A criança e o louco.

4 dias de enxaqueca. Visitar a casa de minha infância foi uma paulada na cabeça.
Algumas modificações:
O mato tinha altura de colheitadeiras e poderia facilmente abrigar um acampamento cigano inteiro sem ninguém se quer perceber.
O jardim havia sido transformado em sala de estar. Tapetes de 6 metros cobriam diversas espécies de grama
que um dia existiram.
Nada mais fazia sentido ali.
Demorei uma década e meia para entender que aquela criança indefesa já não morava mais lá.
Que ela cresceu.
E mudou-se.
Aquela casa agora abrigava um louco.
Aquários vazios. Por todo canto.
Como se negasse a felicidade de famílias que poderiam ter peixinhos dourados.
E dissesse que faz dessa ceifada, seu ganha pão.
O mesmo com cães.
1 dezena de yorkshires largados a própria sorte.
Talvez 1 dezena de famílias mais uma vez, um pouco menos felizes.
O louco aprendeu um ofício.
E vive na sombra agonizante de fazer isso até o fim de seus dias.
Criar animais.
Criar casas de animais.
Torcer para que eles não morram.
E elas não quebrem.
Uma santa de 2 metros de altura, onde ficava a cama dos meus pais, abençoava o caos.
A vizinha certamente deve ter erguido o muro para não ter de conviver com tamanha
frustração durante os seus churrascos.
Eu me tornaria vegetariano,
para não ter de espiar pelo fresto de minha churrasqueira
tamanha atrocidade.
O louco ganhou a minha casa de infância.
Ganhou toda a minha pureza e de meu irmão.
Ganhou todo o suor de meu pai, que construiu uma sala imensa de madeiras sem usar sequer 1 prego.
E destruiu.
Destruiu como se dissesse:
Eu não preciso disso aqui.
Destruiu como se não tivesse 2 filhos para criar.
Como se não precisasse de um teto para lhe cobrir da chuva
nos dias de ressaca.
Eu sei,
quão duro foi para a minha família
construir aquele lugar.
Emprestar identidade.
Finais de semana inteiros dedicados a plantar cactos selvagens,
pés de laranja e
arbustos bonitos.
Construir casas na árvore.
E povoar um viveiro imenso
com pássaros raros.
Quão trabalhoso foi colorir
a minha infância
de memórias lindas.
E o quanto isso é
importante para mim.
Mas eu também sei que
para o louco não sobrou nada.
Para mim,
tudo.
