TAKE 5: ensino superior de cinema no Brasil — Hernani Heffner

Antes de ler esse post, leia: TAKE 5 — apresentando a proposta

Repostas: André Gatti / Tunico Amâncio

O segundo a mandar as suas respostas foi Hernani Heffner, Diretor de Conservação da Cinemateca do MAM/RJ, restaurador de filmes e professor de cinema na PUC/RIO e FAP/CINETVPR.

5 perguntas e 5 respostas: ensino superior de cinema no Brasil

1. O que esperar de um curso superior de cinema (na perspectiva de quem vai estudar, ensinar, produzir e pesquisar)?

  • Cursos superiores há muito estabelecem os padrões de formação para as mais variadas áreas (ciências, biomédicas, etc.). Sobrou muito pouco espaço para iniciativas individuais e não acadêmicas na formatação vinda da revolução francesa e do capitalismo contemporâneo. Uma das poucas exceções a esse padrão continua sendo a área de artes. Neste caso, a pergunta deveria ser: o que um curso superior pode acrescentar a um processo de formação livre? Na perspectiva de quem vai estudar: estímulo e ordenação do conhecimento (queima etapas), sobretudo os ditos técnicos, que são padronizados (científicos). Na perspectiva de quem ensina: poder interferir no debate do que vai ser feito. Na perspectiva de quem produz: descobrir novos talentos, modelos de negócios, oportunidades, temas, mentalidades. Na perspectiva de quem pesquisa: demonstrar a necessidade pensar o cinema de muitos modos, testar hipóteses de trabalho, estimular a formação de novos pesquisadores, engajar os alunos em um mergulho pelo mundo do cinema local e nacional. O que esperar de um curso superior de cinema: que dê dimensão humana ao trabalho e irresponsabilidade criativa.

2. Até que ponto a vinculação com a área de comunicação prejudica ou prejudicou o ensino de cinema no Brasil?

  • A vinculação à área de Comunicação Social só prejudicou a formação dos alunos por limitar o tempo do conhecimento específico da área e por desviar as discussões para uma dimensão das ciências sociais e não das artes. O curso nesta área não estimula o exercício artístico e privilegia um professorado pós-graduado, muitas vezes sem experiência direta do meio e sem riqueza artística a transmitir. O curso empobrece e os alunos idem. A comunicação social historicamente falando sempre se voltou para aplicações práticas (jornal, televisão, publicidade) e não para experimentação específica do meio cinematográfico (em chave comercial ou erudita). Quem quer fazer cinema, não está interessado em outra coisa.

3. Existe ou existiu uma dicotomia entre teoria e prática na proposta pedagógica dos cursos?

  • Em tese não, já que os currículos contemplam tanto uma quanto a outra. No entanto a realidade econômica dos cursos em geral inviabiliza ou distorce a prática mais rigorosa. Na medicina um cirurgião tem que praticar com bisturi, centros cirúrgicos, pacientes vivos, etc. Em cinema, oferecem (quando oferecem) um câmara digital semi profissional defasada, embora se o aluno vier a ganhar um emprego de fotógrafo tenha que exibir um desempenho com equipamento profissional. Além disso, ao adaptar os exercícios à realidade existente nos cursos o professor distorce a aplicação da teoria (um físico recria condições efetivamente existentes e não adaptações distantes do hipótese em questão). Faltam ainda didáticas eficientes para certas disciplinas, já que o ensino de cinema nunca foi teorizado de verdade entre nós.

4. Qual a importância de um curso superior de cinema na atividade cinematográfica, tanto no aspecto prático como no teórico?

  • Esta pergunta talvez tivesse sentido nos anos 60, quando o aprendizado fora da universidade era a regra e começava a se confrontar com o advindo das salas de aula. Hoje predomina o universitário em todo o mundo. Para o bem ou para o mal, é nele que se centrou o aprendizado na área. É preciso aperfeiçoá-lo para dar sentido ao investimento da sociedade e um resultado expressivo para o mercado e para cultura. A importância é absoluta portanto, pois a cadeia de produção, tanto teórica, quanto prática, passam pela universidade.

5. Cursos superiores de cinema são centralizadores de produção (tanto prática como teórica) cinematográfica local?

  • Em geral não, pois poucos grupos se formam e se mantém unidos depois de concluído o curso universitário. Em artes, a associação é por afinidade, não por um espaço de trabalho ou algo do gênero. Não vejo problema nisso. A função da universidade não é juntar pessoas e sim passar conhecimentos e atitudes (a tal postura crítica).

Conexões: Entrevista na Contracampo / Depoimento no Game Festival


Originally published at produtor.org on January 27, 2011.