A criança e o louco.

Frederico Paranhos
Aug 29, 2017 · 2 min read
meus jardins eternos.

4 dias de enxaqueca. Visitar a casa de minha infância foi uma paulada na cabeça.

Algumas modificações:

O mato tinha altura de colheitadeiras e poderia facilmente abrigar um acampamento cigano inteiro sem ninguém se quer perceber.

O jardim havia sido transformado em sala de estar. Tapetes de 6 metros cobriam diversas espécies de grama

que um dia existiram.

Nada mais fazia sentido ali.

Demorei uma década e meia para entender que aquela criança indefesa já não morava mais lá.

Que ela cresceu.

E mudou-se.

Aquela casa agora abrigava um louco.

Aquários vazios. Por todo canto.

Como se negasse a felicidade de famílias que poderiam ter peixinhos dourados.

E dissesse que faz dessa ceifada, seu ganha pão.

O mesmo com cães.

1 dezena de yorkshires largados a própria sorte.

Talvez 1 dezena de famílias mais uma vez, um pouco menos felizes.

O louco aprendeu um ofício.

E vive na sombra agonizante de fazer isso até o fim de seus dias.

Criar animais.

Criar casas de animais.

Torcer para que eles não morram.

E elas não quebrem.

Uma santa de 2 metros de altura, onde ficava a cama dos meus pais, abençoava o caos.

A vizinha certamente deve ter erguido o muro para não ter de conviver com tamanha

frustração durante os seus churrascos.

Eu me tornaria vegetariano,

para não ter de espiar pelo fresto de minha churrasqueira

tamanha atrocidade.

O louco ganhou a minha casa de infância.

Ganhou toda a minha pureza e de meu irmão.

Ganhou todo o suor de meu pai, que construiu uma sala imensa de madeiras sem usar sequer 1 prego.

E destruiu.

Destruiu como se dissesse:

Eu não preciso disso aqui.

Destruiu como se não tivesse 2 filhos para criar.

Como se não precisasse de um teto para lhe cobrir da chuva

nos dias de ressaca.

Eu sei,

quão duro foi para a minha família

construir aquele lugar.

Emprestar identidade.

Finais de semana inteiros dedicados a plantar cactos selvagens,

pés de laranja e

arbustos bonitos.

Construir casas na árvore.

E povoar um viveiro imenso

com pássaros raros.

Quão trabalhoso foi colorir

a minha infância

de memórias lindas.

E o quanto isso é

importante para mim.

Mas eu também sei que

para o louco não sobrou nada.

Para mim,

tudo.

)

Frederico Paranhos

Written by

Se eu escrevo, é para não morrer.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade