TAKE 5: financiamento colaborativo (crowdfunding) — Vincent Carelli

O terceiro convidado é o indigenista e documentarista Vincent Carelli. Conhecido pelo pioneiro projeto Vídeo Nas Aldeias, que propicia a formação e produção de conteúdo audiovisual indígina, feito pelos próprios índios. Dessa experiência transformadora, o seu longa “Corumbiara” (2009) é a obra mais conhecida. No final do ano passado, o Vídeo nas Aldeias, que também integra a rede de apoio e solidariedade aos Guarani Kaiowá, lançou um projeto de financiamento colaborativo para custear atividades de formação audiovisual nos acampamentos indígenas e a finalização do longa-metragem Martírio.

1. Fale da sua trajetória na internet e de como o financiamento colaborativo — crowdfunding — pintou no seu caminho.

Eu não tinha me interessado por coisas como o Orkut, etc. Para mim a internet era basicamente email e pesquisa. Um dia uma amiga me convenceu a abrir uma página no Facebook, para me comunicar com uma rede de amigos. Logo percebi que podia ser uma ferramenta importante de divulgação do trabalho e de militância, em vez de ficar postando coisas pessoais. Abri uma página no meu nome, onde compartilho coisas variadas, além das questões indígenas e outras para o Vídeo nas Aldeias, mais focada na questão política dos índios e da produção cultural e audiovisual desses povos. Muita gente começou a solicitar amizade e entendi que as pessoas procuravam se ligar a essas duas páginas, não por me conhecerem pessoalmente, mas pelo trabalho que a gente desenvolve. Passei a aceitar todos interessados pelo assunto, e tem milhares de jovens indígenas na nossa rede de amizades.
Pyelito Kue, março 2014, autoria de Vincent Carelli.

2. Você já ganhou algum prêmio, edital ou mesmo captou algum dinheiro na lei de incentivo, já recebeu algum patrocínio? Como você manteve a sua atividade até agora?

Fomos Ponto de Cultura e Pontão na era de ouro do MINC com Gilberto Gil e Juca Ferreira, mas no governo Dilma tudo caiu no esquecimento. Temos captado alguns projetos pontuais através de patrocínio ou dos editais da Petrobras Cultural, fizemos também vários trabalhos para processos de tombamento do patrimônio cultural indígena pelo IPHAN. Sempre conseguimos apoio na categoria Patrimônio Imaterial. Agora, com a reiterada premiação dos nossos filmes em festivais de destaque, quem sabe a gente consiga apoio na área do cinema. O Funcultura de Pernambuco está fazendo importantes investimentos na produção cinematográfica, que vive um momento muito profícuo, e estamos concorrendo neste ano com vários projetos. Uma instituição como a nossa não se mantêm só de projetos pontuais, que tem várias restrições de uso do dinheiro. Há mais de vinte anos a nossa micro estrutura tem apoio da cooperação internacional, através da Embaixada da Noruega, pelo nosso trabalho pela visibilidade e protagonismo dos povos indígenas neste pais.

Vincent Carelli no centro, em Ramada, maio de 2013, autoria de Ernesto de Carvalho.

3. Quais as estratégias e táticas feitas, ou que se pretende fazer, para divulgar a sua campanha e motivar mais contribuições? Existe alguma possibilidade de interação ou interferência do público na sua criação?

A pagina do Vídeo nas Aldeias tem quase 5 mil amigos e a minha mais de 3 mil, mas só isso não é suficiente, é preciso a colaboração de outras pessoas que militem pelo projeto e te conecte em outras redes, e assim por diante. Ficar publicando notícias sobre o andamento do projeto também é importante, assim como agregar pessoas públicas e artistas também é fundamental para ampliar a rede de colaboradores.

4. Quais são as maiores dificuldades enfrentadas até agora na campanha ou, posteriormente, na feitura do seu projeto?

Talvez arrecadar pequenas quantias seja mais fácil, mas uma meta de 80 mil como foi nosso caso, dá um trabalho louco. Foi um mês de preparação do projeto, e dois meses em período integral para a captação. Desconta este investimento mais a porcentagem da plataforma você vê que sobra pouco. Mas de qualquer forma é vital para a continuidade do trabalho e para a difusão da causa. No nosso caso, que é um estudo aprofundado das causas históricas do desterro Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul, a feitura do projeto se apóia mais numa rede de colaboradores que participam diretamente, não pela rede do crowfunding. Creio que em muitos casos, sim, a rede pode contribuir com informações e sugestões.

5. Você pretende futuramente fazer uma nova campanha de financiamento coletivo? O crowdfunding é viável? E viável até que ponto para você?

Quem sabe? Acho que o crowdfunding é viável em alguma circunstâncias, quando você está lidando com temas para os quais as pessoas já estejam sensibilizadas. Nesses casos o crowdfunding é importante não só para captar recursos mas para retroalimentar o movimento, incorporar o teu produto para potencializar um movimento mais amplo. É muito bacana sentir que não é um trabalho solitário, mas que conta com apoio de muita gente.

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Conexões: Vídeo Nas Aldeias | http://www.catarse.me/pt/kaiowa | Trailer de Corumbiara | Vincent Carelli no TEDx


Originally published at produtor.org on June 11, 2014.