02 — Divagações Diversas

Frederico M. W.
Jul 25, 2017 · 6 min read

Há tantas coisas bonitas em nossas vidas que, no mais das vezes, esquecemos todas as situações complicadas e, digamos, “feias” — ou grande parte delas. Ouvir uma boa música parece nos transportar para algum lugar distante de tudo aquilo que conhecemos. É como num filme, poderia dizer alguém. Imaginamos os nossos atos do passado com aquela música de fundo. Parece tão belo e romântico. Eu poderia ter feito isso ou aquilo. Eu chego a divagar, inclusive, que eu fiz! As minhas memórias se confundem com o que sonho. Não sei mais o que real. Ou eu nem quero saber? Mas, o que é?

Minha vida não tem lá grandes emoções. Eu costumo exagerar quando penso nas minhas conquistas — elas não merecem tal tipo de enaltecimento. Os meus fracassos são mais concretos do que qualquer outra coisa. E, por isso, sinto-me um fracassado. Ainda mais quando penso nas outras pessoas — em especial, pessoas com as quais eu tive contato na infância. Todos me parecem tão “bem”: o sucesso (algum tipo de sucesso) está estampado em seus rostos. Pelo menos é o que parece . Ou o que quer que eu pense que pareça. Não deveria me sentir, pelo menos, bem com a felicidade de outros?

A felicidade para muitos é um mero “aparecer”. Talvez, uma das características de uma felicidade seja a seguinte: nós devemos mostrar aos outros o quanto somos felizes. Não basta sermos. É preciso, usando certa terminologia corriqueira, esfregar na cara do outro a nossa felicidade. Recordo-me de uma aula de filosofia moral sobre Kant e de uma cena da minha criancice: certo vizinho ganhou um videogame x; na época era um luxo, tecnologia de última categoria; de modo contraditório — sim, os sentimentos são assim — eu fiquei feliz e triste; feliz por poder participar e manusear o jogo e triste porque não era o meu jogo; tempos depois, eu ganhei um videogame y que era mais “atual” que o x; agora sim, eu poderia esbanjar e mostrar aos outros o meu equipamento; a minha felicidade era evidente; como é bom ser feliz quando os outros nos enxergam; é curioso, parece que precisamos ser o centro das atenções; caso contrário, não há felicidade; mais tempo depois, outro vizinho foi presenteado com um videogame z; minha felicidade momentânea foi por água abaixo.

Como isso pode ser assim? Somos crianças até mesmo quando adultos. Não aprendemos com os nossos erros: isto é, eu não aprendo com os meus. Eu insisto e insisto… Por quê? O que eu tenho com isso? Qual foi, digamos, o fracasso, talvez na minha infância, que me influencia nessas decisões? Ou será que foram vários fracassos e decepções? Parece ser o caso.

Imagino que as minhas escolhas não foram bem “escolhidas”. Tenho a ligeira impressão de que faço, no mais das vezes, decisões, digamos, sadias e coerentes. De certo modo, consigo avaliar as perspectivas em jogo e escolher a melhor alternativa para o caso. Um juiz. Contudo, são decisões um tanto quanto subjetivas. Há muitas variáveis em jogo e sempre desconheço alguma delas — as mais importantes geralmente. Sim. Posso pensar que escolho bem. Claro que a minha intenção tem um papel aqui. Mas, não posso negligenciar todas as possíveis e improváveis consequências do que escolhi.

O problema, no entanto, é que me sinto um completo “malsucedido” quando perco em minhas escolhas. Como não sentir um desgosto pelo que fiz? Uma sensação de rebaixamento? São todas misérias de minha pessoa. Inconveniente. Chorão. Cínico. Carente. Irônico. E, mais uma vez, inconveniente. Esse sou eu. Não gosto de ler esses adjetivos em relação à minha pessoa. Não me sinto confortável. E quem se sentiria? Só que eu tenho uma capacidade de esquecer tais predicados; o que faz com que eu esqueça que eles são parte de mim. Eu sou assim. Ou eu não deveria ser? Pode ser que eu não tenha um suporte psicológico que ature esses sentimentos. Eu não sou forte o suficiente. Nem sou forte. Como eu poderia ser, tendo em vista a maneira como me comporto?

Mesmo não sendo um cristão de origem, muito de minha moralidade é religiosa. Sempre pensei, desde a minha infância solitária, que encontraria um clichê ultrapassado: uma princesa encantada? Eu sei que deveria ter visto menos os filmes estado-unidense e certa moral que prega tamanha baboseira. Ingenuidade. Como resistir se está impregnado em meu espírito? Ou como esquecer se a maioria dos filmes, das novelas, dos romances, das histórias têm essa temática?

A história dos meus relacionamentos é curiosa. Bons livros poderiam ser escritos, ainda mais se eu soubesse escrever e se eu pudesse tornar público tudo aquilo que sinto. É claro, seriam livros de humor ou tragicômicos. A expectativa que tenho dos relacionamentos é algo a ser estudado pela psicologia. Por que nenhum deles “deu” certo? O que eu fiz de errado? Foram muitas coisas e, pior, as mesmas. Há boatos de que errar é humano, mas, insistir no erro é burrice. É. Hum. Parece que sou burro: não há como negar.

Recordo-me de pequenos namoros na infância. Todos sem ambições. Como podia esperar algo, se eu era ainda muito novo? Agora que as marcas do tempo deixam sinais em nós, permaneço só. Não viemos sozinho ao mundo. Porém, sozinho ao mundo iremos. Só, ficarei. Só, estarei. É um pouco delicado se acostumar com tais coisas. Eu tenho um costume infantil de ficar solitário nos eventos. Lugares lotados. Pessoas e mais pessoas. Como é irônico! Ou é apenas uma das manifestações de um mero humano, um demasiado humano.

Naquela peculiar solidão, ao menos, haviam pessoas a quem ver. Podia observar as adversidades da vida. Beijos. Casais em uma felicidade eterna e efêmera. Jovens caçando as suas “presas”… Garotas e garotos esbanjando suas finas características. Bêbados despreocupados com os jargões da moralidade e da ressaca. Sujeira em todos os cantos do banheiro. Beleza e graciosidade nos rostos e nas vestimentas da juventude. Toda a vida em uma festa de quintal. Eu não sei por qual motivo, no mais das vezes, não me sinto bem nesses locais. Essa felicidade me enoja. Ou o que me enoja é a felicidade dos outros? As alegrias dos outros me parecem tão reais e sedutoras. Porém, parte mim sabe que aquilo não pode ser verdade. Como eles podem ser tão felizes, se há tanta desgraça nesse mundo? Sofrimento: isso sim faz parte do mundo. O resto é transitório e inconveniente.

A tristeza é algo que faz parte da vida. Eu não consigo imaginar ou sequer é possível pensar em algo parecido. Que mundo seria aquele sem tristeza? Como apreenderíamos sobre relacionamentos, sobre conquistas, sobre perdas e, enfim, de modo geral, sobre a “vida”, sem que existisse a tristeza? Heráclito de Éfeso, e muitos outros, já nos advertiram da importância de opostos: alegria e tristeza, amor e ódio. Dois lados de uma mesma moeda. Um não existiria sem o outro. Como ser feliz se não há momentos de tristeza? Isto é, como seria possível saber e sentir o que é a felicidade sem que soubesse, pelo menos por um instante, o que é a tristeza?

Lendo uma reportagem sobre depressão, mais uma vez o óbvio e trivial é constatado. A pesquisa da notícia sugere que os relacionamentos na adolescência podem interferir na vida da pessoa até vinte anos depois. Todos nossas experiências, grosso modo e quaisquer que sejam elas, influenciam, em um grau ou outro, o nosso comportamento. De certo modo, somos “reflexo” disso tudo. Claro que não somos meramente passivos. Há um elemento “ativo” ou, digamos, agente nessas relações. Porém, medir tais situações parece ser algo delicado. O trivial disso tudo é que o nosso comportamento atual é o “resultado” de nossa história. Ou isso é algum tipo de determinismo? Algum filósofo ou intelectual erudito teria objeções a minha última frase. Infelizmente, a minha frase não absorve em completo o meu raciocínio. De um lado, isso é falha minha, e, de outro, é a peculiaridade da escrita: sempre se perde algo.

E, desde aquela madrugada sombria, eu “perdi” a Alice. O que ela estaria fazendo? É, de certo modo, natural ficar pensando ou ficar se remoendo nisso?

    Frederico M. W.

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    Um mero alguém que escreve meramente algumas coisas.