03 — Ventos da Vida

Ventos da Vida — 1
Nos últimos dias tenho tido pesadelos um pouco mais intensos e mais vívidos. Curiosamente, as personagens são as mesmas. As situações são semelhantes. Mas, há diversidade de cenários. Pois bem. Eu, sozinho no meio de certa multidão, melancólico, e buscando alguém (ou será algo?). Um alguém próximo e distante. Um alguém que eu muito via e pouco conhecia. Ao que parece eu converso com essa pessoa. Um diálogo sutil. E, ainda, devastador. O que eu falei? O que ela disse? Por que eu a vejo e a ignoro? Por que ela me vê e me ignora? Quem é ela? E quem, de fato, sou eu? É engraçado. E triste. Os seus cabelos estavam pintados levemente de roxo. Ou melhor, de mechas roxas, em um jardim verdejante. Ela me viu. Ou eu pensei que ela me viu? E que importa? O dia sempre termina.

Ventos da Vida — 2
Tantas possibilidades de comunicação, e a comunicação é ainda um grande desafio. Às vezes, parece que nós nos acostumamos com refúgios diversos em ocasiões diferentes. Seriam eles mais sólidos ou confortáveis que nós próprios? Que pânico desse mundo, não? A vida é interessante. Mas o que faço aqui? Qual é o “propósito”? Não há. Por que haveria de ter? Estamos aqui de uma vez por todas, não é? Por que eu fujo? Tenho medo? Ou do que tenho medo? E eu esperando por respostas que nunca chegam.

Ventos da Vida — 3
Se há uma “natureza” humana, ela não parece ser tão humana assim. E a julgar por uma história, nem poderia. Nossas vidas são recheadas de questões morais. Lidamos bem com elas? Eu não. No mais das vezes, não. Mesmo assim, é interessante conhecer as pessoas, e conhecer o que é ou não importante a elas. Contudo, e ironicamente, “ajudar” alguém é também correr o risco de prejudicá-la(o).

Ventos da Vida — 4
Alguns dos ditados nos contam que o que vem fácil, vai fácil. No caso de “amores” e de dinheiro, isso me parece muito verossímil. Ou eu apenas tenho uma visão “distorcida” dos fatos, afinal de contas, sempre interpretamos os fatos de maneira peculiar, e às vezes nem tão óbvia. Ontem, uma notícia, digamos, bombástica assolou o cenário político brasileiro: a república caiu, era o que diziam. E, como uma analogia, anteontem, a república do meu coração (ou da minha alma como dizem outros) caiu, e despedaçou-se — quantas feridas e dores nós temos, nesse finito e eterno jogo da vida.

Ventos da Vida — 5
Sempre imaginei que (cruelmente) ficaria sozinho. Mas, sempre foi uma imaginação literária, digamos. Não pensei que realmente pudesse ou que fosse ficar “solitário”. No entanto, parece que eu estava certo — e, por outro lado, espero que não. É gostoso saber que temos alguém com quem confiar, com que desabafar, uma companhia — e em outros casos, pode ser até sufocante; seria esse um “amor líquido”? Queremos e não queremos. Temos desejos de fazer X e desejos de não fazer X. Afinal, o que “diabos” nós queremos? Mesmo imaginando que eu ficaria sozinho, esse é um dos meus maiores medos e angústias.

Ventos da Vida — 6
Por que nós nos intrometemos na vida dos outros? Por que pensamos que sabemos o que é melhor para os outros? Que ironia. Há preocupação em demasia, não? Ou algumas dessas preocupações são “sinceras”? Hoje, o dia amanheceu cinzento, nublado, confuso, como os meus pensamentos e, portanto, como parte de minha vida. Por um momento, o céu se abriu, e alguns pequenos raios de sol e um azul da atmosfera me tocaram: uma alegria momentânea, como todas as alegrias; uma sensação de que estou bem, de que ficaria de bem, de que fiquei bem — contudo, são sensações, meras sensações (algumas fracas, outras tão e tão intensas e vívidas).

Ventos da Vida — 7
As pessoas pensam que eu estou ou que fico calmo. Mas, estou profundamente triste, angustiado, inquieto. O vazio persiste. Um dia me escreveram mais ou menos o seguinte: “Eu sei que tu tá se sentido uma merda. A dureza que é estudar e não alcançar. Mas faz parte do processo. Tô orgulhosa de ti. E tu tem direito de ficar triste. Mas não desiste! Uma hora vai dar certo. Nhécs!” São palavras muito lindas e tocantes. Quero acreditar nelas. Quero sentir força com elas, e não lacrimejar… Um dia. Vai dar certo!

Ventos da Vida — 8
Uma chuva friorenta lá fora
E eu entristecido.
Sigo minha vida aqui sozinho.
Como eu sempre imaginei,
Muito embora.
Devo caminhar pelo mundo
A essa hora?
Talvez, mas sem delongas.
Sem espera e sem demora.

Ventos da Vida — 9
Cheguei a Porto Alegre. A viagem foi chuvosa e longa. Porém, não cansativa. Ironicamente, eu estava cansado e adormeci. Adormeci por longas e longas horas, depois de exaustivos exames. E acordei assustado. Estava em Porto Alegre. Não queria estar. Não deveria estar. Talvez, quisesse estar, contudo, por motivos que não tenho mais. Eu continua a escrever sobre essas coisas. E por quê? Quando cansarei de “perder”? Estou cansado? Ou cansado do quê?

Três décadas de insensatez. Três décadas em que aprendi o que não devo ser. Um novo tempo para uma nova mentalidade. Será? Só temos a nós mesmos, e às vezes nem isso. Nesse caso, parece que nem tudo depende de nós. Um dia chuvoso para uma vida com lágrimas. É curioso como a felicidade dos outros nos influencia. Nós brigamos e “desbrigamos”. Um eterno retorno. Pelo menos, nós tínhamos a nós mesmos. Um eterno nó. Era um enlace. Saudade de nós. Continuo nervoso. Ou o quê? Por que esse sentimento de “perda”? A vida e suas surpresas. Somos tão competitivos, inclusive fora da competição. O fracasso é inerente a mim. De onde vem essa angústia? De minhas poucas lembranças? O mundo não é o que eu imaginei que fosse. E daí? Por que errei tanto? Um domingo. Uma chuva pela manhã. E uma melancolia extrema em meus pensamentos. Um dia, ela me ofereceu um sorvete. Eu, de modo negligente, rejeitei. Saudades da agradável situação de ser ridicularizado. Quem sou eu? Por que eu não consigo me ver? Perguntas inquietantes… Mas extremamente desnecessárias. A vida continua. Por que eu gostaria de esquecer quem sou eu? Mais uma vez fui mal nas atividades que faço. Até quando continuarei com esses hábitos? Eu sou um idiota. Eu continuo nervoso. E continuo com a sensação de “perda”. Todos os dias são, agora, chuvosos. Continuamos a adiar nossos planos — e nossas vidas. O mundo caiu. Mais uma vez. E continua a cair. Não adianta mais culpar a gravidade. Chuva. E as lágrimas são de mim. Chove. Mas as lágrimas são daqui. Chuva. Lágrimas, tristezas e choros. Minha sina. Minha vida. Mas, mesmo que mentalmente, um beijo nela. Um beijo de despedida. Um beijo de alegria. Como já disse alguém, as coisas só são previsíveis quando já aconteceram. Com ela, eu me sentia protegido das adversidades da vida e da incongruência da sociedade. Uma proteção. Quanta bobagem, não? A origem disso pode estar em uma necessidade infantil. Sem ela, o vazio existencial continua a me atormentar. Mas, com ela, também? Tempos sombrios continuam a vir; ou já estamos neles, de uma vez por todas.

Ventos da Vida — 10
Permanecer em Porto Alegre tem sido uma tarefa árdua nas últimas semanas. Os pensamentos, que influenciam meu humor e comportamento, continuam a girar na minha cabeça: livrar-me deles não parece possível; e trocar por outros, menos ainda. Mas, a vida segue, não? Afinal de contas, os inúmeros trilhos da vida, que eu me distanciei, estão no mesmo lugar. Talvez, eu tenha me distanciado de certas coisas que não deveria. Quem sabe? Ou quem saberia? Eu corro quase todos os dias. Uma tentativa, frustrada, de relaxar. A ansiosidade fica mais presente, mesmo com certo cansaço físico, que logo depois parece se transformar em um vigor. São padrões ou ciclos que se repetem — odiosamente por mim, nesse contexto. A falta de um afeto, de um carinho de e por um alguém que eu gostaria, perturba a minha pessoa. Fico irritado, triste, carente — e ainda outros estados emocionais mais conturbados. Por que há essa necessidade? O medo da solidão…? Por que eu tenho? Por que todos nós temos, em alguma medida? Escrever sobre essas coisas, nesses momentos, nesses períodos, parece me enojar. Há outras questões mais “importantes”. Mas, como um desabafo e como uma tentativa “enfadonha”, eu continuo a escrever. Um dia vai passar. Um dia passará. Mas o sentimento há de ficar “presente”. O passado não deveria me afetar tanto; ou eu não deveria remoer tanto meus sentimentos — dever e mais deveres. Qual é a origem dessa minha tristeza? Certamente, algo que pode demorar algum tempo para passar, se passar. Talvez, ela faça parte de mim e eu faça parte dela. Além disso, e parece sempre importante ressaltar, imagino que uma felicidade não existiria sem ela.

Ventos da Vida — 11
Um dia muito bonito e agradável foi o último sábado. Realmente, agradável. Com um sol gostoso e aconchegante. Parecia (e deveria ser) um dia “especial”. Contudo, era um dia qualquer, como os outros… Eu continuo (ou “sou”?) apático. Eu estou um pouco cansado da vida, cansado de relações, digamos, volúveis, superficiais, que não são “seguras”. Claro que relações assim são difíceis ou, no mais das vezes, “improváveis” — essa vida líquida, não? Por isso, é necessário um processo, como alguém sempre diz: leva um tempo para construir isso, para construir relações fortes e sólidas, para “compromissos”. Fico e estou profundamente irritado com relações descartáveis ou que podem ser desfeitas com facilidade. Agora, por exemplo, está sendo bem difícil esquecer coisas ou me ocupar com outras coisas. Se vou correr, sinto falta de algo. Se fico em casa, sinto falta de algo. Se falta algo, realmente sinto falta de algo. Se tenho algo, sinto falta de algo. Parafraseando algumas expressões, eu vejo algo ou alguém em todos os lugares que vou. Frutos da minha imaginação. Mas, nada há ali, nem poderia. Pois, elas estão em mim. No que estou pensando? Pensamentos demais podem causar angústias demais. Será que o que eu estou pensando outros também estão pensando? Hum. Pergunta impertinente.

Ventos da Vida — 12
Chuva. Choveu muito lá fora. Águas e mais águas. Há espaço para tantas lágrimas? Um dia, pelo menos, isso chegará ao fim. É o que esperamos e aguardamos. Hoje. A chuva parou, por um tempo. Mas, a alegria não voltou. A raiva. A ansiedade. A fissura. Tudo isso está tão pesado. Todos estamos tão solitários. Parece que não vamos aguentar, mesmo sabendo que tudo isso um dia vai passar. São coisas que acontecem. Alguns planos dão errado. Alguns planos podem fracassar. As expectativas se vão, outros nos entristecem, outros nem tanto. Não somos muito “flexíveis”.

Ventos da Vida — 13
Eu falhei em tantos planos. É normal, não? São coisas que acontecem. Falhamos. É simples. A vida não para e não deixa de continuar com as nossas falhas. No entanto, as falhas fazem parte de nós — elas permanecem, elas são “recordações”, ou um algo mais? Quando deixarei alguns de meus planos e me importarei, digamos, com pequenos prazeres da vida, como, por exemplo, um descanso agradável nesta noite, sem ansiedades robustas pela manhã ou pela madrugada? Por quanto tempo isso ainda continuará?

Ventos da Vida — 14
Antes, era uma tarefa banal, corriqueira e simples (e alegre): acordar. Hoje, algo que, em certos momentos, não desejo, nem parece desejável. A possível relação entre ansiedade e acordar, para mim, é intensa — e dolorosa. Os sonhos poderiam continuar sendo meramente sonhos. Mas não, há uma “realidade” lá fora — e aqui dentro — que precisa ser desbravada, ou pelo menos “conhecida”. Não é curioso como as “mesmas” palavras, as “mesmas” expressões, os “mesmos” comportamentos são percebidas de modo muito diferentes por cada um de nós, e como essas “mesmas” coisas impedem (ou ao menos dificultam), de fato, uma comunicação entre as pessoas?

Ventos da Vida — 15
Eu pensava, ou eu costumava pensar, que o “fracasso” me perseguia. No entanto, por um motivo óbvio, devo discordar disso. Afinal de contas, o fracasso faz parte de mim. Eu sou o fracasso completo. Minha vida é um fracasso. Eu fracasso em meus compromissos. Por quê? Sim. Porque sou um fracassado. Não tenho mais condições de reverter minha sina. O fracasso é imanente. E por qual motivo isso? Onde falhei? Por que falhei? O certo é que eu sou “falhado”. Talvez, por isso, todos riem da minha vida… E eu rio de tudo isso. Eu rio. A vida é o aqui e o agora. Nada há depois. Se há, pouco nos importa aqui e agora. E como então reconciliar esse caráter da vida com a constância (ou a permanência) dos meus fracassos, das minhas frustrações? Não posso desistir dos meus fracassos: afinal, eles são meus. Eu fui derrotado? A vida (ou a moralidade ou a sociedade ou sabe lá o quê) me ganhou? Ou eu desisti? O que houve? O que há? Não importa. Se eu perdi, perdi o jogo para mim mesmo. Como superar uma dor que se diz “existencial”? Como superar qualquer significado óbvio para a vida e para a inevitabilidade da morte? Como, nesse caso, viver? Enfim, espero que um dia, mais ou cedo mais tarde, isso acabe — e acabará.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.