17 — Uma Carta para a Alice

Frederico M. W.
Aug 27, 2017 · 5 min read

Bom dia, boa tarde e boa noite, Alice,

Sou eu. De novo e, novamente, meus pensamentos me incomodam. Eu já havia escrito alguma carta para vossa senhorita. Algumas correspondências, tu recebestes; outras sequer foram enviadas; muitas nem foram formalizadas. Se as leu? Nunca saberei. De qualquer modo, os pensamentos são meus, e nesse caso, os problemas são meus. Isso não deveria e não deve lhe dizer respeito. Mas, como talvez um procedimento terapêutico, e como não posso compartilhar minhas frustrações, e minhas (poucas, é verdade) conquistas contigo, compartilharei comigo mesmo aqui, nesse semi-solilóquio.

Dizer que sinto saudades de ti é uma banalidade. É uma “saudadinha”, como dissestes. Nada mais, não? É, de fato. Provavelmente, seria agradável viver se os sentimentos fossem mais “sensatos”, ou se nós nos comportássemos de uma forma mais “adequada” ou “controlada” (“racional” seria a palavra que gostaria de utilizar, mas a razão não tem uma história muita elegante e promissora) — nem sempre nós nos comportamos assim, nem sempre queremos, nem sempre é possível.

E o que isso significa? Por que desabafar aqui? Por que essa vontade de escrever? Por que não ficar calado, no meu canto? Por que se manifestar? Não sei. Eu sinto falta do teu carinho, do teu afago, do teu calor, de ti. E eu estou sozinho. Ou melhor, mentira, não? Nunca estamos sozinhos. Com nós mesmos estamos. O medo de ficar sozinho, de não ter uma companhia com quem compartilhar as adversidades da vida, é um medo “ilusório”, em certos momentos; em outros, por sua vez, muito real e cruelmente doloroso.

Há ainda um vazio, um cansaço existencial, digamos. Coisas de nossas mentes? Mas bem, o que faltaria para preencher esse vazio em mim, Alice? Ou isso é só uma bobagem e o sintoma de alguma disfunção neurológica de minha parte? Eu converso com poucas pessoas e, na verdade, eu raramente falo — sempre foi assim. Eu havia me esquecido desse detalhe peculiar nas inúmeras conversas que tive contigo, que agora tanto me incomodam. Inclusive, é desgostoso não saber o que tu andas fazendo (ou eu seria um controlador ao pensar isso?), nem poder contar contigo ou contar a ti.

Mas, contudo, porém, a vida é feita de momentos. Muitas vezes não percebemos isso ou simplesmente não queremos acreditar. Às vezes, nossa mente dá passos a mais em alguns pensamentos e nós nos perdemos nesse caminho: saímos da trilha. Como superar isso e retornar ao trilhos? Além disso, não sabemos lidar muito bem com despedidas. Eu, pelo menos, fico me remoendo. Eu me arrependo do que fiz, do que não fiz, do que deixei de fazer, do que poderia ter feito, e para variar quase nunca demonstro isso. Como diz uma canção, se arrependimento matasse, eu estaria em um cemitério qualquer.

Houve uma vez que cheguei ao apartamento depois de um futebol, e eu fiquei te olhando. Tu estavas dormindo, simplesmente dormindo, Alice. Parecia tão delicada, tão desprotegidamente confortável e bela dormindo. Um idílio. Eu gostava de te ver, de ficar só te olhando, e nada mais. Muitas vezes, tu me perguntavas por que eu te olhava tanto. Desconcertado, dizia que era pelo simples motivo de que tu és muito bonita. Era (e é) agradável vê-la. Era gostoso. A noção de tempo, de espaço se perdia — as próprias noções se perdiam. No entanto, hoje, muito tempo depois, eu gostaria de não sentir o que sinto quando penso em ti, quando vejo as tuas fotos, quando vejo o que tu curte, quando leio o que tu escreve. É uma espécie de ciúme, algo assim. Há um dor sutil no peito, e algumas fisgadas e rasgos no coração. É difícil me desvincilhar de tais sensações.

Nesse caso, quanto tempo falta para a gente fingir que nunca se conheceu? Somos indiferentes e diferentes. Somos egoístas. Há uma necessidade, ou a minha necessidade em querer te ter. Há um sentimento de posse enrustido em mim, para alguém que não tem história e que fica ansioso por uma. Eu fico bem quando não penso em ti. Eu fico bem quando consigo não pensar em ti. Mas, nos momentos mais inapropriados, quando menos espero, surgem lembranças e mais lembranças de ti. E eu não fico bem. Há uma tristeza que me persegue e que não sai de mim. Talvez, ela faça parte de mim e seja eu mesmo. Ao que parece, e pelo menos, eu “sempre” fui assim, pelo menos — meio que um sádico comigo mesmo.

Queria que as coisas ficasse “bem”, um dia. Queria ter forças para suportar, para vencer esses pensamentos ou para contorná-los. Mas ironicamente, a força está contigo, e não mais comigo. Eu a perdi.

Certa vez, pedalando noite adentro na orla vazia em Porto Alegre, eu vi algo que não via há muito tempo, ainda mais numa cidade com muita poluição luminosa: uma estrela cadente — que, infelizmente, não era vosmecê. Eu queria, e muito, ter te ligado e contado isso. Eu queria falar contigo. Eu queria que tu estivesse ali comigo para ver aquele pequeno e rápido feixe de luz no céu. Eu queria apenas de te ver de novo. Contudo, do mesmo modo que a estrela cadente, você se foi, e nunca mais apareceu — desapareceu tão rápido quanto surgiu. Somente as lembranças aparecem e reapareceu, às vezes mais vívidas, outras vezes nem tanto.

Mas, diante de tudo isso, Alice, querendo ou não, esquecendo ou não, correndo ou não, todo dia é um novo dia. E, todo dia, eu espero dormir bem, para que todas essas angústias, essas melancolias um dia passem, e eu acorde melhor, sem a tua companhia.

As nossas conversas (intensas na minha grosseira perspectiva) pautadas por tantas vírgulas, agora, nesse delicado momento, precisam de um simples ponto, um ponto final. Por ora, novos parágrafos não serão mais necessários. Talvez eu ainda goste de sentir a tua falta, de ficar te imaginado, Alice. Em muitos casos, como nos relacionamentos (e no nosso), as explicações não são fundamentais. Nem sempre temos as explicações que queremos, e se temos, não acreditamos muito nelas, ousamos não acreditar. Uma resposta “racional” seria que eu não poderia fazer algo se a senhorita realmente quisesse ir embora. E qualquer coisa que eu pudesse fazer, e que pensei em fazer, não seria bem vista aos seus olhos, e talvez nunca teria sido.

E, Alice, você se foi. Você não era para mim, não era, certo? Os pronomes possessivos ainda são um mal nesse mundo moderno e pós-moderno. Mas, mesmo racionalmente, tudo isso ainda dói, e continuará a doer. Sempre irá doer. Sempre me sentirei mal por isso. Os advérbios de tempo também são outros males daqui. A gramática é um mal necessário, não? Eu não deveria me importar. Contudo, isso é somente o que você pensa a meu respeito: eu me importo de um jeito que para ti não importa. Mas, a vida continua a continuar.

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    Frederico M. W.

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    Um mero alguém que escreve meramente algumas coisas.