solidão de uma presidenta que perdeu seus pilares de sustentação.

O começo foi espetacular. Dilma recebeu a faixa de Lula, após dois mandatos, acompanhada de um crescimento econômico, desenvolvimento social e satisfação popular que beirava o ideal no Brasil. A primeira mulher presidenta do país chegou a ter o maior índice de aprovação de todos os presidentes da história, foi 77% em seu auge. Nesse momento qualquer vontade política poderia ser concedia ao Executivo pelas legislaturas do Congresso. Era tempo de Reformas, pensar a democratização da mídia, desmilitarização da polícia militar, taxação das grandes fortunas, reforma agrária e urbana, sem esquecer da mais esperada: a reforma política. Todavia, nenhuma estrutura mexida, nenhum interesse abalado. Continuamos com os programas que em tese pragmática favoreceram poucos brasileiros.

Os programas de financiamento estudantil e entrada no ensino superior, FIES e PROUNI, injetaram dinheiro na iniciativa privada da Educação, os jovens que adentraram as faculdades privadas abriram espaço para os bilhões de reais para alguns poucos tubarões, como os das empresas Anhanguera, Uninove, PUC, etc. “Minha Casa, Minha Vida” foram casas projetadas para enriquecimento de Camargo Corrêa, El Global, Queiroz Galvão, Odebrecht, conjuntamente com seus sócios. Isento de impostos sobrou benefícios à Fundação Roberto Marinho e sua TV Globo, sim, a coautora da manipulação. E você “pessoa de bem” que reclamou desses programas, nem pense em concordar com o argumento, pois hora nenhuma os criticou por eles beneficiarem os ricaços (e as campanhas eleitorais de vários políticos), porém, porque você acreditara que eles eram “privilégios” concedidos ao povo.

O declínio do presidencialismo de coalizão, que nunca deu certo, era evidente. Negociar com a burguesia foi dividir o pão com um famélico, quando não mais houvesse ele comeria os dedos do sujeito. Foi o que aconteceu. Lucros menores, prejuízos maiores, arrocho e vida da população mais difícil. O PT perdeu a força de conter as mobilizações, lideranças de sindicatos e organizações estudantis cooptadas pelo partido se perderam no momento histórico. Junho começara e deixamos as forças reacionárias darem a resposta para a insatisfação popular.

Rebuliço nas ruas foi o medo dos empresários que desacreditaram na governança de Dilma e a deixaram. Foram-se os anéis. A mídia cumpriu seu papel oportunista de manipular. Foram-se os dedos. As coligações racharam e a mascara do cônjuge PMDB caiu. Foram-se as mãos. Sobrou isolamento.

A saga só foi acabar quando o próprio Partido que a convalidou na presidência optou por deixá-la como o bode expiatório. Rui Falcão a desacreditou em Rede Nacional e nesses últimos dias com a última carta sobre novas Eleições foi impedida internamente pelo PT. O abandono foi tamanho que nas eleições municipais seus companheiros de partido e amigos como PC do B se alinharam em coligações com os golpistas. PSDB, PMDB, PSB, PP e DEM em mais de 1000 municípios brasileiros estão abraçados com o ex, parece, portanto, nunca ter havido golpe.

Sim, a volta não mudaria o ajuste fiscal sobre trabalhadores e população. Muito menos precisamos nos iludir que haveria uma guinada a esquerda. Esse nunca foi o propósito. No entanto, observar Dilma politicamente sozinha, ver os truques burocráticos se consolidarem, olhar Temer com seus pacotes de maldades e sentir o sofrimento de milhões que perdem suas esperanças na transformação da sociedade, é um desalento, ou melhor, é um abandono.