Frederico Pessoa
Feb 24, 2017 · 2 min read

Este texto do Guilherme Assis é um texto clássico de quem questiona toda possibilidade de se instituir uma diferença, sempre perguntando: quem define esta diferença? como define (estatisticamente, numa pesquisa)? está autorizado a definir? Coloca na frente o embate com a Eliane Brum, mas deixa por baixo todo o embate dele com a figura das mulheres negras, questionando o que autorizaria uma jovem num espaço público, negra, a falar em nome das tais “mulheres negras”. Para o autor do texto trata-se de um grupo antes de mais nada indefinível — assim se invalida a ação da menina negra e tudo o que possa estar por trás dela. Isso não seria desmerecer uma possibilidade de liame que não é constituída por ele e nem por ninguém que não as próprias mulheres negras que queiram se apropriar desta subjetividade? E isto nada tem a ver com estatística… Isso não é definível de antemão por mim ou por outra pessoa dizendo qual é o número mínimo de mulheres negras para que haja um grupo, nem tampouco o que deve objetivamente as conectar. Apenas o próprio grupo, seja ele que dimensão tiver, em sua fala e em sua ação, é que se autodefine. Podemos ter n grupos de mulheres negras e nada que um fizer invalidará a existência do outro — usando ou não turbante. Dizer que ninguém pode falar em nome deste grupo, é dizer que a menina negra que foi parte na história não poderia falar em nome deste grupo. Podemos ter n grupos de homens brancos heterossexuais pseudointelectuais (esta última seria uma definição externa ao grupo!) se digladiando na internet e não deixando, nem por um minuto, de serem homens brancos heterossexuais pseudointelectuais. E paremos de falar hipoteticamente, pois esta é a pior forma de menosprezar a realidade.

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