01 — Um Início
O problema começou em uma madrugada, como grande parte dos problemas parecem começar. Era um dia típico de meio de semana, com a mesma e retilínea rotina: casa, trabalho; trabalho, casa. Mas, as madrugadas, tão solitárias e frias, tão sombrias e silenciosas despertam certos pensamentos enviesados – ou nublados como diriam alguns. E, diante disso, começou a chover vagarosamente. As lágrimas não eram somente minhas: o mundo estava chorando. Os pitacos dos pingos de chuva no telhado do vizinho acalmavam um pouco o meu ânimo. O barulho estava sincronizado com o batimento do meu coração. No entanto, cada vez mais, mais chovia e mais rápido e intenso o barulho eu ouvia. E depois, um clarão. Relâmpagos? Trovões? Sons de janela se abrindo e fechando. Alguns vizinhos devem ter acordado para simplesmente fechar as suas portas e janelas. As lágrimas não podiam entrar em seus recintos. Não era permitido. Ou não era bem visto. A leve chuva estava se tornando um intenso temporal. Os raios iluminavam a janela do meu quarto. Talvez, almejavam saber se eu estava ali, ainda. Talvez, queriam apenas me assustar. Assustado, eu saberia que estava, pelo menos, vivo, ou respondendo minimamente a estímulos externos.
O tempo passava muito devagar, quase parando. A minha ansiedade, ao contrário, crescia vertiginosamente. Mesmo assim, o tempo “passava”. Aonde iria? Desconheço, e desconhecemos. O futuro não deveria ser tão importante. Pouco conhecemos do que está por vir. Mas, o futuro ocupa um espaço considerável em nossas mentes (e em nossas vidas), afinal, temos certa “necessidade” de planejar quem nós queremos ser. Uma necessidade não muitas vezes racional, ou nem sempre.
A insônia fazia parte de mim agora. Não conseguia nem conseguiria mais dormir. Antes, o que parecia tão fácil e surpreendentemente simples, tornava-se enfadonho e desagradável. Deitar em uma cama ou uma sofá e fechar os olhos era um fardo. Provavelmente, o fato de deitar sozinho deve ter contribuído para o meu problema. Os pensamentos tão lúcidos e sem os distúrbios de outrora, ficaram escuros nessa madrugada. Pode ser que a chuva e o temporal tenham auxiliado nessa dificuldade. Mas daí, e desde então, o problema começou. E, infelizmente, persistiu.
Meses atrás, eu “conheci” a Alice. Já a percebia antes. Em algum lugar dessa vastidão, eu já a tinha visto. Poderia ser alguém parecido com ela? É claro que sim. As memórias nos pregam peças. E muitas vezes, nós pregamos peças em nós mesmos. Imaginamos coisas que nunca aconteceram. Suponhamos em algum momento que essas coisas tenham acontecido. Recortamos as lembranças de um lugar e colocamos em outro – um recorta e cola imaginativo. E, para finalizar, acreditamos fielmente nisso. Adiante, não sabemos mais o que aconteceu, nem queremos saber. Esquecemos tudo e recordamos de tudo nessa modernidade líquida. Parece que não há como as memórias permanecerem nessa sociedade fluída: um jogo que nunca termina. A Alice era uma garota muito interessante, aos meus olhos e obviamente ao meu gosto: loira, branca, e muitas vezes, pálida – a brancura de um chocolate branco que me deliciava; um pouco alta e alta o suficiente para que eu esteja a sua altura; leves e sutis toques alaranjados em seu rosto – aquelas sardas que tanto me encantam, do mesmo modo que os temperos delicados em um prato requintado de gastronomia; os olhos claros que hipnotizavam e poderiam petrificar qualquer um; curvas em seu corpo indicavam terrenos a ser admirados; e certa alegria contagiante e, estranhamente, perturbadora. Havia algo de errado? Ou melhor, havia algo de errado nela? Uma resposta negativa seria mais uma das hipocrisias minhas. Há sempre algo de errado. No entanto, isso de modo algum deveria afastar as pessoas. Por que as pessoas se afastam? Por que o vínculo, em algum momento, termina? A dor de viver passa por isso... “Perdemos” aqueles que amamos. Aqueles momentos felizes e fugazes não voltam mais. As nossas lembranças das alegrias, das brigas, das tristezas são apenas e meras lembranças: o tempo não volta mais, nunca mais.
Eu estava pedalando pelas ruas de Porto Alegre num dia quente de dezembro. A Orla do Guaíba estava relativamente movimentada. O calor, o pôr do sol, o suor, o vento estavam presentes. A única companhia que eu tinha era a minha bicicleta e, aquela que nunca nos abandona, a minha solidão, que, por enquanto, não era propriamente um problema. Apesar dos apesares, havia um objetivo na minha vida, ou objetivos. Quer dizer, algumas pretensões eu tinha. Eu estava morando em Porto Alegre há um bom tempo: nove anos. Contudo, nunca tive dinheiro suficiente para aproveitar o que essa cidade oferece. E mesmo que tivesse, jamais conseguiria aproveitar tudo. Uma e outra coisa eu fazia. Coisas simples. Depois de ganhar uma bicicleta de um grande amigo, eu poderia ir mais longe para desbravar a cidade. E, por isso, eu estava pedalando, e observando as pessoas que faziam exercícios, que estavam apenas passeando, que estavam por ali: os seus risos, os seus esforços, as suas lamentações, as suas conversas, as suas roupas, os seus tênis, o modo curioso como alguns corriam ou pedalavam. Alguns diziam, aliás, que eu era um “bom” observador. Mas, com toda essa minha atenção, eu fui desatencioso, desleixado. Pedalando pelas ruas de Porto Alegre, ironicamente, não prestei atenção na pessoa que depois iria ocupar parte de minha vida (e, um clichê, e por que não?, do meu coração). Sem querer querendo, esbarrei na Alice. Eu a atingi no antebraço direito com uma parte do guidão da bicicleta, e uma vez que eu estava andando, digamos, a passos lentos, não a machuquei tanto. Porém, o suficiente para que uma pequena marca roxa colorisse o seu corpo esbranquiçado. Eu lamentei profundamente. Devo ter pedido milhares de desculpas e de perdão. Devo ter corado e virado um camarão. Ela, ao contrário, riu da situação e a achou engraçadíssima. A risada e as feições dela, o modo como os dentes combinavam com o seu rosto, as suas bochechas salientes e sua boca rosada, eram contagiantes e mais e mais cativantes.
E a chuva parou. Mas, minha agonia não. Eu acordei: estava adormecendo nas minhas lembranças. Será que tudo aquilo não passou de um mero sonho? Hum. Eu posso muito bem ter sonhado acordado, como dizem, remoendo e cutucando algumas minhas lembranças. Quem era a Alice?