11 — (Soli)loquiar
Há sonhos que sempre me atormentam. Mas, na verdade, não é um sonho, é a minha própria vida. Eu pensava, ou eu costumava pensar, que o “fracasso” me perseguia. No entanto, por um motivo óbvio, devo discordar disso. Afinal, o fracasso faz parte de mim. Eu sou um fracasso completo. Eu fracasso em meus compromissos. Minha vida é um fracasso. Eu sou o fracasso. Por quê?
Porque sou um fracassado. Há condições para reverter isso? Não tenho mais condições de reverter minha sina. O fracasso é imanente. Onde falhei? Por que falhei? O certo é que eu sou “falhado”. Talvez, por isso, riem da minha vida. Eu rio de tudo isso. Eu apenas rio.
A vida é o aqui e o agora. Nada há depois. Se há, pouco nos importa, aqui e agora. E como então reconciliar esse caráter da vida com a constância (ou a permanência) dos meus fracassos, das minhas frustrações? Não posso desistir dos meus fracassos: afinal, eles são meus. Eu fui derrotado? A vida (ou a moralidade ou a sociedade ou sabe lá o quê) ganhou? Ou eu desisti? O que houve? O que há? Não importa ou pouco importa. Se eu perdi, perdi esse jogo para mim mesmo.
Dizem, e parece plausível considerar, que as necessidades da infância persistem em nós. Por que precisamos de algum modo ser assistido em nossos atos? Por que precisamos de plateia em nossas vidas? Como superar uma dor que se diz “existencial”? Como superar qualquer significado para a vida e para a inevitabilidade da morte ou do que não volta mais? Como, nesse caso, viver?
Há um sentimento de vacuidade nas relações e na vida tão e tão presentes. Por que essa sensação de vazio se faz tão presente e forte? O que há pressuposto aqui? Outros dizem que andar bem o caminho é mais importante que chegar. Isso parece adequado, mas, ainda, parece implicar que há alguma frustração ou algo parecido quando se “chega” — ou é apenas mais uma de minhas visões negativas?
Dias que passam e passam e que chegam a lugar algum. Até quando? De qualquer modo, não consigo parar de pensar no que eu fiz da minha vida. Muitas das minhas escolhas foram, e continuam a ser, erradas ou descabidas. Talvez, eu teria um outro futuro. Talvez, não. Tais divagações não são importantes. O que eu preciso fazer, então, para mudar meu futuro, agora? Não cometer os mesmos equívocos? Já seria um passo interessante. Será que as minhas pernas conseguem me acompanhar?
Escutar e, mais do que isso, apreciar uma boa música é o que tanto parece faltar às pessoas, ou pelo menos para mim. E que sensação agradável! Eu. Apreciar. Isolado. E, ao mesmo tempo, acompanhado de certa melodia. Calma. Tranquilidade. Paz.
No serviço público, e talvez na vida de modo geral, há certa tentativa recorrente de nos livrarmos das responsabilidades. Nós não queremos assumir responsabilidades. Por que nos esquivar? É como se tivéssemos algum tipo de medo.
O problema da liberdade parece ser um problema humano. E caso outros também tenham tal problema, não seria propriamente um “problema”. De qualquer modo, qual é o ponto? Quando podemos ser livres? Ou quando a liberdade pode ser algo exercitável? Será que somos livres apenas quando podemos determinar as nossas vontades? Será que o que nos diferencia de outros seres é uma capacidade “justificativa”, afinal, de certa maneira, nós podemos escolher vontades em vez de outras? Isso parece sugerir a vontade como, pelo menos, um dos núcleos do fenômeno da liberdade, se é que ele existe.
Eu não sei o que quero. Provavelmente eu nunca, de fato, soube. Alguma vez eu já quis? Quero tantas coisas fora de alcance. Quero tantas coisas que já tive. Eu quero tantas coisas que jamais vou ter. Como é possível que eu possa controlar o que eu quero? Ou é o que eu quero que me controla? O que eu desejo sou eu realmente quem deseja? Isso são apenas tergiversações: a vida continua e não para.
Quais são os nossos desejos e por que desejamos o que desejamos? Compreender os nossos desejos é uma maneira de compreender as razões de nossas vidas. Se há, digamos, um investimento em nós mesmos, é interessante perceber o que de fato eu considero importante para mim mesmo. O nosso comportamento, no mais das vezes, não é o que imaginamos: não funcionamos só com estímulos — nossas fronteiras não são permanentes, como já disseram muitos.
A vida não é fácil. E ninguém disse que seria. Há dores e decepções. As felicidades são raras e, no mais das vezes, esquecidas — ou lembranças fugazes e remotas. Que tarefas faremos aqui? Há alguma? Alguns sabiamente dizem que estamos aqui para fazer coisa alguma. A vida é penosa. Seria a morte uma redenção? Para alguns sim. Outros nem tanto. Ou meramente uma parte natural e emblemática da vida.