Encontro inusitado.

No céu, Sócrates, Neco, Vicente Matheus e Tia Geni conversam em volta de uma mesa no Bar Todos Os Santos. O Doutor, copo de cerveja na mão esquerda, cigarro entre os dedos, reclama da falta de ressaca no Paraíso.

— Eu gostava da dor de cabeça do dia seguinte, diz o eterno camisa 8, abaixando o tronco para coçar o pé.

— Meu filho, você não aprende, né? Continua inegociável, invendável e imprestável — complementa Matheus, rindo com desdém.

Neco, altivo e sempre sério, encara as futuras gerações de jogadores, torcedora e ex-presidente à sua frente. Ao fundo, uma televisão ligada transmite um programa de esporte durante o horário de almoço.

— Ó lá! Tá vendo? Essa diretoria não respeita nossa história, diz tia Geni, irritada, batendo a palma da mão na mesa.

— Tia Geni, os tempos são outros, a gente envelheceu, responde Vicente, um pouco envergonhado, tentando convencer a si mesmo.

— Não tem essa de novos tempos! — grita Neco.

— Vê mais uma, Seu Pedro, diz Socrates apontando o indicador para o copo americano vazio — E traz uma caipirinha também, com Velho Barreiro.

Seu Pedro, dono do bar, traz duas garrafas de Original, a caipirinha e uma dose de uísque. Por conta da casa.

— Ouvi dizer que tem um sapo enterrado em Itaquera, também — comenta Luizinho, entrando no bar e piscando para o Magrão.

— Como assim? Um outro sapo? — pergunta Vicente, se virando para o Pequeno Polegar.

— É o que as pessoas comentam, presidente — responde o campeão do Quarto Centenário.

Uma veia grossa salta da testa de Vicente. Ele começa a suar frio.

— Seu Pedro, tem como usar o telegrama? Aquele especial, que envia mensagens lá pra Terra.

— Tem não, presidente. O senhor já esgotou a cota do mês e a cota do mês seguinte. Assim fica difícil, responde Seu Pedro enquanto enxuga um copo de uísque.

— Traz uma daquela pra mim, então, fazendo o favor, pede Vicente.

— Se fosse no meu tempo, invadia a sede do clube e levava todo o patrimônio pra minha casa, como fiz antes. — comenta Neco.

— Neco, os tempos são outros, rapaz — diz Luizinho.

— Essa mania que vocês tem de falar de tempo e mudança é chato pra caralho. Corinthians é um só — continua Neco.

— Só tem um jeito, meu filho, de resolver esse problema — saliente Tia Geni encarando o Vicente. — Pede pra São Jorge.

Do alto de uma montanha, a galopes, São Jorge surge, espada em mãos, rabo do dragão amarrado na cocheira.

— Por favor, São Jorge, dá um jeito nesse meu Corinthians que tá difícil de entender. Faz a torcida comparecer às urnas para naufragar meu nome… — repete pela enésima vez o ex-presidente.

— Vicente, já foi a sua vez, responde São Jorge pausadamente, com uma voz acolhedora mas firme. Anjos fazem eco à palavra Vez.

Veeeeeeeeeeeeeez — óóóóóóóóóóóóóó

— Depois da tempestade vem a ambulância, já dizia você, Vicente — comenta o Magro, gargalhando, enquanto abraça o Luizinho — Pega um copo, Baixinho, senta aqui do meu lado, conta as novidades.

Todos conversam sobre o futebol corintiano. Matheus tenta de todas as formas pedir uma segunda chance a São Jorge. O santo comenta ser impossível reencarnar. O ex-presidente, descrente do papo do santo, repete constantemente a frase “o jogo só acaba quando termina”.

Sócrates e Luizinho, por outro lado, assuntam sobre os tempos de gramado. Luizinho pede para o Magro ensinar como usava o calcanhar tão bem. Já o camisa 8 da Democracia diz que queria ter tido a ousadia do camisa 8 para sentar na bola em um jogo contra o Palmeiras.

Neco e Tia Geni discutem como fazer o Corinthians voltar ao que era antigamente. O Primeiro Grande Ídolo, mais arisco, pretende usar o telegrama Sagrado para enviar uma ameaça ao novo presidente do Clube. Tia Geni arquiteta um protesto da Torcida em frente ao Parque São Jorge.

— Mas a torcida precisa ajudar, ela comenta.

— Explica mais, tia Geni.

— Não dá pra reclamar e não ir pra jogo, meu filho. Meus netos tem que viajar mais — comenta ela, lembrando da arquibancada amarela do Pacaembu lotada.

— Até o ingresso tá caro, até o ingresso! — grita Vicente, batendo a mão na mesa e derrubando o copo do Sócrates.

— Pô, presidente, assim não dá — comenta o Magrão, agora piscando para o Luizinho.

— Com esse preço só agrada os napolitanos. Os gregos tão ficando de fora — responde Vicente, ainda bastante irritado.

— Não é só isso, Vicente. Olha o Brasil como tá, tá faltando um grupo igual aquele nosso, da Democracia.

— Seu filho nasceu nos EUA, Sócrates — debocha Neco, se levantando para ir ao banheiro.

— Não não, eu fiz um Fidel na Disneylandia.

— Tinha que voltar a jogar de cinto… — resmunga Neco do meio do salão.

— Lá vem ele com o papo do cinto — diz Luizinho, rindo e balançando a cabeça negativamente.

— … no calção. Teve um jogo que fui pra cima do juiz. Falta correr sangue nas veias, também.

— Eu saí do Corinthians porque tinha uma molecada muito ruim de bola, comenta o Pequeno Polegar.

— Eu tirei o time da fila! — diz Vicente.

— Mas não soube a hora de sair, presidente — completa tia Geni bastante séria — Ficou anos, igual Helu, Dualib, esses caras tudo.

Sócrates e Luizinho gargalham da cara de Vicente. O ex-presidente, desconsertado, tenta argumentar que só ele sabia o que era bom para o clube, que o conselho e os sócios só queriam saber da política e do agrado na conta.

Neco caminha pelo salão do bar pensando na falta que a cinta no calção faz nos dias de hoje.

Do lado de fora do bar, São Jorge amarra seu cavalo no poste e volta à mesa. Impressionados com sua capa vermelha e sua lança afiada, todos ficam em silêncio.

Calada, tia Geni faz uma oração, palma da mão para o céu sobre as coxas.

— VIVA JORGE, dizem todos, em uníssono.

— Essa é a faca de dois legumes que eu sempre quis — fala Vicente.

— Essa é a lança que eu queria para ir pra cima de quem fala mau do Corinthians — comenta a tia Geni.

— Ainda tem jeito? pergunta o Seu Pedro, de costas para eles, arrumando as garrafas na prateleira.

— Você não conhece a história do Corinthians, seu Pedro… — finaliza Neco, mãos na cintura, vestido com seu uniforme de cor bege do Timão.

Ninguém contesta.

Salve Jorge.

Salve o Corinthians!