Deixa que eu resolvo

Era domingo de manhã, lá pelas 9 horas, quando minha mulher confessou. O barulho da furadeira, gritante e irritante, perfurava meus tímpanos. A gente planejava, há meses, montar uma pequena estante de livros e DVDs na sala. Enrolei, enrolei bastante o início da obra. Pedi ao zelador o equipamento elétrico emprestado, comprei as hastes e cortei uma madeira velha no marceneiro do bairro. Depois, deixei por um tempo todo o material no quarto dos fundos, junto às malas de viagem, ao skate, aos remédios, aos materiais de limpeza, até que decidimos por fim à procrastinação e dar nova cara à nossa casinha.

Eu não sou habilidoso com trabalhos manuais. Nunca fui, pra falar a verdade. Bom mesmo era meu pai, meu irmão mais velho, talvez até minha mãe e minha irmã. Eu sempre fui preguiçoso. Se me perguntavam sobre esforços físicos, dizia com orgulho e um misto de deboche preferir trabalhar com a cabeça. Não que eu seja inteligente, longe disso, mas era mais elegante. Cá entre nós, às vezes é motivo de vergonha não saber manusear ferramentas, entender de motor de carro ou ser forte o bastante para falar “deixa que eu resolvo”.

Mas o que interessa realmente é aquele domingo de manhã. Eu furava a parede da sala e pensava no meu futuro. No nosso futuro, para ser mais exato. Ana Carolina, calada, um pouco irritada com o barulho da ferramenta, preparava um café da manhã. Dava pra sentir o cheiro entrar pela sala. Faz um tempo danado que a gente está junto. Se somar o namoro, mais de 5 anos. Já tivemos dias melhores, eu confesso. No começo, uma maravilha. Depois, com a rotina, as coisas começaram a estremecer. Nada grave, aquelas brigas bestas de domingo à noite ou aquela discussão comum no lugar do bom dia com beijo na boca.

Até que, enfim, um barulho mais incisivo ofuscou o da furadeira. A frigideira, com pão e manteiga na chapa, caiu. Caiu e queimou seu pé. Você gritou em seguida. Era um som agudo, e acho, na verdade tenho certeza, nunca sairá da minha cabeça. Quando tudo fica quieto, posso ouvir o seu maldito grito. “Matias… Matias venha cá, caralho!” Corri para a cozinha largando tudo. Ana Carolina estava sentada no chão, mãos ao redor dos pés, e lágrimas nos olhos. Pediu-me, aos gritos, água gelada para aliviar a queimadura. Eu neguei. Sempre ouvi dizer que água gelada era péssimo pra pele queimada. Discutimos. Eu sugeri o hospital, tateando o bolso do moletom à procura da chave do carro. Em vão. Já ela mandou eu parar de frescura e agir como homem, pegando remédio no quartinho dos fundos, uma gaze e esparadrapo. Segui seus conselhos enquanto ela gemia de dor.

Sentado ao seu lado, taquei-lhe água boricada para limpar o machucado. Em seguida, passei uma pomada para queimaduras e coloquei gaze por cima do pé. Com uma faixa, delicadamente, enrolei a ferida, finalizando tudo com um toque de esparadrapo, como havia me pedido. Ela reclamava baixinho, às vezes deixava uma lágrima escorrer, mas depois ficava quieta. Eu pensava no seu silêncio e me assustava. O que será que está pensando? Com o passar dos dias, meses e anos, a gente sente uma vontade danada de compreender o outro, cada vez mais e mais. É um vício. Vício gostoso mas inseguro.

“Estou grávida”. Grávida? “Sim, grávida”. Sem esboçar sentimento, como se contasse a respeito de um novo cliente na empresa, um botão de camisa que caiu, uma nova insegurança. Nunca uma notícia como esta foi tão simples. Eu morria de medo de ser pai. Morria de medo de constituir uma família. O que ensinar? Como ensinar? E se as contas não fecharem? E se, e se, e se… Vou ser pai! Grito, sorrindo, com lágrimas nos olhos. Beijo seu rosto, sua boca, seus ombros e barriga. Beijar essa barriga nunca mais será igual. Me levantei, estiquei as mãos e a puxei para cima. Ainda mancando, tentando pisar sem sentir dores no chão, ela se equilibra em uma perna só. Me beija chorando. De medo, imagino. Eu também estou com medo. Um medo do caralho, pra dizer a verdade.

Ainda faltavam alguns furos na parede. Ainda faltava o café da manhã. Faltava um monte de coisa na nossa vida. Ainda falta. Sempre vai faltar. Sinto-me orgulhoso pela falta que a vida nos oferece. Pelo vazio. Há sempre formas de preencher o espaço. Basta um domingo de manhã, uma rotina banal, um acidente, uma furadeira. Preciso reformar o escritório.