Vem: 50 dias de lançamento do maior erro de Mallu Magalhães
Uma explicação técnica sobre um fracasso. Texto assinado por um produtor, um jornalista, um social media e diversos fãs.

“[Mallu Magalhães] expõe toda a coragem dos 24 anos no melhor álbum da carreira, Vem, clássico instantâneo da música pop brasileira de alcance universal”, Mauro Ferreira para o G1. “Os arranjos sofisticados e o imenso bom gosto nos timbres dão a ilusão, em alguns momentos, de estarmos diante de um disco de outras eras”, diz Pedro Só para O Globo. “Falar da Mallu é fácil. Quero ver ser como ela!”, Adriana de Barros, para o UOL.
Não é surpresa ver como a imprensa recebe os trabalhos de Mallu Magalhães desde “Pitanga”, de 2011. Sempre acompanhada de elogios, além de palavras como maturidade e evolução, a artista chega ao seu quarto trabalho solo com apenas 24 anos, tendo ainda um DVD ao vivo, um disco ao lado da Banda do Mar e uma coletânea destinada ao mercado norte-americano.
“Vem” chega às lojas com duas prensagens de 4 mil cópias, apenas. O seu trabalho anterior, a coletânea “Highly Sensitive”, vendeu 50 mil cópias, somente nos Estados Unidos, quando foi tema de um comercial do sistema operacional Windows 8. A cantora abdicou deste sucesso e apostou na resposta obtida com o som em português e referencial dos anos 60 que galgou “Pitanga” e a Banda do Mar, numa escala moral abrupta em apenas seis anos.
Porém, a resposta do público não parece ser a mesma neste novo lançamento. Os números e resultados nos buscadores e plataformas não são nada animadores. A cantora vem, na verdade, ganhando destaque por declarações no mínimo polêmicas, clipe discutível e direcionamento duvidoso. Neste momento, poucas semanas antes da estreia de sua turnê no Brasil, casas de show apagam dezenas de comentários que a acusam de ser racista, nos eventos de divulgação por onde a cantora irá passar. Até agora, nenhuma das poucas datas divulgadas está esgotada.
Em números:
Aproveitando-se de ferramentas como o Google Trends, que mede a relevância de um termo de busca num determinado período, podemos comparar como os três discos de inéditas mostrados nesta década pela cantora foram digeridos pelo público nos 30 dias antes do lançamento e 50 dias após a divulgação do referido trabalho.
Azul: Pitanga (30/09/2011), Amarelo: Banda do Mar (5/09/2014), Verde: Mallu Magalhães (04/12/09) e Vermelho: Vem (09/06/2017); Linha vertical preta determina a data de lançamento de cada um desses discos citados.
Note que, logo após o lançamento de “Vem”, dia 9 de Junho de 2017, o disco se mantém na mesma relevância de quando ainda não era lançado, permanecendo mal visualizado nos dias seguintes em comparação com os outros trabalhos. Os picos de consumo do registro se mostram apenas no momento de divulgação do controverso primeiro clipe (19/5) e quando ela deu uma opinião polêmica no programa Encontro, da Globo (23/06).
A comparação é ainda mais cabal quando coloca o “Pitanga”, um álbum que veio de uma fase de descrédito da cantora e foi recebido com surpresa pelo seu refinamento e suas mensagens implícitas. Ou quando pareado com o estrondoso sucesso da Banda do Mar. Apesar disso, “Vem” vai sendo acompanhado por uma massiva turnê de divulgação nas mídias e mesmo assim não tem obtido resultados sequer parecidos com seus antecessores.
Essa baixa resposta se estende também para os números no Spotify, onde teoricamente deveria estar o público da artista. Lá, tirando a polêmica faixa de trabalho divulgada primeiro e emplacada com sua super exposição, o valor da média de audições de todas as faixas do disco (264.579) é inferior ao de artistas emergentes com mesmo público alvo. O comparativo cabe para a Ana Gabriela, que lançou um EP de apenas 4 faixas uma semana antes que Mallu e pertence a um nicho parecido: 417.263 por média e 1.669.053 tendo um terço da quantidade de canções do “Vem”, que obteve 2.910.379 audições total até o momento.
No Youtube os números são ainda piores, onde se retiradas as faixas divulgadas antes do disco e em meio a discussão que envolveu o nome da artista, a média não chega sequer a 80 mil views nestes 50 dias iniciais. Para se ter uma ideia, o clipe de “Mais Ninguém”, da Banda do Mar, tem média de 24 mil views por dia atualmente.

Explicações técnicas destes números:
Quando a artista passou a se aventurar por ritmos mais tropicais, em seu segundo disco, não se desprendeu de usar elementos mais marcantes em sua obra, como o ukulele, guitarra slide, elementos percussivos e o protagonismo do violão. Apesar de imensamente diferente, “Pitanga” foi arranjado com elementos semelhantes aos dos primeiros discos, mas com os instrumentos colocados de forma mais suave e trabalhados para que os detalhes saltem aos ouvidos, e não como pano de fundo como nos antecessores.
O minimalismo bem trabalhado é totalmente abandonado em “Vem”. O disco procura uma sonoridade grandiloquente, aposta em nomes gigantes da música nos arranjos, um diretor artístico hypado e busca vender uma imagem de cantora consagrada. Alinhado a isso, expõe uma cantora de alcance vocal limitadíssimo que parece ter esquecido os trejeitos como cantora tão marcantes em seu estilo para soar apenas normal, sem vestígios de sua identidade. Ainda disputando (e perdendo) destaque para um arranjo com mais brilho e volume que sua voz dentro de canções onde, ao contrário do que tinha nos outros discos, perderam suas estrofes a mais e apostaram num formato básico de intro-verso-refrão-intro-verso-refrão-ponte-refrão expondo a simplicidade e fraqueza da composição.
Não acaba aí. As letras da jovem, agora ainda menores, encobrem o poder de ser uma expressão de seus fãs e tornam-se reflexo da vida tranquila de uma mãe em sua casa situada em um país europeu. Distanciando-se da realidade do seu público brasileiro em questão de casualidades, empoderamento e relacionamentos que o “Pitanga” apontou, e como sutilmente o crítico Marcelo Costa mostrou em sua matéria no digital Scream & Yell. Não que seja um crime mudar a cabeça, amadurecer ou curtir a maternidade, mas não quer dizer que a artista está acompanhando seu próprio público ou sabendo como lidar com ele. É um disco sobre ela e ao redor dela, apenas. A identificação soa rala e forçada.
Para abdicar do jeito de cantar, mudar a forma de compor e o jeito de se comunicar com o público, espera-se que tenha um bom resultado. Ao contrário. Em vídeos de entrevistas, programas e apresentações recentes em Portugal, a cantora mostra um violão vacilante, presença insegura e uma voz semitonada quando não totalmente desafinada. São onze anos de carreira e uma artista que não sabe respirar nos momentos corretos, portar-se na tv, acertar afinação e tocar um arranjo simples. Será que não existem fonoaudiólogas e professores de canto e violão em Lisboa?
Questões Opinativas:
Marcelo Camelo é um gênio quando se propõe a criar um trabalho belo, mas um produtor que não pensa no entorno. Entregou um disco muito bem arranjado e conseguiu assim roubar um protagonismo de quem tem o nome estampado na capa. Quando delimitou o que seria a produção esqueceu-se de que Mallu faz parte de um mercado, tem fãs e histórico e deve olhar para eles. Parece que ele se preocupou em atender principalmente aos críticos e esqueceu-se de quem faz um artista ser grande: o público.
Assim, Mallu torna-se uma pessoa que não entrega o que promete em discos (boas canções) e também não mostra a que veio ao vivo. O álbum soa uma briga de uma cantora sem destaque vocal, com canções e melodias simples, contra uma orquestra e arranjadores consagrados. O disco é belo do ponto de vista da produção e arranjo e horroroso visto do prisma das canções originais. Parece uma volta da artista aos seus tempos adolescentes sob uma produção regida por Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, maestro Mario Adnet, Dadi Carvalho, Kassin, Davi Moraes e grandíssimo e estrelado elenco.
Os arranjos também têm seus deslizes. “Casa Pronta” tem o orquestral soando excessivamente semelhante com “Faz Parte do Meu Show”, do Cazuza. O disco todo, aliás, parece querer alinhar a artista com o trabalho mais MPB de Gal Costa em 69, principalmente a última faixa daquele álbum, “Deus é Amor”, que parece soar o disco inteiro da Mallu em uma única faixa. Falta-lhe vivência além de ouvidos para soar como o trabalho sugere que ela é.
Junto a isso, uma direção artística que não foi capaz de direcionar e aconselhar uma artista de que certos movimentos podem ser vistos como errados por uma sociedade da qual ela é uma representante, provocando uma reação mimada e um sinal de que em nenhum momento entendeu o que lhe era cobrado. De que adianta ter um jovem ‘antenado’ estar nos créditos do disco se ele não sabe sobre que alicerce a artista construiu sua base de fãs e no que este público alvo pensa e precisa?
O direcionamento de público alvo soa como “samba para gringo ouvir”, “para jornalista bater palma” ou “para aparecer em comercial de margarina”. São tantas diferenças e caminhos que não é difícil causar tanta estranheza entre os fãs. Note que não precisamos entrar diretamente no assunto racismo para explicar tal fracasso nestes 50 dias. É só olhar o entorno: o disco não sustenta o próprio discurso.
Em “Vem” Mallu deixou de olhar para seu público antigo, não aproveitou a construção norte-americana de carreira, não cresceu o público vindo da ascensão do sucesso da Banda do Mar e do disco Pitanga e ainda queimou sua imagem com declarações e posicionamentos mal-estudados. E o pior é ver tudo isso ao vivo, em números e acontecimentos como aqui exemplificados.

