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Joana

- Eu?

- Sim, você.

Joana enrubesce. Seu sorriso mostra grande parte da arcada dentária e suas manchinhas amareladas. Faz os olhos pequenos ficarem ainda mais mirrados. Com um pouco de nostalgia, se lembra da adolescência e dos tempos de E. E. Alvares Simão.

- Como assim eu era a garota mais inteligente da escola?

- Você gostava de discutir com os professores.

Realmente, Joana gostava de uma discussão. As dúvidas que trazia à sala de aula eram variadas. Era comum questionar o professor de matemática a respeito de questões cotidianas e indagar fórmulas, assim como adorava perguntar ao professor de história os inúmeros “porquês” e “ses” ao ser afirmado um fato. No entanto, ao voltar para casa de ônibus, se sentia chata e triste pelos deboches dos outros alunos.

- Minhas dúvidas nada tinham a ver com a aula — diz, ainda sorrindo.

- E quem disse que isso era um problema? — pergunta João Carlos.

- A maioria dos meninos me achava chata — resmunga.

- Você nos intimidava com as perguntas.

- Quer dizer que você também me achava chata?

- Um pouco.

Os dois riem. Hoje Joana está com 25 anos, se formou em administração de empresas e acabou de ser promovida na empresa. Desde o término do ensino médio havia perdido o contato com os colegas. Entretanto, depois de sair do trabalho, resolvera parar em uma rede de fast food, onde encontrara João por acaso.

- Está trabalhando? — pergunta João.

- Sim, acabei de ser promovida. Hoje sou responsável pela área financeira em uma concessionária de veículos. Eu organizo todos os gastos do setor de logística — responde Joana misturando orgulho e vergonha.

- E gosta do que faz?

- Ah, até gosto. Me formei e segui na área, acho que não tem como ser diferente — diz Joana, agora mais cautelosa.

- Bacana…

- E você, João?

- Ah, eu estou trabalhando com o meu pai.

- O que é que vocês fazem?

- Temos um depósito no centro.

- E se formou?

- Não. Abandonei a faculdade de engenharia no segundo ano e nunca mais voltei pra sala de aula.

- É… para ser sincera, nunca imaginei você estudando, seguindo uma vida acadêmica.

Joana levanta a mão direita e mexe nos cabelos. Eles são longos, castanhos e estão um pouco embaraçados. Ainda intrigada, porém orgulhosa com o elogio, ela procura maneiras de continuar a conversa.

- Sabe, a gente podia tomar uma cerveja qualquer dia desses — comenta Joana com insegurança, facilmente notada por João.

- Eu namoro, Jô. Acho que não pegaria muito bem.

- Ciumenta sua namorada?

- Sim.

- Por quê? Ciúmes não leva a lugar nenhum, muito menos uma cerveja.

- Vou saber? Nem bonito eu sou. E um pouco de ciúmes é bom, não acha?

- Você sempre foi o garoto mais bonito da escola mas também um dos mais bobos.

- Está me provocando? — pergunta João, um pouco espantado e sem graça.

Sem dizer mais palavras, Joana se levanta, pega a bandeja do almoço e joga tudo no lixo. Olha para o amigo, acena com a cabeça se despedindo e vai embora pensando no quão desnecessário fora ter estudado naquela escola.