05 — Desconcertamentos

Frederico M. W.
Jul 28, 2017 · 11 min read

Eu gosto dos tempos bem nublados e cinzentos. Há cerração por todos os lados aqui. É certo que há tempos para todos os gostos. Os nossos humores mudam com frequência — talvez por que enojamos da “estabilidade” por muito tempo. Uma “felicidade” eterna ou constante nos aterroriza. Esses tempos tão “fechados” me agradam porque sinto um pouco “protegido” — mas, do quê? Eu não tenho o hábito de me expor aos outros, e, se me exponho, é sempre com um pouco de cuidado. Uma vergonha e uma timidez ainda são muito presentes em mim — enfim, situações e substâncias peculiares pode até nos auxiliar nesses pontos.

Há um costume em dividir em etapas a vida dos homens: somos crianças, depois adolescentes, e também adultos. Claro que, conforme as propostas teóricas, há muitas diferenças nas terminologias. E as três que eu mencionei são, em certo sentido, grosseiras. Mesmo que em muitos momentos não saibamos como distinguir ou delimitar aquelas etapas, temos uma convicção de que na idade adulta somos mais responsáveis em relação às outras — até mesmo na área jurídica essas etapas são percebidas, como, por exemplo, civilmente, no caso dos absolutamente incapazes, dos relativamente incapazes e dos capazes. Porém, é uma suposição certa? Pelo menos, ela me parece plausível, apesar de que ela deve ser vista com receio e cuidado. Afinal, o que acontece nas etapas anteriores também tem um papel fundamental — e crucial — no desenvolvimento do sujeito.

O que eu quero? O que eu desejo? E por que tudo isso? Por que eu faço o que eu faço? Somos infantis — e nós somos em muitos momentos. Ainda mais nos fatos envolvendo relacionamentos, quaisquer que sejam. Esses “famosos” problemas da vida. Como somos tão ingênuos. Queremos coisas e nossas vontades são tão melindrosas.

Observando a “rotina” das pessoas através de câmeras de videomonitoramento, nota-se o quão a vida é sem graça, sem gosto. Como se faltasse aquele tempero — e como precisamos desse tempero! A culinária não é o meu forte. Seria incrível fazer o que os “chefs” fazem com tamanha habilidade. Quem sabe, a vida não seja tão diferente do modo como são feitos os alimentos. Muitas dedicação e trabalho se deve ter na escolha da matéria-prima, dos instrumentos, etc. Já há todo um tempo restrito somente a isso. Por fim, quando o prato está à disposição em nossa mesa, nós saboreamos o resultado, com gosto. Porém, o que levou, talvez, horas para ser concluído, é “exterminado” em poucos minutos — do mesmo modo que a nossa felicidade. Nesse caso, ficamos de barriga cheia e nos entediamos. Cansamos de tudo. E é isso. Fim. De mais um etapa.

Eu tenho o costume de ficar mais tarde no trabalho. Em algumas vezes, eu adianto alguns serviços; em outros, fico lendo alguma reportagem ou estudando algum assunto. Acho esse ambiente de trabalho mais propício para aquelas atividades. E aqui, sinto-me mais produtivo. Eu posso estar enganado, mas, em grande parte de minha vida, fiz as coisas, de certo modo, sozinho. Não haviam companhias. Ou, ao menos, realmente eu me sentia apenas só. Não sei o que dizer. Minhas “namoradas” eram incríveis, sensacionais. Não tenho nem tinha do que reclamar — apesar de quase sempre “reclamar”, e de minhas intenções com esses gestos não ser bem compreendido por elas. Nesse caso, o problema parece ser comigo. Eu meio que sou o(um) problema.

Agora, ainda mais nesses dias chuvosos — não nas tempestades intensas, mas sim naquelas garoas fracas e frequentes, “típicas” de um outono porto-alegrense — a solidão é mais real. Eu a sinto rasgando a minha pele e destruindo aquilo que supostamente chamam de alma. O desânimo em viver é corriqueiro. Como viver, sem poder compartilhar as poucas alegrias de nossa vida? Escrevendo, talvez, eu consiga esquecer e seguir em frente. Nem sempre é o caso. Pode ser, inclusive, que apenas fortaleça minha tristeza. Uma tristeza não em relação à vida, e sim, a minha vida. Eu sinto que fracassei, que falhei. Contudo, segundo certa perspectiva, são alguns pensamentos automáticos, digamos, inadequados.

Quase todos os dias da semana, eu a via. De um modo ou de outro, eu encontrava a Alice. Não precisava ser algo simplesmente físico. Eu a via em outras situações imaginativas. Ela estava comigo. Gostava de saber que a tinha (e esse delicado problema dos pronomes “possessivos”?) por perto. Ou melhor, eu não a tinha — ela não me quer; isso já foi dito. Mas, só de pensar que eu sei onde ela está e com quem está, sentia-me de certa forma “aliviado”. É um sentimento de “posse”? Sim. É algo um tanto quanto egoísta? Sim. Porém, parece que o que nós amamos com certa força, nós nos atemos com afinco. Queremos somente para nós. Ou isso não é “amor”? O que sabemos sobre tal sentimento? Tudo o que eu amei, eu quis apenas para mim (mas nem tanto). Os sentimentos não são racionais ou “lógicos” — nem sei direito o que exatamente significam tais vocábulos. Eu sou um “caos”, diante de tudo isso.

Não sei se faz parte de nossa “natureza” ou de nossa “condição”, mas parece haver certa necessidade de compartilhar diversas coisas com os outros…! Queremos nos mostrar aos outros. Queremos, além disso, fazer parte da vida dos outros; em especial, da vida de quem gostamos. Não é à toa que ficamos tão mal ao sermos excluídos da vida de quem nós tanto nos importamos — e ao lado de quem nós queremos estar. Seria isso uma característica “mamífera”? A infância desses seres é a mais longa e duradoura — não conseguimos sobreviver, no início, sozinhos. É preciso de carinho e de cuidado de outro. E tudo isso para quê? Afinal, nossa ânsia para a seguinte pergunta algum dia será satisfeita? Isto é, estamos aqui para “o” quê?

Em algumas oportunidades, eu tenho estado mais confortável. Desconheço os motivos ou as circunstâncias em que isso ocorre. A Alice. Eu a vejo feliz e sorridente. São imagens gostosas de ser ter na mente. O rosto e as feições dela são maravilhosas. Eu gosto tanto de a observar. Só não queria ficar somente nisso. Eu fico confortável porque ela está feliz, ou porque ela apenas aparenta estar feliz. Como vou saber? Nem, ao menos, consigo falar direito e demonstrar todos os meus sentimentos em relação a ela. Contudo, de que adiantaria? Ela não o quer, caro senhor. Fica a pergunta, nesse caso: quem o irá querer? Eu tenho poucas características “fortes” ou habilidades “peculiares”. Não me destaco dos demais. Hunf!

A vida e ponto final, foi o que me disse um amigo. A vida… A ironia de nossos sentimentos é algo muito desconfortante. Uma mera e ingênua troca de palavras pode nos inflar dos sentimentos mais amorosos. Porém, em outra perspectiva, as mesmas situações podem nos trazer sentimentos muito mais complexos e negativos. Como “controlar”? É algo que foge de nossos patamares? Ou é apenas uma reação a estímulos? Não sabemos como agir. Não aprendemos como se comportar nesses casos — nem em outros. Eu sinto raiva e desgosto quando a felicidade de quem gostamos não dependente de nós. Não me sinto produtivo. Não me sinto útil.

Outras vezes, sinto-me mal ao vê-la. Sinto-me bem estando ao lado dela. Sinto-me triste quando ela está com os outros. Sinto-me desprezado quando ela não está comigo. Como posso me sentir tão horrorizado? E agora? Antes, não haviam sentimentos de dúvida. E tudo parecia mais fácil, não é verdade, Alice?

Não sinto tristeza, nem felicidade… Eu não consigo me expressar. Algumas das tarefas do trabalho são desagradáveis, até certo ponto, devido mais a falta de “vontade política” em resolver os problemas do que ao assunto do serviço. É curioso pensar como muitas coisas poderiam ser melhor feitas ou elaborados com certo “capricho”. Porém, grande parte dos servidores está pouco se lixando ou se importando com a coisa pública — isso não nos diz respeito, é o que pensam. E quem sou para tentar “resolver” tais questões?

Pensando um pouco melhor, imagino que os meus planos não tenham sido bem sucedidos. Fiz o contrário do “correto” ou do adequado. Eu desejava ficar com alguém e com esse alguém desvendar os mistérios da vida. Apreender com alguém. Compartilhar com alguém. Pensava que tinha a encontrado. Não houve grandes viagens. A nossa ou a minha felicidade estava nos pequenos gestos ou momentos ao lado dela — tão doce, jovial. Os ínfimos momentos de prazer, de satisfação com ela e dela eram o meu maior tesouro.

Sinto saudade — e muitas saudades — dos “toques” dela. Ela gostava de objetos, de assuntos, de temas, de coisas, tão legais. Mas, de onde via meu mal humor? Devido a uma posição econômica deficitária? (…). Gostava tanto dos gestos dela. Onde agora eles estarão? Com um outro alguém? E como fico “chateado” nesses casos. Esse sentimento absurdo e, talvez, inevitável de posse. De onde ele vem? Por que quero ela só para mim? Eu sei que eu não deveria sentir isso, mas como ignorá-lo? Como se desvencilhar dessas sensações? Ela era o meu vício. E agora? Como superar? Trocar um vício por outro?

Eu não tenho notícias dela. Porém, aquele cheiro ainda está impregnado em mim. A maciez do corpo dela. As melaninas no rosto. As feições do nariz. O corte de cabelo. Os detalhes da curva dela. Isso tudo é tão sugestivo e gracioso. Mesmo assim, não tenho notícias. Nossa! Nada... Como isso me entristece tanto? A infelicidade ocasionada pelo “fracasso” é desconcertante. E profundamente irônico. O que queria que jamais acontecesse, aconteceu. O que eu pensei que não pudesse mais acontecer, aconteceu. É a parte desse ciclo da vida que eu mais fico angustiado. As bases dos meus sentimentos estão abaladas. Não sei a quem recorrer.

Aquela velha sensação de “vazio” e de não saber o que fazer perpassa pelo meu corpo. Onde encontrarei — se é que encontrarei — alguém como ela? A Alice é única? Ou todas são a Alice? Ou essas são perguntas estupendamente descabidas? Não são meras palavras jogadas ao vento. De outro modo, eu sei que esses sentimentos e esses ideais são bobagens. Mas, algo em mim custa a acreditar — há uma moralidade em mim que é difícil de se desvincilhar. Eu não consigo. É tão custoso. A Alice tinha me oferecido e me proporcionado outra visão e outro gosto pela vida. Tudo isso se foi? A minha mente não consegue nem conseguirá esquecer os momentos e as situações que tanto marcam a minha alma.

No mais das vezes, eu divago sobre o porquê de algumas atitudes ou de alguns sentimentos meus. Por que a minha “depressão” é tão intensa? Eu não consigo ser “alegre” o tempo inteiro, já dizia um grande cantor. Por quê?

Eu gosto — e amo — todas as “curvas” dela. Cada pedacinho daquele corpo. Mesmo assim, sinto toda uma raiva por não ter mais “acesso” e contato com ela. É agradável ter alguém por perto. Ainda mais quando esse alguém era ela… O “amor”, se é que existe ou seja lá o termo que preferir, tem dessas coisas. Por outro lado, é certo que o amor não se resume a isso. Não é só de prazeres ou de felicidades que um relacionamento está sujeito. Brigas. Discussões. Mal entendidos. Ódio. Diversos outros sentimentos fazem parte desse “jogo” ou dessa interação social.

Estou desprotegido das adversidade da vida. Ela que tanto me acompanhou, que tanto me auxiliou, não está mais comigo. A vida tem dessas coisas? Sim. Infelizmente (ou felizmente). O fato dela (ou de qualquer alguém em que há um afeto de nossa parte) dizer que “nunca mais quer me ver” é extremamente desagradável. Como isso me machuca? Saber que não a terei mais em meus braços: angústia sem precedentes na minha curta história. É deveras curioso o quanto precisamos compartilhar as nossas vivências com alguém. Nós temos uma profunda necessidade de socializar o que estamos sentido. Talvez, por isso, os lucros com as redes sociais são quase sempre enormes.

No fundo, parece que queremos “sugar” a energia dos outros. Aspiramos a beleza e o conhecimento dos outros. Queremos ser quem não podemos ser — jamais. Por que o gramado do vizinho é sempre mais verde? Porque ele não é nosso. Em muitas oportunidades, não gostamos do que temos. Não “demonstramos” o valor, apesar de ele estar ali. De algum jeito.

A vida não é um conto de fadas e percebemos isso de um jeito doloroso. Uma dor de cabeça. As noites sem dormir. Aquela insônia maldita. O desespero. A aflição. O fim. O “apocalipse”. Essa aflição acompanhada de certa o(de)pressão e de tristeza. Somos apenas um pedaço de matéria sem sentido algum. Isso é a vida! Criamos personagens na vida. E alguns interpretam bem, outros nem tanto.

O jeito é seguir a “orientação” de um velho amigo. Não sei se é o caso, mas parece que não devemos levar a vida muito a sério — não vale o sacrifício…! Eu só não tenho ideia nem sei o que fazer com as minhas poucas lembranças — que são, por enquanto, intensas e vívidas. Há um medo de ficar sozinho, de não ter com quem conversar ou de não ter alguém para compartilhar. Que agonia tenho dos meus próprios sentimentos. É só o tempo que fará com que a minha dor seja menor?

Em alguns casos, em especial nos domingos, há uma sensação de “tristeza”. É um dia atípico. As expectativas do dia são anormais — eu não sei o que esperar. O vazio. A “semi-tranquilidade” do dia. O silêncio. O vento tocando com leveza nas folhas. As folhas amarelas caindo. Os casais de namorados caminhando, sem sentido ou sem propósito, em direção à Redenção ou ao Guaíba. As nuvens em seus variados formatos. Os sons dos mais variados pássaros. Não sei. Observar esses movimentos do dia até que são interessantes e eu gosto de observar.

A ausência de um carinho — de alguém — ainda me perturba. Esse é um dos motivos, talvez, pelo qual eu escrevi tantas cartas. E de onde vem a minha necessidade de atenção ou de ser bem visto pelos outros? É fundamental um cuidado nas escolhas das palavras. A má — não por maldade, mas por negligência ou imperícia — interpretação sempre está por perto.

Considerando a minha família, eu sou o primeiro filho, o primogênito. Diversas expectativas giram e giravam em torno de mim. Imagino que de maneira inconsciente eu devia cumprir com as minhas responsabilidades e obrigações ou o que eu achava que eram minhas. Segundo o que consta, o meu nascimento foi, de certo modo, planejado. E o planejamento faz parte de mim, o que é irônico, pois, poucos são os casos em que eu cumpro devidamente com os meus planos. No final, sou desleixado.

Por outro lado, gosto e prezo muito pela ordem e pela organização. Eu tenho uma dificuldade, por exemplo, em me concentrar se alguns objetos ou algumas situações estão desorganizadas. É um problema psicológico? Deve ser. A mania de limpeza. A mania de colocar os objetos ordeiramente nos seus espaços. E eu tenho mais medo de quê?

Tentando analisar um pouco essa situação embaraçosa dos domingos, lembro-me de que em quase todos os domingos havia um churrasco na casa dos meus avós. Aquele velho encontro familiar. Primos. Tias. Tios. Parentes distantes. Que “felicidade” era aquela? Muitos anos depois, eu fiquei sabendo que meu avô era alcoólatra. Um problema grave — como são em geral os problemas. A dificuldade em se livrar de um vício é assustador. Não sabemos o que fazer. O conflito entre nossos desejos de primeira e de segunda ordem são intensos. Por isso, um controle de nós mesmos se faz necessário. Em muitos casos, perdemos a batalha, e até a guerra. Não é fácil.

O avô, naquela tentativa de substituir um vício por outro, estava tomando muito sorvete. Um vício, digamos, mais doce. Meus primos, meu irmão e eu íamos direto ao freezer conferir se havia um pouco de sorvete. Éramos crianças. Desconhecíamos os problemas de nossos avós e aquelas conversas “maduras”. Esse tipo de preocupação não fazia parte da “jovialidade”. Será que faríamos o que fizemos se soubéssemos que o nosso avô não gostava? É difícil saber. Nem sempre faríamos diferente. O erro é algo quase constante.

    Frederico M. W.

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    Um mero alguém que escreve meramente algumas coisas.