Decomposição

trago no peito a marca da morte. dela escorre meu sangue. o cadáver carrega o cinza do asfalto, da fuligem, do descaso. o líquido vermelho vai se espalhando pelo chão, formando um círculo cada vez maior em volta de mim. me afogo sem desespero, sentindo cada parte do corpo perder, vagarosamente, suas funções.

A gente via os garotos nos procurando, é claro. Atrás das árvores ou em cima do muro, tanto faz, lá estavam eles. Cada qual trazia em uma das mãos um galho de árvore velho, em formato Y, e um elástico amarrado nas duas pontas de cima. Alguns, mais ousados, gritavam e davam ordens. Outros, mais atentos, perdiam tempo demais nos encarando com apenas um olho.

não carrego esperança. ela é agora tão podre quanto o que sobrou da pele e da pena e do bico e dos olhos e das patas. o sol incinera meus restos, faz arder o emblema do óbito, corrói a desgraça de não ter podido voar mais alto, mais frenético, mais um pouquinho para o lado. o vento leva as sobras da decomposição.

Eles se vestiam com bermudas, regatas e chinelos. Era fácil identificá-los, se reuniam em uma praça, em frente à igreja da cidade, e formavam dois times que se separavam por cada lado. Logo em seguida, subiam nas árvores, se escondiam atrás da fonte de água ou perdiam a vergonha e vinham em nossa direção, estilingue armado, prontos para atacar.

o odor da morte penetra no solo e aniquila toda e qualquer possibilidade de plantio. faz da terra um acúmulo de podridão fétida e inútil. adubo impróprio sobre a perspectiva do nascimento. escória dos seres vivos, alimento de urubus. o tempo trouxe rachaduras pelo meu corpo. as feridas se abrem, rasgando o pouco que ainda sobra da pele.

Os menores traziam milho nos bolsos. Era uma forma inteligente de nos enganar. Com uma mão nos entregavam o alimento, com a outra arremessavam pedrinhas. Em questão de segundos e de desatenção encontrávamos um amigo ou parente esfacelado ao chão, agonizando, mexendo pela última vez o bico, pausadamente. Sem som.

a dor, o sofrimento, a angústia, a agonia, a aflição, o padecimento, a fé. o gemido, a lamentação, o pranto, o uivo, a esperança. inutilidade, náusea, repetição de atos, conjecturas. me enganava aos poucos, não haveria outro fim.

O barulho do elástico quebrava a lógica do vento, da água, da rotina. Foi um som opaco que ecoou por alguns segundos. Não me lembro ao certo se escutei antes de cair ou se cai antes de ouvir. Já não tem mais importância.