Frederico Franco
Sep 8, 2018 · 3 min read

Acredito que você está muito otimista com o desenvolvimento do espaço sociogeográfico de São Paulo. A Berrini e suas imediações não fazem parte de uma descentralização da riqueza, são apenas o avanço da especulação imobiliária.

Vou aproveitar sua linha de raciocínio e usar como exemplo a Chácara Santo Antônio. Podemos dizer que o bairro seja uma amostra de policentrismo, no entanto, à medida que essa área avança do processo de gentrificação, as classes mais baixas vão sendo empurradas cada vez mais para o sul, formando-se novas periferias. Pouco essas pessoas podem usufruir e se integrar no meio recém-desenvolvido; comem, no máximo, um Big Mac no JK. Portanto, o progresso tem se espalhado pelo tecido urbano, mas não se tornado necessariamente acessível.

Sou de Mogi das Cruzes e, de fato, as duas universidades atraem demanda tanto do Alto Tietê quanto do Vale do Paraíba, mas quando nos lembramos de que as duas regiões são distantes e não fazem parte da mesma conurbação, fica claro que o que leva as pessoas a se sujeitarem a um deslocamento diário tão grande é a falta de serviços onde moram. Quem é de Jacareí não tem opção: se não vai para São José, vai para Mogi. Por que o shopping da minha cidade atrai tanta gente dos municípios da Zona Leste? Porque não há esse tipo de comércio nas proximidades. Para mim, isso é uma “pseudo-descentralização”.

Alphaville é outro exemplo que, a priori, parece corroborar sua visão — no entanto — quando o analisamos dentro da Grande São Paulo e não apenas da região Oeste, vemos que ele nada mais é que outro centralizador de riqueza. Tenho um amigo de Mauá que trabalhava em Alphaville, não por gostar de pegar quase quatro horas diárias de fretado, mas porque no seu município ainda não há um “Mauaville”. O sucesso do distrito de Barueri, assim como os espigões da Marginal Pinheiros, se dá porque os ricos gostam de ficar próximos e evitar o convívio com outras classes sociais além do necessário. O CENU, que foi erguido dando as costas à cidade, é um bom exemplo. A grande concentração de shoppings do vetor sudoeste é outro. Em vez de os investidores apostarem em diferentes polos espalhados pela metrópole, esperam que um se sature para buscarem outro.

Osasco e Suzano: cidades tão industrializadas, mas nas quais só o comercio de rua floresce…

Paulista, Berrini, Faria Lima, Vila Olímpia, Itaim, para mim não são diferentes localidades, tem o mesmo rosto e o mesmo propósito, desenvolveram-se a partir do esgotamento do anterior, como disse acima. A tal descentralização nunca ocorre de fato, pois quando a diversidade de serviços chega no seu bairro, o aluguel fica caro demais.

Você me perguntou sobre um país policêntrico e sinceramente tive dificuldade de encontrar algum. Pensei em dois lugares: a região alemã do Reno-Ruhr e as cidades americanas médias.

Se pensarmos no Médio Reno (Colônia, Düsseldorf, Bonn) e no Vale do Ruhr (Essen, Duisburg, Dortmund) como uma região metropolitana, ou mesmo duas, esta é policêntrica, pois as cidades são economicamente robustas para competirem entre si, atraírem investimentos, gerarem empregos em diversos setores e ainda compartilham uma rede de infraestrutura (não totalmente conurbada) que permite que cidadãos transitem, morem e trabalhem em qualquer um dos municípios.

Embora as cidades americanas sejam indiscutivelmente centralizadas no que diz respeito a serviços, empregos e transporte, o desenvolvimento socioeconômico das de médio porte não é tão radial. No Brasil, quanto mais distante do centro o indivíduo mora, mais pobre ele é (a menos que viva em um condomínio fechado). Em municípios como Seattle, Des Moines, Portland e Denver, por exemplo, há tanto bairros nobres quanto pobres afastados dos centros metropolitanos. Obviamente, as grandes cidades são outra realidade.

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