Domingo, um dia fútil

A essa altura você já viu tudo dos protestos de domingo. A Paulista lotada, o patriotismo padrão FIFA, as selfies com a PM, a beatificação de Sérgio Moro, a excomungação de Janot, memes de faixas em inglês capenga, outros de faixas em português capenga, o uso ad nauseum do termo coxinha, a cobertura quase carnavalesca da Globonews, a semiapocalíptica dos independentes.

O protesto teve de tudo um muito. Menos novidade. Não fosse por um aspecto, esse sim inédito, nessa modalidade de manifestação: sua recém-adquirida futilidade. E não por falta de camisas da CBF, carros de som ou respaldo demográfico. O problema é que, apesar do foco, a turma parece não enxergar muito bem. Ou não conseguir observar as entrelinhas das notícias acima de seus comentários nos portais. E surdos nas exclamações, não tiveram como perceber, assimilar ou admitir a própria vitória nas últimas semanas. As pautas estruturais da esquerda, a agenda de movimentos sociais, o poder de Dilma como eleita e do PT como partido, o próprio Zé Dirceu… tudo esfacelado. Joaquim Levy de Armínio Fraga só não tem o nome. Tomando como base a política econômica, onde os cortes estão sendo feitos, que direitos estão na bandeja, alguém diria que está sendo implantado o programa de governo do Aécio Neves.

Só que a turma no domingo, apesar do pique folião, não estava feliz. Pois no fundo não queria um programa. Queria mesmo é sangue, cadeia… IMPEACHMENT! E foi essa obsessão que cuidou não de derrubar, mas de deixar o Governo oco. Pois a histriônica ameaça que abarrotou ruas, editoriais e discursos de plenário contaminou não só o debate. Mas a própria base do PT e os grupos que dele dependem. E todos, oposição e Governo, cometeram o mesmo erro: investiram tudo na manutenção do cargo. E dispensaram a função.

Foi essa dinâmica, aditivada pelas espontâneas ruas anti-Dilma, que deu o impulso para uma ampla pauta conservadora avançar sobre um Governo sem ideias e sobre os militantes de uma esquerda sem libido. E assumir a função sem precisar do cargo sempre foi o lugar favorito da direita pragmática. Aquela que ama ser base. Que sempre justificou todo tipo de fisiologismo, que sempre demoliu toda integridade alheia propondo a irrecusável governabilidade. Foi assim que, gastando toda sua força para desarmar um impeachment, o Planalto abraçou contente o programa de Renan Calheiros. E acabou permitindo, sem resistência sequer retórica, o deslocamento do centro político para a direita.

Se a Pax Brasiliense for selada nessa ultraliberal Agenda Brasil, se esse pacote se tornar o novo normal, o impeachment vai se tornar — assim como seu mestre-sala Eduardo Cunha — dispensável, indesejável até para uma elite econômica, midiática e política. Eis então a trágica ironia. Essa direita sem teto vai seguir como ontem, empoderada no papel vítima do PT, cafona e tétrica, zanzando pelo Brasil em busca de alguém pra chamar de seu. E a esquerda que se ofereceu para, mais uma vez, blindar o Governo no dia 20, vai dar um jeito de cantar vitória, de bucho cheio por ter jantado coxinhas. E vai bradar que não teve golpe como se vitória fosse. Só não vai perceber, ou admitir, que foi ela que, ao defender o cargo e não a agenda, comprou a rifa do impeachment e liberou a rampa para a direita que de fato opera o país. Aquela que não faz questão do cargo. Só não dispensa o poder. E que segue nos lembrando, como por toda nossa república, que Governo estável não é Governo eleito. Mas Governo obediente.

Bruno Torturra é jornalista, editor do Estúdio Fluxo, e foi um dos principais ativistas dos protestos de junho de 2013.


Originally published at brasil.elpais.com on August 17, 2015.