04 — Devaneios Enviesados
Ontem (o tempo aqui não importa), alguém me encaminhou uma mensagem virtual, pois, segundo ela, eu a ignoro. Como não ignorar? Uma beleza dela me hipnotiza e me cativa. É uma “medusa”: fico petrificado ao vê-la. É preciso, digamos, livrar-me disso. Porém, ela se sente “mal”. Por que se sentiria? Ela mesma disse que eu sou inconveniente e inoportuno. E mais. Os meus comportamentos, em muitas casos, são infantis e ridículos. Como não seria? Eu sou uma criança adulta. Aliás, como é a sensação de falar com alguém que não está nem aí para ti, mas, que mesmo assim você a considera muito? Que gestos, que atitudes, que comportamentos, que pensamentos, a gente pode “tirar” de casos assim, por exemplo?
Os mais esdrúxulos, com certeza. A racionalidade pouco se faz presente nesses casos. Há uma mistura grande de sentimentos. O que eu gostaria de fazer? O que estou sentido? Para que lado eu vou? Sinto-me em um cabo de força sendo jogando pelos diversos sentimentos que estão aí — e por outras coisas. Ah! Sinto raiva, amor, ódio, desgosto, desprezo. São tantas sensações. Em vez de algo a fazer, nada faço. Sei que, por experiência, o que fizer, de nada irá adiantar.
Aliás, é curioso: quantas vezes eu me comportei desse modo que tanto me machuca agora? Não há mais o que falar. Tudo já foi dito — e nada. Duvido, apenas, que ela esteja se sentindo “mal”. Talvez, ela tenha escrito aquilo com o intuito de me provocar. Talvez não. Como irei saber? Por que ela iria querer conversar comigo? Bullshit. Bobagem… Essa reviravolta de sentimentos é uma palhaçada comigo mesmo. Eu sou escravo e o mentor disso tudo?
Nunca procurei a palavra “babaca” no dicionário. Vejamos o que pode constar em um desses livros. Há três tipos de significados: (i) alguém que é muito ingênuo — o que parece ser o meu caso; (ii) alguém que tem pouco inteligência ou capacidade de decisão — o que, em partes, é o meu caso; (iii) e, de modo informal, alguém que não é estimulante, interessante ou relevante — sim, certamente esse sou eu. No mais das vezes, eu penso que eu sou um cara legal. Rá. Quanta bobagem. O que acontece é que somente pareço ser alguém legal — lamentável esse mundo das aparências, não?
Então, por mais uma vez, passei todo o tempo pensando nela. E somente nela. É algo perturbador. É como se o universo, como dizem algumas lendas, não estivesse organizado. É um caos… Falta algo. Faltam tantas coisas. E isso me incômoda. O que está faltando? Essa sensação de vazio, e de ausência de suporte. Cadê a minha sustentação, a minha base? Em que eu me apoio? Ou, a pergunta certa, eu deveria me apoiar em algo?
Ultimamente, tenho escrito várias coisas. Uma tentativa de aliviar as “pressões” e as “emoções” que sinto. É uma maneira de fugir da realidade, de me distanciar do que está acontecendo. Contudo, eu não escrevo bem. Minhas ideias parecem tão claras em minha mente, mas, no papel são confusas e enfadonhas. Repetitivas e sem graça. Exímios escritores como Goethe e Proust já escreveram e muito sobre o que eu quero escrever. É como se tudo já tivesse sido dito. Só me restaria o silêncio — e a leitura. Ou será que fiquei tanto tempo em silêncio e agora não consigo mais suportar nem aguentar? Pode ser que a raiva que sinto pela vida tenha atingido um ponto tal que é preciso descarregar o que há dentro de mim. Mas, eu sou vazio. Nada há aqui.
Poucas conquistas tenho na vida. Podem até dizer que sou jovem agora. O tempo passa e passa e eu mais e mais o perco. Não resta muito a mim. Muitas de minhas “tentativas” fracassam, fracassaram e fracassarão. Não sou alguém muito ambicioso; só que o pouco que desejo, eu não o consigo. Ausência de “esforço”?
Na primavera, as flores vem e vão. O meu fracasso e a minha frustração permanecem — ainda. E é claro, os problemas também. É tudo muito curioso. Será que eu escreveria se não tivesse problemas e/ou reclamações? Elas fazem de mim um rapaz pessimista? Quem sabe: a vida continua. Tanto a minha vida, como a da Alice. Nada posso fazer quanto a isso. Apenas, viver — com o mais profundo desgosto pelas coisas, talvez. E sorrindo, para tentar enganar o tempo. Contudo, eu não me sinto bem, no mais das vezes. E, por outro lado, e é claro, há tantas belezas e maravilhas por aí. Não nos esqueçamos disso.
Como se sentir bem? Como se sentir feliz? Como ter gosto pelas coisas da vida? A busca pela felicidade parece ser um idílio, um sonho. Um senso comum afirma, em alguns casos, o seguinte: a felicidade está nas pequenas coisas, nos pequenos gestos. O que se quer dizer? O que o caráter efêmero — e tão vazio — da felicidade nos ensina? Os altos e baixos que a vida nos proporciona são, no mais das vezes, senão curiosos, no mínimo, engraçados. Muitos enlouquecem. E não é por menos. Aguentar toda essa tempestade de sentimentos exige alguma capacidade. Eu não consigo ficar indiferente ao que se passa, na maior parte do tempo. Como alguns conseguem sem esforço? É apenas mais uma das minhas inúmeras fraquezas.
A troco do que eu fico esperando uma mensagem dela? Cada mensagem que chega até mim, eu suspiro; tenho medo de olhar; espero e espero angustiado; imagino que a mensagem possa ser dela; mas não é. Quando terei algum sinal? Sinto-me desprotegido sem as palavras dela. O dia não pode, nem poderia, começar sem ao menos uma indicação de como ela está. O que ela faz? Será que tenho o “direito” de saber o que se passa com ela? Há um machismo enrustido em mim? O que se passa em meu inconsciente, em meu consciente, em meus pensamentos automáticos, em minhas crenças? O que eu, realmente, quero? Ou eu sou muito controlador e possessivo? Aliás, eu devo ser — sim, eu sou. Ela não pode ser feliz, sem a minha companhia. E veja bem: como eu posso pensar isso!? Tudo tão irônico e risível. E mesmo assim, são circunstâncias da doce e da ácida vivacidade.
A relação entre raiva e falta de respostas parece intricada. As conversas por mais demoradas que possam ser, nada significam, nada é resolvido. Falar e falar, de que adianta? Os problemas ficam. As questões permanecem. E a angústia cresce. Os sentimentos vem e vão. E só. Eu não os sinto em sua integridade, em sua “volúpia” intensa. São sentimentos fracos. Eu quero tanto sentir o que jamais poderei saborear. E, além de tudo, sou inconveniente — e por que não, desprezível? Ela está aqui… E eu não a posso tocar. Ela me vê todo dia — ou eu penso que ela me vê. E eu não posso vê-la — eu não a quero, e depois eu a quero. Eu não posso tê-la. Ou melhor, é ela que não me quer. Por que iria querer? É um erro falar. É um erro discorrer. Hunf…! Sempre cometo esses erros. Pelo menos, sou coerente em falhar. Não posso prometer algo que não irei cumprir. E continuo a prometer?